

Opinião
A hipótese de um quarto comunicado e a reconfiguração da competição sino-americana
Entre gestão da rivalidade, pressões domésticas e riscos sistêmicos, acadêmicos dos Estados Unidos e da China voltam a considerar instrumentos diplomáticos formais para estabilizar a relação
A proposta de um quarto comunicado conjunto entre Estados Unidos e China reaparece como hipótese plausível no contexto da reunião prevista para abril de 2026 entre Donald Trump e Xi Jinping. Este é o entendimento sustentado em Davos por Zhao Hai, diretor de Estudos Políticos Internacionais no Instituto Nacional de Estratégia Global da Academia Chinesa de Ciências Sociais e Graham Allison, professor de ciência política em Harvard e formulador do conceito de “Armadilha de Tucídides”.
A discussão, retomada em fóruns internacionais recentes, não decorre de impulso simbólico, mas de uma avaliação funcional: os três comunicados históricos (1972, 1979 e 1982) continuam a estruturar a relação bilateral, porém já não respondem integralmente às tensões contemporâneas. Há um entendimento entre os acadêmicos de que a competição estrutural entre as potências demanda mecanismos formais de gestão, sob pena de escaladas não intencionais e crises evitáveis.
Os comunicados anteriores cumpriram papéis específicos. O de 1972 abriu canais diplomáticos e reconheceu divergências fundamentais; o de 1979 normalizou relações e produziu efeitos jurídicos claros; o de 1982 buscou administrar o tema das vendas de armas a Taiwan. Em conjunto, estabeleceram um quadro de previsibilidade mínima, permitindo a coexistência entre competição e cooperação. Contudo, o ambiente estratégico atual é marcado por fatores ausentes à época: interdependência econômica profunda, rivalidade tecnológica sistêmica, riscos cibernéticos e a centralidade da inteligência artificial em segurança e economia.
A hipótese de um quarto comunicado deve ser analisada a partir dessa mudança estrutural. O objetivo não seria “redefinir” a relação, mas criar instrumentos adicionais de gestão. A literatura recente sobre competição entre grandes potências converge nesse ponto: quando a convergência de valores é limitada, mecanismos procedimentais tornam-se essenciais para reduzir riscos de erro de cálculo. O debate em Davos refletiu essa leitura ao enfatizar a necessidade de estruturas estáveis de comunicação, em especial entre autoridades com capacidade decisória efetiva.
Parece haver uma percepção crescente, em determinados círculos diplomáticos e acadêmicos, quanto à possibilidade de emergência de um quarto comunicado entre as grandes potências. A posição atual dos Estados Unidos nos assuntos globais reflete, em certa medida, o diagnóstico formulado por Giovanni Arrighi em Adam Smith in Beijing. Durante os anos da presidência de George W. Bush, especialmente no contexto das eleições legislativas de 2006, os desafios enfrentados pelos Estados Unidos favoreceram uma aproximação com a China, que passou a ser considerada um parceiro responsável nos assuntos internacionais.
Diante da iminência de uma crise financeira global e da impossibilidade de conduzir múltiplas guerras simultaneamente – o plano original previa cinco intervenções em três anos, incluindo Coreia do Norte e Irã –, a Casa Branca optou por negociar uma relação mais estreita com a China como potência concorrente na governança global. Essa aproximação perdurou até o início da administração Obama, quando houve a reorientação da estratégia norte-americana em direção aos mercados asiáticos, acompanhada da formulação de uma estratégia mais ampla para o Pacífico, sob a liderança de Hillary Clinton como secretária de Estado.
A fase atual da competição entre Estados Unidos e China, agora centrada em tarifas, tecnologia – com a inteligência artificial no núcleo – e Taiwan, acelerou disputas nos mercados globais. A ofensiva norte-americana em relação à América Latina, ao Irã e até mesmo a aliados europeus sinaliza um ponto de inflexão em sua hegemonia internacional.
Paralelamente, as pressões externas decorrentes de um militarismo global em expansão atingiram um ponto crítico no plano doméstico, com a ascensão de tendências autoritárias associadas diretamente à Casa Branca sob Donald Trump. Esse fenômeno central contribuiu para um cenário de conflito interno nos Estados Unidos. Nesse contexto, a harmonização da competição surge como possível alternativa para a liderança republicana, que enfrenta pressões significativas tanto nos mercados internacionais — em especial diante de instabilidades no valor do dólar — quanto nas disputas eleitorais legislativas internas.
Há, ademais, condições políticas que tornam a iniciativa plausível. A convergência circunstancial de interesses estratégicos, associada à percepção compartilhada de riscos sistêmicos, abre espaço para um quarto comunicado, como assinalado, ainda que de forma preliminar, por Graham Allison e Zhao Hai nos debates realizados em Davos. Há consenso no sentido de que uma estabilização mínima da relação exige instrumentos formais, capazes de organizar a competição, reduzir incertezas estratégicas e prevenir crises decorrentes de erros de cálculo entre as potências.
Observa-se uma fase de relativa estabilização, associada à priorização de agendas domésticas em ambos os países. Os Estados Unidos buscam reconfigurar cadeias de suprimento estratégicas e reduzir vulnerabilidades críticas. A China investe na consolidação de capacidades tecnológicas endógenas. Esse movimento simultâneo não elimina a competição, mas reforça uma lógica de dissuasão mútua: ambos os lados reconhecem que ações unilaterais podem gerar custos elevados e imediatos.
Nesse contexto, um quarto comunicado deveria cumprir funções delimitadas e operacionais. A primeira delas seria reafirmar princípios gerais de conduta, reconhecendo explicitamente a existência de competição estratégica, mas rejeitando a inevitabilidade de escalada. Tal formulação, ainda que genérica, teria relevância normativa ao sinalizar disposição para administrar divergências dentro de parâmetros previsíveis.
A segunda função consistiria na institucionalização de mecanismos de gestão de crises. Experiências recentes indicam que contatos prévios entre assessores de segurança e diplomatas seniores reduziram o potencial de escaladas involuntárias. Um novo comunicado poderia formalizar linhas diretas políticas e militares, definir protocolos de notificação prévia para exercícios e deslocamentos sensíveis e estabelecer um grupo restrito de autoridades responsáveis por consultas regulares e confidenciais. A ênfase em estruturas enxutas responde a críticas recorrentes a fóruns excessivamente amplos e pouco decisórios.
A terceira função, inevitável, envolveria Taiwan. Um quarto comunicado dificilmente resolveria o tema, mas poderia contribuir para sua estabilização. Isso exigiria linguagem precisa: reafirmação de compromissos já existentes, rejeição a mudanças unilaterais do status quo e compromisso com comunicação imediata diante de eventos potencialmente escalatórios. O objetivo não seria produzir consenso substantivo, mas reduzir ambiguidades operacionais que aumentam o risco de incidentes.
Além disso, o texto poderia contemplar os eixos centrais da rivalidade atual: tarifas, tecnologia e cadeias críticas. A experiência recente sugere limites à estratégia de contenção tecnológica, que pode estimular respostas inovadoras no país alvo. Um comunicado poderia, sem abdicar de interesses nacionais, estabelecer parâmetros mínimos de previsibilidade em controles de exportação e investimentos, criando canais formais para tratar exceções e impactos sistêmicos.
Por fim, a inteligência artificial segue central. Há convergência quanto ao potencial disruptivo da tecnologia e aos riscos transnacionais associados ao seu uso militar, econômico e social. A retomada de diálogos técnico-regulatórios, com objetivos claros de mitigação de riscos e troca de informações, poderia constituir um dos primeiros resultados concretos da reunião de abril.
Em síntese, um quarto comunicado não representaria ruptura com o passado, mas uma atualização pragmática da arquitetura diplomática existente. Não substituiria a competição estrutural, nem eliminaria desconfianças. Sua função seria mais limitada e, por isso mesmo, relevante: reduzir incertezas, criar procedimentos e oferecer previsibilidade mínima em uma relação caracterizada por alta interdependência e elevado potencial de conflito. Nesse sentido, a iniciativa deve ser avaliada menos pelo alcance de suas promessas e mais pela qualidade de seus mecanismos.
Este texto não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.
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