Do Micro Ao Macro
Expansão de redes de franquias em 2026 será mais seletiva e orientada por dados
Crédito caro, inteligência artificial e modelos mais leves passam a orientar decisões de crescimento no varejo e em franquias
A expansão de redes de franquias ocorre em um ambiente de crescimento sob pressão. Após um 2025 marcado por aumento de custos, crédito restrito e um consumidor mais cauteloso, empresas que seguem abrindo unidades enfrentam um cenário no qual rentabilidade passou a ser tão relevante quanto escala.
Mesmo com avanço no número de pontos inaugurados no último ano, operações dependentes de alto investimento inicial sentiram com mais força os efeitos de juros elevados e margens comprimidas.
Para 2026, a expectativa de uma Selic ainda alta, embora inferior à de 2025, mantém o custo do crédito elevado e limita movimentos mais agressivos, sobretudo em formatos físicos tradicionais.
Rentabilidade vira o principal teste da expansão
A pressão sobre resultados mudou a lógica de crescimento. Segundo Marcelo Cherto, fundador e presidente da Cherto Consultoria, o principal desafio enfrentado pelas redes em 2025 foi equilibrar abertura de unidades com retorno financeiro.
“Apesar do avanço em número de operações, muitas redes conviveram com pressões simultâneas e inéditas”, afirma. Entre os fatores citados estão a elevação dos aluguéis, a escassez de pontos comerciais bem localizados e negociações mais duras com shoppings, que reduziram margens de franqueados e operadores independentes.
Além disso, o crédito permaneceu limitado e caro, com poucas linhas direcionadas à expansão. “Some-se a isso a dificuldade crescente de contratar e reter equipes, especialmente nas funções básicas, o que impactou diretamente a operação e a velocidade de crescimento”, diz Cherto.
Modelos mais leves ganham espaço
Esse conjunto de restrições acelerou a adoção de formatos de expansão menos intensivos em capital. Estruturas com menor dependência de pontos físicos premium e menor número de funcionários passaram a ganhar tração.
Studios, dark kitchens, franquias digitais e modelos B2B aparecem como alternativas mais compatíveis com o momento econômico. Para Cherto, esse movimento tende a se intensificar ao longo de 2026. “São modelos mais leves, com menos funcionários e custos menores. Fazem sentido em um ambiente de crédito caro e consumo cauteloso”, afirma.
Inteligência artificial entra na fase operacional
A expansão de redes em 2026 também será marcada pela consolidação do uso de inteligência artificial. Se 2024 foi o período de experimentação e 2025 trouxe os primeiros projetos estruturados, o próximo ano deve aprofundar a aplicação da tecnologia em etapas críticas do crescimento.
Segundo Cherto, redes já utilizam IA no atendimento a interessados, na seleção de operadores, no suporte remoto, no treinamento de equipes, na análise de desempenho por unidade, na logística e na precificação. “A diferença entre quem adota IA e quem resiste à tecnologia será cada vez mais visível nos números”, afirma.
Seleção passa a valer mais do que velocidade
O ambiente mais cauteloso também alterou os critérios de decisão. Para Cherto, a fase de crescer sem filtros ficou para trás. A expansão passou a ser tratada como um processo analítico, com foco em previsibilidade e controle.
Esse novo ciclo se apoia em decisões mais regionalizadas, com abertura de unidades apenas onde há aderência real ao mercado local e operadores alinhados ao território. “Crescer por oportunidade deu lugar a crescer por coerência”, resume.
Dados substituem intuição
Outro ponto que ganha peso é o uso sistemático de dados. Ferramentas de georreferenciamento, análise de fluxo urbano, padrões de consumo e histórico de performance passaram a orientar decisões antes baseadas em percepção subjetiva.
Para Cherto, essa mudança é definitiva. “As melhores decisões estão ancoradas em dados, não em intuição”, afirma.
Governança entra no radar da expansão
A exigência por governança também se intensificou. Investidores e parceiros passaram a demandar transparência, processos estruturados e suporte consistente como condição para novos aportes ou acordos de crescimento.
Segundo Cherto, método passou a ser o fator que sustenta a escala. “É melhor ter menos unidades bem administradas, nas mãos dos operadores certos, do que uma rede maior com operações problemáticas”, afirma.
Diante desse cenário, a expansão de redes em 2026 tende a avançar em ritmo mais calculado, com foco em modelos compatíveis com o custo do capital, uso intensivo de tecnologia e decisões guiadas por dados. O crescimento permanece, mas sob critérios mais rigorosos.
Apoie o jornalismo que chama as coisas pelo nome
Depois de anos bicudos, voltamos a um Brasil minimamente normal. Este novo normal, contudo, segue repleto de incertezas. A ameaça bolsonarista persiste e os apetites do mercado e do Congresso continuam a pressionar o governo. Lá fora, o avanço global da extrema-direita e a brutalidade em Gaza e na Ucrânia arriscam implodir os frágeis alicerces da governança mundial.
CartaCapital não tem o apoio de bancos e fundações. Sobrevive, unicamente, da venda de anúncios e projetos e das contribuições de seus leitores. E seu apoio, leitor, é cada vez mais fundamental.
Não deixe a Carta parar. Se você valoriza o bom jornalismo, nos ajude a seguir lutando. Assine a edição semanal da revista ou contribua com o quanto puder.
Leia também
Cinco tendências do varejo e das franquias que guiarão 2026
Por Do Micro ao Macro
Não ganhou na Mega? Franquias acessíveis podem ser sua porta de entrada no ramo
Por Do Micro ao Macro



