Daniel Camargos
Repórter especial na 'Repórter Brasil', venceu diversos prêmios por reportagens, entre eles o Vladimir Herzog. Dirigiu o documentário 'Relatos de um correspondente da guerra na Amazônia' e participou da Rainforest Investigations Network, do Pulitzer Center.
Daniel Camargos
Zema não decola e fragiliza a própria sucessão
Presidenciável sem tração, o governador mineiro trava seu vice Mateus Simões e vira peça escanteada no tabuleiro da direita
Algum tempo atrás, resolvi investir parte do meu parco dinheirinho para ter acesso a um cartão de crédito que dá direito a quatro acessos por ano a salas VIP de aeroportos. Como viajo bastante a trabalho, às vezes é bom esperar uma conexão longa num lugar silencioso. Conto esse causo porque, em fevereiro de 2023, numa dessas escalas no Aeroporto de Congonhas, em São Paulo, dividi o lounge VIP com o governador Romeu Zema (Novo).
Ele estava com dois auxiliares, mas logo entrou numa sala reservada. Depois, reapareceu distribuindo sorrisos e posando para selfies já na fila de embarque, como se fosse mais um passageiro anônimo enfrentando a rotina dos voos comerciais. Gente como a gente.
A encenação de simplicidade fazia parte do personagem: o gestor austero, herdeiro de uma poderosa rede varejista mineira, dono de um patrimônio declarado de 130 milhões de reais, combinação que nunca ornou com o figurino de passageiro comum.
Quase três anos depois, a fantasia rasgou de vez. Em 18 de janeiro, o repórter Bernardo Mello, d’O Globo, revelou que o governo mineiro usou o avião oficial em compromissos ligados à pré-campanha presidencial e registrou gasto recorde com combustível, perto de 1,5 milhão de reais, valor superior ao de anos eleitorais anteriores. O caso motivou representações da oposição por uso de bens públicos em agendas políticas.
Para quem construiu a imagem criticando a farra do Estado, a contradição é arriscada. O problema é que esse desgaste coincide com um impasse bem mais objetivo.
A crise do projeto nacional de Zema vai além da candidatura que não decola. Deixa sem teto para voar o vice-governador Mateus Simões, escolhido para herdar o Palácio Tiradentes, que aparece nas pesquisas bem atrás de outros nomes como senador Cleitinho Azevedo (Republicanos) e Alexandre Kalil (PSB), ex-prefeito de BH.
Ao mesmo tempo, o padrinho político tenta se viabilizar como presidenciável e amarga números residuais nas pesquisas já realizadas — na última da Quaest, por exemplo, fica na rabeira do pelotão. É uma sinuca simples de entender, mas difícil de sair. O sucessor depende da força do governador, mas Zema não tem força para transferir.
Simões saiu do Novo e se filiou ao PSD de Gilberto Kassab. Foi em busca de mais tempo de televisão, mais dinheiro para campanha e mais estrutura partidária. Só faltou combinar com Kassab, que recentemente filiou os governadores Eduardo Leite, do Rio Grande do Sul, e Ronaldo Caiado, de Goiás, à legenda. Ambos são pré-candidatos à presidência, assim como o governador Ratinho Júnior, que já estava no PSD e, ao que tudo indica, parece ser o preferido do chefe para a cabeça de chapa.
Com esse arranjo, Zema ficou escanteado no Novo e, na prática, Mateus Simões virou refém de um dilema: subir no palanque de Zema ou apoiar alguém do próprio PSD. O melhor cenário para Simões, sem dúvida, seria ter o apoio da extrema-direita bolsonarista, assim afastando a possibilidade do deputado Nikolas Ferreira (PL) e o senador Cleitinho saírem candidatos ao governo.
Nacionalmente, o PL trabalha com Flávio Bolsonaro como eixo do bolsonarismo e chegou a tratar Zema como opção de vice. É uma boa sacada, do ponto de vista eleitoral, é claro, mas ameaça a candidatura de Simões, pois para garantir uma votação expressiva em Minas Gerais seria óbvio para o herdeiro do clã Bolsonaro apostar em nomes mais consolidados, como Cleitinho e Nikolas. Para Zema seria uma saída honrosa, mas implicaria jogar seu leal vice às cobras.
Minas é o segundo maior colégio eleitoral do país, atrás apenas de São Paulo, e historicamente funciona como termômetro presidencial. Desde a redemocratização, quase todos os vencedores do Planalto também venceram no estado. Em 2022, Lula (PT) superou Jair Bolsonaro (PL) em Minas por margem decisiva. Não por acaso, todos tratam o palanque mineiro como prioridade estratégica.
O PT, por sua vez, busca alternativas para garantir uma candidatura competitiva no estado, considerando que Rodrigo Pacheco, em busca de um novo partido após perder espaço no PSD para Simões, não sabe se, desculpem o latim, caga ou sai da moita.
Zema tentou compensar a fragilidade com presença nacional. Desde que se lançou pré-candidato, 27% das agendas oficiais ocorreram fora de Minas, aponta levantamento realizado da Itatiaia. Foram 41 compromissos externos: encontros com banqueiros, eventos empresariais e painéis políticos.
O governo virou vitrine itinerante e deixou o comando com Simões, que até hoje só foi testado nas urnas para vereador de Belo Horizonte e fala como se fosse um bedel de escola, com carisma nulo.
Zema seguiu investindo no personagem: vídeos performáticos, bordões contra adversários, episódios como comer banana com casca para encenar simplicidade. O repertório rende engajamento, não constrói palanque e deixa a imagem completamente idiotizada.
Enquanto Zema viaja e faz gracinhas nas redes sociais, Minas iniciou 2026 com previsão de déficit superior a 5 bilhões de reais e soma oito anos seguidos de orçamento projetado no vermelho. A dívida com a União dobrou durante a gestão. O sucessor entra na campanha tendo de explicar números ruins antes mesmo de apresentar propostas.
A direita brasileira de 2026 está se organizando em torno de partidos grandes, tempo de TV, alianças regionais e máquinas eleitorais robustas. Zema oferece um projeto pessoal, ancorado num partido nanico, com baixa transferência de votos e um sucessor frágil no próprio estado.
Para disputar o Planalto, precisaria mostrar força em Minas. Para mostrar força em Minas, precisaria deixar um sucessor competitivo. Não consegue nenhuma das duas coisas. O vice não decola. O presidenciável também não.
Apoie o jornalismo que chama as coisas pelo nome
Muita gente esqueceu o que escreveu, disse ou defendeu. Nós não. O compromisso de CartaCapital com os princípios do bom jornalismo permanece o mesmo.
O combate à desigualdade nos importa. A denúncia das injustiças importa. Importa uma democracia digna do nome. Importa o apego à verdade factual e a honestidade.
Estamos aqui, há mais de 30 anos, porque nos importamos. Como nossos fiéis leitores, CartaCapital segue atenta.
Se o bom jornalismo também importa para você, nos ajude a seguir lutando. Assine a edição semanal de CartaCapital ou contribua com o quanto puder.
Leia também
A disputa pela sucessão de Zema em Minas Gerais, segundo pesquisa
Por CartaCapital
TSE proíbe empresa mexicana de divulgar pesquisa sem registro sobre a eleição no Brasil
Por Wendal Carmo
Caminhadas, mas nada de leitura: a rotina de Bolsonaro na Papudinha
Por Wendal Carmo



