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Quando a saúde vira rotina: o wellness como estilo de vida contínuo

Até pouco tempo, quando o assunto era saúde, o roteiro era sempre o mesmo: adoecer, buscar ajuda, resolver o problema. Mas e se fosse possível antecipar as doenças e agir antes mesmo que elas se manifestassem? A ciência caminha a passos largos nessa direção, mas […]

Quando a saúde vira rotina: o wellness como estilo de vida contínuo
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Até pouco tempo, quando o assunto era saúde, o roteiro era sempre o mesmo: adoecer, buscar ajuda, resolver o problema. Mas e se fosse possível antecipar as doenças e agir antes mesmo que elas se manifestassem? A ciência caminha a passos largos nessa direção, mas enquanto esse futuro não se torna rotina, o cotidiano começa a se reorganizar com base em outra lógica: o de transformar o cuidado com o corpo e a mente num hábito diário. O modelo tradicional, de consultas esporádicas, exames isolados, remédios acionados só quando algo dá errado, vai perdendo espaço. No lugar dele, emerge uma perspectiva mais ampla e integrada: o wellness como parte natural da rotina, influenciando cultura, ciência e comportamento.

Essa mudança não é apenas discursiva. Ela reflete transformações profundas no comportamento do consumidor e na oferta de serviços e produtos ligados ao cuidado. Em 2026, o mercado global de bem-estar já opera sob esse novo paradigma: dados do Global Wellness Economy Monitor 2025 indicam que a economia do wellness movimentou US$ 6,8 trilhões (R$ 35,2 trilhões) em 2024 — e segue em expansão. A leitura por trás desses números é clara: prevenir, manter equilíbrio físico e mental e sustentar o bem-estar ao longo do tempo tornou-se mais relevante do que agir apenas quando o corpo falha.

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Para Ursula Coelho, biomédica e CEO da EON 2LIFE, essa transição é resultado de uma pressão que vem de dois lados. “As pessoas, por si só, estão mais preocupadas com prevenção, muito por conta do aumento da longevidade. Elas percebem que precisam se cuidar porque hoje existem recursos para isso”, afirma. Ao mesmo tempo, a própria medicina passa a incorporar tecnologias e protocolos que estimulam acompanhamentos mais frequentes e integrados. “Isso gera uma pressão tanto do público quanto da medicina para que a saúde deixe de ser pontual e passe a ser contínua.”

Ao mesmo tempo, cresce o acesso a dados pessoais de saúde. Wearables que monitoram sono, atividade física e batimentos cardíacos convivem com aplicativos capazes de interpretar biomarcadores e padrões comportamentais. Mais do que informar, esses dados passam a moldar decisões cotidianas, abrindo espaço para um cuidado contínuo, personalizado e integrado à vida real, muito além da consulta médica episódica. Nesse contexto, o wellness deixa de ser associado a modismos, dietas passageiras ou rotinas temporárias. Em 2026, ele se consolida como expressão de identidade urbana, um marcador de valores e escolhas contemporâneas.

Segundo Ursula, esse acesso ampliado à informação mudou também a relação de poder entre profissionais de saúde e pacientes. “Hoje as pessoas estão mais empoderadas dos próprios dados. Isso permite uma conversa muito mais próxima, quase de igual para igual”, diz. Ainda que o conhecimento técnico siga sendo central, a tomada de decisão passa a ser compartilhada – o que aumenta o engajamento e a adesão a longo prazo.

Ursula Coelho, biomédica e CEO da EON 2LIFE (Crédito: Camila Siles)

Da saúde reativa ao cuidado contínuo

Durante décadas, nutrição e medicina eram acionadas quase exclusivamente em momentos de crise. Hoje, esse raciocínio começa a se deslocar. “As pessoas começaram a perceber que alimentação não é sobre um objetivo, mas sobre autocuidado”, afirma Maryane Malta, diretora técnica de nutrição da Clínica Seven. Para ela, a virada está na lógica: comer e cuidar da saúde deixam de ser respostas emergenciais e passam a compor um estilo de vida sustentável.

Essa mudança, segundo Malta, foi impulsionada pela ampliação do acesso à informação. A disseminação de conteúdos por profissionais de saúde, redes sociais e mídia especializada ajudou a consolidar a ideia de que a alimentação não é opcional ou circunstancial. “Ela faz parte da vida, da rotina e de qualquer momento das pessoas. Sem alimentação ninguém sobrevive”, afirma. O cuidado nutricional, nesse contexto, passa a ser entendido como prática diária de preservação da saúde e da qualidade de vida.

Na prática clínica, porém, essa transição ainda é desigual. Maryane afirma que a busca por prevenção plena segue minoritária. A maior parte dos pacientes chega com demandas corretivas — seja por questões estéticas, desequilíbrios bioquímicos ou fases específicas da vida, como gestação e menopausa. “Em cerca de 90% dos casos, ainda é um ajuste para correção, e não para prevenção”, diz. O dado evidencia que o modelo reativo continua coexistindo com a cultura do cuidado contínuo.

Ela explica que, na maioria das vezes, o paciente já apresenta algum sinal de alerta: exames alterados, alimentação desregulada, queixas emocionais ou dificuldades relacionadas à rotina. Há também aqueles que buscam acompanhamento em momentos de transição importantes, como início da menopausa ou descoberta de uma gestação. “Nesses casos existe um pouco de correção e um pouco de prevenção, mas ainda assim a motivação inicial costuma ser reativa.”

Paralelamente, a convergência entre hábitos cotidianos como sono, estresse e atividade física redefine a compreensão sobre saúde. Dormir mal deixa de ser apenas um incômodo e passa a ser entendido como fator que impacta hormônios, alimentação e metabolismo. Essa interdependência reforça a necessidade de uma abordagem integrada, menos fragmentada e mais sistêmica.

Na nutrição, essa leitura já é central. “Hoje a nutrição funciona como um combo. Não é simplesmente a alimentação”, afirma Malta. Segundo ela, sono irregular, intestino desregulado e sedentarismo interferem diretamente na forma como o corpo utiliza nutrientes e regula hormônios de fome, saciedade e estresse. “É uma cadeia: uma coisa puxa a outra.” Dormir mal, por exemplo, compromete a liberação hormonal noturna, eleva o cortisol e dificulta a adesão ao plano alimentar no dia seguinte.

Maryane Malta, diretora técnica de nutrição da Clínica Seven (Crédito: Divulgação)

Wellness não é moda: é identidade

A presença do wellness no cotidiano extrapola dietas da moda e a busca por corpos “ideais”. O movimento aponta para a consolidação de uma identidade alinhada a escolhas mais conscientes, sustentáveis e baseadas em evidência. Ursula observa que a medicina tradicional ainda opera de forma episódica – mas esse modelo começa a ser tensionado. “Quando falamos de saúde, não deveríamos falar apenas de ausência de doença”, afirma. Para ela, o conceito de bem-estar biopsicossocial, reforçado por protocolos internacionais e pela própria OMS, amplia o entendimento do que significa estar saudável.

Essa identidade contemporânea, que combina estética, funcionalidade e previsibilidade, se ancora cada vez mais na tecnologia. Wearables, sensores corporais e plataformas digitais permitem monitorar, em tempo real, parâmetros como sono, estresse, frequência cardíaca e glicemia. Dados brutos, no entanto, não bastam.

Para Ursula, a ausência de interpretação pode gerar ansiedade. “Muita da angústia vem quando a pessoa vê números de saúde e não sabe o que fazer com aquilo”, diz. Por isso, ferramentas que combinam dados com contexto e orientação tornam-se aliadas do usuário — não apenas bancos de informação. Estratégias visuais, sínteses automáticas e entrega de dados acompanhados de insights ajudam a transformar monitoramento em ação consciente.

Esse cuidado com a mediação também redefine a relação entre paciente e profissional de saúde. Sai o modelo baseado em encontros esporádicos; entra uma dinâmica mais contínua e colaborativa, em que o indivíduo participa ativamente das decisões que afetam seu bem-estar. “Quando a decisão é da pessoa, o engajamento com o tratamento é muito maior”, afirma Ursula.

Do ponto de vista nutricional, esse novo perfil de paciente também não aceita mais soluções genéricas. “Aquela dieta pronta, receita de bolo, o paciente não aceita mais”, diz Maryane. A personalização passa a ser um valor central: genética, rotina, fase de vida e realidade social entram na equação. “Uma dieta que funciona para mim pode não funcionar para você.”

Saúde como investimento de longo prazo

O wellness se afasta definitivamente da ideia de consumo efêmero e se consolida como investimento pessoal. Não apenas para evitar doenças, mas para sustentar desempenho, saúde mental e produtividade ao longo do tempo. Segundo o Global Wellness Economy Monitor, o setor deve crescer cerca de 7,6% ao ano até 2029, alcançando quase US$ 9,8 trilhões (R$ 50,8 trilhões). Nesse cenário, consumidores investem não só em produtos, mas em serviços e experiências que promovem equilíbrio físico e emocional. A personalização, impulsionada por dados, ciência e tecnologia, segue como vetor central dessa transformação.

Para Malta, o papel da nutrição nesse contexto é cuidar do paciente de forma integral — ainda que em diálogo constante com outros profissionais. Alimentação, suplementação, manejo do estresse, sono e atividade física se articulam ao longo de toda a vida, exigindo ajustes contínuos. “Não é só sobre calorias ou macronutrientes, mas também sobre micronutrientes que o corpo deixa de produzir com o tempo”, afirma.

Ursula reforça que a ciência tem avançado não apenas no estudo das doenças, mas do indivíduo saudável. Comportamento, cronobiologia, sono e ambiente ganham protagonismo. “A qualidade de vida é construída dia após dia. Aqueles 100 anos são o resultado da soma de todos os dias vividos”, diz.

Para ela, a resposta parece clara. “Falar de saúde e bem-estar furou a bolha. Hoje é uma conversa que até a minha avó tem”, afirma. O aumento da longevidade, os avanços em medicina preventiva e o acesso a dados pessoais sustentam uma mudança que vai além de tendência de mercado. Trata-se de uma reconfiguração cultural — profunda, gradual e, ao que tudo indica, irreversível.

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