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Até a última gota

Após a privatização, a Sabesp bate recorde de captação e deixa os seus reservatórios em níveis críticos

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“Apartheid hídrico”. A redução noturna da vazão compromete o abastecimento dos bairros com maior vulnerabilidade social, observa ex-presidente da ANA – Imagem: iStockphoto e Cléia Viana/Agência Câmara
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As chuvas torrenciais que têm inundado avenidas de São Paulo pouco aliviaram a situação do saturado Sistema Cantareira, responsável por abastecer a capital com águas que nascem longe da cidade, na bacia do Rio Piracicaba, no Sul de Minas Gerais. Diante do que especialistas chamam de “tragédia anunciada”, se Tarcísio de Freitas quiser usar a privatização da Sabesp como vitrine de campanha, precisará não apenas negociar com São Pedro uma melhor pontaria nas tempestades, mas também contar com a colaboração do governador do Rio de Janeiro, Cláudio Castro, para evitar problemas com o excesso de água retirado do Rio Paraíba do Sul, que abastece os dois estados e tem impedido o colapso do sistema paulista.

Diante do nível crítico das reservas, a Sabesp tem extrapolado o limite de metros cúbicos que podem ser retirados dessa interligação, na expectativa de que as chuvas futuras “devolvam” o volume perdido – uma espécie de “pedalada hídrica”. Mesmo assim, a população mais vulnerável já enfrenta torneiras secas, com tendência de agravamento do cenário no pico do verão.

Os 39 municípios atendidos pela ­Sabesp na região metropolitana de São Paulo estão em estado de alerta devido à escassez hídrica. O nível de reservação dos sistemas que abastecem essas cidades, com exceção do reservatório de Cotia, está em patamares críticos. O Cantareira já opera a 20,2%, índice mais baixo desde a crise hídrica de 2014. Para garantir alguma estabilidade do fornecimento de água para a população, a empresa conta com o reforço da interligação entre as represas Jaguari (RJ) e Atibainha (SP), inaugurada em 2018, que permite a transferência de até 8,5 metros cúbicos por segundo para o sistema paulista, podendo alcançar uma cota anual de 162 bilhões de litros.

Agora, dificilmente a população escapará de um racionamento de água em 2026

A Sabesp tem, porém, extrapolado esse limite sistematicamente, “antecipando a retirada de água do futuro”, mesmo sem garantias de chuvas para recompor o sistema, denuncia o ex-presidente da Agência Nacional de Águas (ANA), Vicente Andreu. Trata-se de uma “irresponsabilidade técnica” mantida por um pacto de silêncio político. “Certamente, Castro aceita essa situação passivamente para não contaminar a campanha do Tarcísio”, afirma. Andreu lembra ainda que, durante a administração de Geraldo Alckmin­, o então governador do Rio de Janeiro, Luiz Fernando Pezão, “brigou judicialmente por conta dessa alocação de água”.

Mesmo com a manobra da Sabesp, a falta de água persiste em várias regiões do estado. No réveillon, bairros do Litoral Norte passaram dias com as torneiras secas. No Litoral Sul, banhistas formaram filas com baldes, aguardando caminhões-pipa enviados pela companhia, relata Amauri Pollachi, coordenador do Observatório dos Direitos à Água e ao Saneamento. Na periferia da capital, a situa­ção é semelhante. Algumas regiões ficaram dias sem abastecimento, diz Antônio da Silva, diretor do Sindicato dos Trabalhadores em Água, Esgoto e Meio Ambiente (Sintaema). Na Zona Sul, Capão Redondo e Campo Limpo sofrem longos períodos sem água. Na Zona Oeste, bairros como Butantã recebem água com coloração turva. “O cloro acumulado na tubulação cria uma crosta e, quando a água fica parada por muitas horas, retorna com aspecto terroso. É consequência da redução de pressão usada para conter o desabastecimento”, explica Silva.

Por enquanto, a principal medida operacional da Sabesp para reduzir o consumo e as perdas do sistema tem sido ampliar o período de redução da vazão de água. O plano de contingência, anunciado em agosto, previa inicialmente a redução da pressão durante oito horas por noite em diversas localidades. Em outubro, a companhia estendeu a medida para dez horas diárias e avisou que pode chegar a 16 horas se os níveis dos reservatórios não melhorarem. A estratégia ajuda a diminuir as perdas por vazamentos ao longo da tubulação, que chegam a mais de 30% do volume de água potável disponível. Por outro lado, bairros situados nas “franjas” do sistema ou em áreas mais altas podem ficar sem abastecimento, especialmente se as residências não tiverem estruturas adequadas de armazenamento.

Regulação frouxa. A empresa não parece preocupada em manter reserva de segurança – Imagem: Nelson Almeida/AFP

Esse cenário cria o que Andreu chama de “apartheid hídrico”. Quando a água retorna aos encanamentos residenciais, os bairros mais próximos das estações e os localizados no “meio do caminho” recebem o recurso primeiro, enquanto os mais vulneráveis levam mais tempo para ter o abastecimento restabelecido, impondo uma privação contínua aos mais pobres.

A diretora-executiva de Relações Institucionais e Sustentabilidade da Sabesp, Samanta Souza, admite que a falha ocorre e que os bairros mais distantes enfrentam longos períodos sem água. No entanto, afirma que a empresa atua para corrigir esse déficit. Desde o início da concessão, em junho de 2024, foram instaladas caixas d’água em 4 mil domicílios de alta vulnerabilidade da região metropolitana, por meio do programa Reserva Certa, no qual o Estado fornece e instala os equipamentos. Nas residências com sistema de reservação adequado e autonomia de 24 horas “há pouquíssima reclamação”, garante a diretora.

O Sistema Cantareira já opera a 20,2%, nível mais baixo desde a crise hídrica de 2014

Segundo Souza, ao assumir essa responsabilidade, o Grupo Equatorial, acionista majoritário da Sabesp, deparou-se com uma “tempestade perfeita” para lidar e ainda alcançar a meta de universalização do saneamento até 2029. “Essa escassez é resultado de problemas históricos, de uma estrutura obsoleta que precisa de reformas, e de eventos climáticos atípicos, mas ainda não estamos em um cenário de crise”, ressalta.

Desde que passou ao controle privado, a Sabesp opera sob a lógica de extração máxima dos recursos hídricos, deixando de lado a margem de segurança de 20% abaixo da outorga que mantinha anteriormente, alertam especialistas. Esse comportamento fica evidente nos gráficos de captação, que mostram um salto imediato a partir da desestatização, em outubro de 2024 (gráfico nesta página). O coordenador de Conhecimento do Instituto Águas e Saneamento, Eduardo Caetano, observa que, em fevereiro de 2025, a companhia “bateu recorde de retirada, atingindo um nível que não se via desde a crise hídrica de 2014”. Segundo ele, se a empresa lucra ao “vender água”, não surpreende esse volume de extração, mesmo quando a prioridade deveria ser garantir uma reserva de segurança nos mananciais. Se o ritmo continuar, as medidas de contenção terão de ser “duradouras e constantes”.

Souza explica que, apesar de operar no limite, a empresa segue as regras da Agência Reguladora de Serviços Públicos do Estado de São Paulo (Arsesp) e da SP Águas. O ex-presidente da Arsesp, economista Hugo de Oliveira, alerta, porém, que essa anuência ocorre porque os órgãos fiscalizadores foram “esvaziados para garantir a segurança jurídica dos acionistas”. Segundo ele, houve um arranjo para reduzir o controle público e manter a formalidade burocrática. “O papel da ­Arsesp passou a ser basicamente o de carimbar reajustes de tarifa, totalmente secundário”, critica. “É uma farra regulatória”, emenda Andreu, ex-presidente da ANA.

José Mairton Barreto, diretor de base do Sintaema, revela que a exploração desenfreada tem causado impactos negativos no sistema hídrico. Nas últimas semanas, os funcionários da Sabesp começaram a testar equipamentos para acionar o volume morto dos reservatórios. “Há equipamentos remanescentes da crise de 2014 que devem ser colocados em operação entre março e maio, para extrair água do volume morto das represas Jaguari e Jacareí”. Caso a situação não melhore, o servidor não descarta a possibilidade de São Paulo ficar sem água ainda este ano. •

Publicado na edição n° 1398 de CartaCapital, em 04 de fevereiro de 2026.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Até a última gota’

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