Economia

O acordo UE-Mercosul e o atraso europeu na corrida pelos minerais críticos

Espremido entre Estados Unidos e China, o bloco aposta no acordo e em uma diplomacia extrativista para tentar preservar competitividade industrial e influência geopolítica

O acordo UE-Mercosul e o atraso europeu na corrida pelos minerais críticos
O acordo UE-Mercosul e o atraso europeu na corrida pelos minerais críticos
O presidente Lula (PT) e a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen. Foto: Ricardo Stuckert/PR
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A assinatura do acordo de livre comércio entre União Europeia e Mercosul alterou a ordem desta série sobre a geopolítica dos minerais críticos planejada para esta coluna. No lugar da análise sobre o bloco liderado pela China, pensada como o segundo texto de série, passo a abordar a posição da União Europeia e o lugar que o recém-assinado acordo UE–Mercosul ocupa nas ambições estratégicas do Velho Continente.

A hipótese central que orienta este conjunto de textos é a de que dois grandes blocos antagônicos, ainda em formação, disputarão nos próximos anos as reservas de minerais críticos e o controle de suas cadeias produtivas: de um lado, o bloco liderado pelos Estados Unidos; de outro, o conduzido pela China. Nesse arranjo, países que até recentemente ensaiavam estratégias próprias passam a gravitar em torno de um desses polos — como é o caso do Japão em relação aos EUA. A União Europeia vive situação semelhante, porém mais delicada. Antiga porta-voz global das políticas de descarbonização e transição energética, o bloco encontra-se hoje estrategicamente desarmado nos setores de alta tecnologia e da própria transição verde, comprimido entre o complexo industrial-militar estadunidense e a indústria chinesa, altamente produtiva em painéis solares, turbinas eólicas, veículos elétricos, máquinas e equipamentos industriais.

É nesse contexto que o acordo UE–Mercosul, somado à ofensiva europeia sobre a África — um déjà-vu neocolonial — surge como aposta derradeira, como tábua de salvação para uma região cuja capacidade de oferecer alternativas econômicas e sociais ao mundo parece há muito esgotada. A impotência europeia revela-se na própria natureza do acordo com o bloco sul-americano: carente de novas ideias, a Europa recorre ao passado (um tratado de livre-comércio) como promessa de futuro. Apesar do discurso oficial sobre uma transição justa e mutuamente benéfica rumo a economias sustentáveis, o continente oferece, na prática, mais do mesmo: relações assimétricas e transferência de riqueza da periferia para centros decadentes.

A esquerda radical europeia desponta como a única tentativa consistente de reinventar um continente que envelhece política e economicamente

Mas voltemos à posição da Europa no tabuleiro dos minerais críticos e de suas cadeias de valor. Em primeiro lugar, o território da União Europeia é relativamente pobre em reservas de minerais para tecnologias da informação e da transição energética. O relatório anual da Agência Internacional de Energia (IEA) indicam reservas modestas de níquel, cobre, grafita, cobalto e lítio dentro das fronteiras do bloco, que não ultrapassam 4% do total mundial no caso do níquel e apenas 1% no de cobalto e lítio. Quanto aos elementos de terras raras, a UE não dispõe de depósitos relevantes, e as principais reservas em sua órbita geopolítica, localizadas na Groenlândia e na Ucrânia, são alvo da cobiça estadunidense, que parece levar vantagem nessa disputa.

A gravidade do quadro europeu torna-se ainda mais evidente quando se cruzam os dados sobre reservas com a demanda estimada para esses minerais nas próximas décadas. Um artigo recente mostra que a UE, em 2050, só terá plena capacidade de responder à demanda interna de minerais críticos para mobilidade elétrica no caso do cobre. A produção planejada de lítio atenderia 40% da demanda interna, e as de cobalto, níquel e grafita somente 15%. O estudo não inclui a demanda futura dos setores de energia eólica e tecnologias da informação, intensivos em minerais críticos, o que nos permite presumir que a vulnerabilidade europeia seja ainda maior. 

Corrida mineral. Com vastas reservas de nióbio, terras-raras e grafite, o Brasil desperta a cobiça de grandes potências – Imagem: iStockphoto

Não resta, portanto, alternativa à UE senão lançar-se à disputa global por minerais críticos, em competição direta com EUA e China. Essa preocupação não é recente. Desde a formulação do European Green Deal, em 2019, documentos da Comissão Europeia já apontavam a dependência externa do bloco em relação às matérias-primas necessárias à transição energética. Com o tempo, tornou-se claro que o problema não se limitava a gargalos de oferta: estava em jogo a própria competitividade da Europa Ocidental nos setores emergentes da economia mundial — semicondutores, inteligência artificial, veículos elétricos, painéis solares, usinas eólicas e tecnologias militares. O relatório Draghi, publicado em 2024, cristaliza essa percepção. Redigido pelo ex-presidente do Banco Central Europeu, o documento descreve em tom direto e pessimista a paralisia europeia diante de um mundo em transformação e alerta para um verdadeiro “desafio existencial” enfrentado pelo continente.

Desde 2019, dois mecanismos principais têm sido utilizados para fazer frente àqueles desafios: o Critical Raw Materials Act (CRMA) e o Global Gateway. O CRMA surgiu em 2024 e estabeleceu as seguintes metas até 2030: aumentar para 10% o consumo anual de minerais críticos extraídos dentro da UE; realizar ao menos 40% do processamento/refino dentro da UE; limitar a 65% a dependência da UE de uma única fonte de qualquer mineral crítico ou elemento relevante da cadeia; e suprir a demanda desses materiais com pelo menos 25% originados de reciclagem. Um ano após seu lançamento, foram selecionados 60 projetos estratégicos dentro e fora da União Europeia, abrangendo distintos minerais críticos e diferentes etapas das cadeias produtivas. Prevê-se que tais projetos necessitem de EU$ 30 bilhões em investimentos nos próximos anos, dos quais já foram anunciados 3 bilhões em apoio nos próximos 12 meses – de instituições como o Banco Europeu de Investimento – além de condições privilegiadas de financiamento de licenciamento para os projetos aprovados.

O Global Gateway, por sua vez, é estratégia das potências europeias para fora do bloco, principalmente para a África. Criado em 2021 como contraponto à iniciativa chinesa Cinturão e Rota, a iniciativa, embora inclua outros setores da chamada “economia verde”, transformou-se progressivamente no braço financeiro da diplomacia das matérias-primas críticas, termo utilizado pela própria União Europeia para designar os acordos com países do chamado Sul Global neste âmbito.  São duas as prioridades de apresentadas em seus documentos: financiar corredores de exportação de minerais para a Europa e desenvolver cadeias de valor no Sul Global. Na prática, a primeira avança lentamente; a segunda é quase inexistente, apesar do discurso oficial de “benefícios mútuos”. Não por acaso, o Global Gateway é alvo de críticas por reforçar o extrativismo e o chamado colonialismo verde. Mesmo defensores da iniciativa admitem que os 300 bilhões de euros anunciados correspondem, em grande parte, à reclassificação de investimentos já existentes — o que mina a pretensão europeia de rivalizar com os mais de 200 bilhões de dólares mobilizados pela China até 2025.

É nesse cenário de fragilidade estratégica que deve ser situado o tratado UE–Mercosul. Ao apresentá-lo como oportunidade para projetos “mutuamente benéficos” de exploração de minerais críticos na América do Sul, líderes europeus ignoram o desequilíbrio estrutural inscrito no acordo. Brasil, Argentina e Bolívia concentram reservas expressivas de lítio, terras raras, grafita, nióbio e cobalto. Ainda assim, a redução tarifária tende a estimular a exportação de minerais com baixo ou nenhum processamento, reforçando a especialização primária da região.

A tese de que a abertura comercial estimularia cadeias de valor no Mercosul colide frontalmente com o apelo do relatório Draghi, que defende a proteção e o fortalecimento da produção interna em setores estratégicos. Além disso, o acordo impede o uso de instrumentos clássicos de política industrial — como cotas e preços mínimos —, enfraquecendo o poder de barganha sul-americano em um mundo cada vez mais protecionista. O resultado previsível é o aprofundamento do extrativismo e da subordinação da América do Sul às cadeias globais de valor coordenadas a partir de capitais como Berlim e Paris.

A estratégia europeia será bem-sucedida? Difícil prever, mas fatores estruturais pesam contra o bloco. Caso queira explorar plenamente o potencial das cadeias de minerais críticos,precisaria criar, em tempo recorde, um setor tecnológico capaz de competir com empresas estadunidenses e asiáticas de semicondutores e inteligência artificial, ao mesmo tempo em que moderniza indústrias tradicionais, como a automobilística e a de bens de capital, hoje pressionadas pela feroz concorrência chinesa.

Entre as 50 maiores companhias de tecnologia do mundo, apenas quatro são europeias: ASML, holandesa que fabrica os equipamentos de litografia avançada para semicondutores; SAP, gigante alemã de ERP; Siemens, também alemã, e francesa Schneider, competidores globais em telecomunicações e automação industrial. Nenhuma empresa de inteligência artificial ou computação de nuvem, nenhuma fabricante de semicondutores avançados. E todas aquelas as 4 estão, em maior ou menor medida, subordinadas ao ecossistema das big techs dos EUA, das quais utilizam os serviços de processamento, armazenamento e análise de dados. Essa relação de dependência é extensiva a toda economia europeia. Adicionalmente, no caso da ASLM, está o impedimento, por ordem dos EUA, de exportar suas máquinas mais modernas à China. 

Pouco discutido, mas decisivo, é o papel da OTAN nesse quadro. O tratado militar constringe, na prática, o desenvolvimento tecnológico da indústria bélica europeia, na medida em que o continente se vê obrigado a adquirir armamentos dos EUA e aliados extra-europeus como Israel. Ocorre, porém, que o complexo industrial-militar têm sido a origem das principais tecnologias contemporâneas, e muitas dos monopólios mundiais de tecnologia estadunidenses, por exemplo, são spin-offs de projetos militares financiados com dinheiro público. Assim, mantido o arcabouço da OTAN, a indústria militar europeia seguirá ancilar à estadunidense e pouco inovadora. 

Por fim, a política econômica ditada por Bruxelas funciona como freio adicional. As amarras fiscais — déficit limitado a 3% e dívida a 60% do PIB — dificultam o volume e a velocidade de investimentos necessários para competir com os EUA e a China. Diante disso, as elites europeias tentam abrir espaço por meio de cortes em saúde, educação e previdência, enfrentando resistência popular, ao mesmo tempo em que ampliam gastos militares para evitar a derrota na guerra por procuração na Ucrânia.

Neste clima de descontentamento, a social-democracia e a direita tradicional buscam responder aos anseios de transformação, paradoxalmente, reafirmando seus vínculos com a política econômica de Bruxelas e o atlantismo. Embora simpáticas aos interesses dos setores do empresariado ligados aos negócios “verdes” e inovadores, essa posição reforça a subordinação da Europa aos interesses do neoimperialismo estadunidense – como ficará nítido, muito provavelmente, no desfecho do capítulo relacionado à Groenlândia. As políticas de austeridade e a hesitação quanto a políticas de descarbonização fazem com que esses partidos percam apoio entre trabalhadores e as ditas classes médias, empurrando parcelas do eleitorado para a extrema-direita — mais realista no diagnóstico, embora mais cruel nas soluções.

A chamada esquerda radical também cresce neste contexto, articulando política industrial verde, crítica à austeridade, à OTAN e à tutela americana, e enxerga a China como ator necessário de uma ordem multipolar. Paradoxalmente, é essa alternativa que hoje parece a mais realista — a única capaz de fazer emergir alguma novidade política, econômica e social em um continente que, a cada dia, se transforma mais em museu de si mesmo.

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