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Muita espuma

Acusações de pedofilia e tráfico de mulheres respingam em poderosos, mas as evidências são frágeis

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“Parças”. Não se pode negar, no entanto, que Epstein e o atual presidente dos EUA compartilhavam os mesmos gostos e a mesma visão de mundo – Imagem: Arquivo/AFP
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Quando veio à tona o terceiro e último lote de documentos do caso Epstein, na sexta-feira 30, o mundo dividiu-se em dois. De um lado, incontáveis influenciadores na internet avaliaram os mais de 3 mil arquivos, 180 mil fotos e 2 mil vídeos liberados pelo Departamento de Justiça dos EUA como evidências irrefutáveis de que as elites mundiais possuem mesmo uma rede subterrânea de pedofilia, satanismo e canibalismo.

O magnata norte-americano Jeffrey Epstein, morto na cadeia em 2019, teria sido, segundo essa tese, o arquiteto de uma teia satânica que fazia com que presidentes, monarcas, donos de big ­techs, diretores de cinema e astros do rock abusassem sexualmente de meninas, algumas das quais submetidas a tortura, mutilação e até antropofagia. Entre as teorias disponíveis no mercado da internet, estaria a de que Epstein seria um agente do Mossad, o serviço secreto israelense, que teria envolvido líderes mundiais em crimes sexuais para barganhar o apoio deles aos interesses de Israel.

Para quem tomou as informações do caso Epstein dessa forma, a mídia tradicional também seria parte do esquema, pois só a cooptação dos proprietários de grandes jornais, rádios e tevês explicaria a forma relutante com que os jornalistas lidaram até agora com essas revelações.

A postura prudente da imprensa tem, no entanto, uma explicação bem mais prosaica: os documentos não são confiá­veis. O próprio FBI diz que eles podem ter sido falsificados. Além disso, grande parte do conteúdo baseia-se em denúncias sem comprovação ou depoimentos de indivíduos que afirmaram ter ouvido relatos de terceiros, não identificados.

Desde o início, pensava-se que os documentos do caso Epstein continham provas cabais de que o presidente dos EUA, Donald Trump, seria, no mínimo, um pedófilo. Uma das bases para essa suspeita é o depoimento de uma jovem anônima que garante que uma amiga teria sido forçada a fazer sexo oral com ele – e teria mordido o pênis do presidente –, quando ela tinha entre 13 e 14 anos. A própria vítima nunca apareceu, a depoente não é identificada e não é conhecido até agora nenhum outro elemento que comprove a história. Trump nunca foi denunciado por essa história.

Há, ao todo, 5,3 mil arquivos contendo mais de 38 mil referências a ele, à esposa dele e ao clube de golfe que ele possui em Mar-a-Lago, na Flórida. Em 2002, a New York Magazine publicou um extenso perfil de Epstein, mostrando o magnata como um homem poderoso e influente. Trump – que, à época, ainda não era presidente – disse à reportagem que Epstein­ era um “sujeito incrível”, e acrescentou: ele “gosta de mulheres tanto quanto eu, e muitas delas estão entre as mais novas”. Dias depois, uma pessoa identificada como Melania enviou um e-mail a Epstein, elogiando o texto publicado. Uma das hipóteses é de que a remetente fosse a mesma Melania que se tornaria esposa de Trump três anos mais tarde. Epstein respondeu à mensagem chamando Melania de “meu pêssego”.

Durante anos, Trump foi acusado de obstruir a publicação desses arquivos que supostamente o incriminariam. Várias ações intempestivas de seu atual mandato – do ataque ao Irã à invasão da Venezuela – foram tomadas como meras cortinas de fumaça para desviar a atenção do caso Epstein, até que, em novembro de 2025, a Justiça norte-americana determinou a publicação de todos os arquivos até 19 de dezembro. O último lote só saiu em 30 de janeiro, com mais de um mês de atraso.

O mais chamuscado até agora foi ­Andrew Mountbatten-Windsor, filho da rainha Elizabeth 2ª, que perdeu o título de príncipe em outubro de 2025, após as primeiras denúncias de envolvimento dele com Epstein. Uma jovem chamada Virginia Giuffre se matou depois de ter dito que havia sido forçada a manter relações com Andrew, em 2001, quando tinha ainda 17 anos. Outra diz que passou a noite com Andrew no Royal Lodge, um dos edifícios da realeza britânica, e que foi levada para passear por Buckingham, hoje residência do rei Charles III, irmão de Andrew. Numa das fotos, Andrew aparece ajoelhado ao lado do corpo de uma mulher deitada no chão.

Os documentos não são confiáveis, diz o próprio FBI. Trump é citado em mais de 5 mil arquivos

Em Londres, Andrew foi rifado. Além de ter perdido o título de nobreza, vem sendo pressionado a depor no Congresso dos EUA. “Qualquer indivíduo que tenha informações deve estar preparado para compartilhá-las na forma que lhe for solicitado”, disse o primeiro-ministro britânico, Keir Stamer. “Você não pode dizer que prioriza as vítimas se não estiver preparado para fazer isso.”

Até Lula e Jair Bolsonaro são mencionados nos arquivos. Em 2018, durante uma visita a Lula na carceragem da Polícia Federal, o linguista Noam Chomsky teria colocado o petista ao telefone para conversar com Epstein. A história é inverossímil, porque presos estão impedidos de usar celular e tampouco os visitantes podem levar um aparelho para a cela. Já Bolsonaro foi tema de mensagens trocadas entre Epstein e Steve Bannon­, um dos arquitetos da nova extrema-direita norte-americana. Como era de se esperar, as referências a Bolsonaro são positivas e carregadas de expectativa por uma vitória na eleição presidencial de 2018, que acabou se confirmando.

Com base nos documentos, é difícil pensar em um indivíduo influente que Epstein não conheça, e com quem não tenha estado e se deixado fotografar. A primeira acusação contra ele só apareceu em 2005, quando uma mulher de Palm Beach disse à polícia local que sua enteada, então com 14 anos, tinha sido aliciada pelo magnata para massageá-lo, nua, em troca de 300 dólares. No ano seguinte, ele depôs em uma Corte municipal sobre o caso. Indagado acerca de seu envolvimento com o aliciamento de menores, respondeu evocando o direito de ficar calado. Em 2008, finalmente confessou um dos crimes e fez um acordo com a Justiça, para frear as investigações. Ficou preso até 2009, quando passou a cumprir a pena em casa.

Dez anos mais tarde, foi preso novamente – desta vez, acusado de tráfico sexual de mulheres. De volta à cadeia, foi encontrado morto, com sinais de enforcamento, em um dia no qual o sistema de câmeras de sua cela estranhamente não funcionou. Os arquivos são fontes duvidosas, que não falam por si. E seu dono é agora um arquivo morto, o que se tornou conveniente para todos os envolvidos nessas histórias escabrosas. •

Publicado na edição n° 1399 de CartaCapital, em 11 de fevereiro de 2026.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Muita espuma’

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