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Viver a política e a mitologia

As biografias de Raoni e Nahu, escritas por seus netos, revisitam as lutas dos povos originários nas últimas décadas

Viver a política e a mitologia
Viver a política e a mitologia
Dois mundos. Ainda jovem, o kaiapó Raoni deixou a aldeia para confrontar o poder e lutar pela demarcação de terras. Nunca deixou, porém, de atuar como pajé – Imagem: Vanessa Lea
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Refletindo a revisão pela qual a história oficial tem passado, duas das maiores lideranças indígenas do País ganharam, em 2024 e 2025, biografias que iluminam suas trajetórias e realçam os caminhos para a conquista de direitos dos povos originários nas últimas décadas.

Raoni – Memórias do Cacique narra a vida de Raoni M˜etyktire, o kaiapó que saiu do interior de Mato Grosso para confrontar o poder institucionalizado em busca da demarcação justa de Terras Indígenas e conquistar o mundo com sua luta incansável.

Dono das Palavras recupera a história de Nahu Kuikuro, um dos principais interlocutores do Alto Xingu junto às lideranças brancas e figura-chave para a criação do Parque Indígena do Xingu.

As duas obras foram escritas pelos netos dos líderes e são fruto de pesquisa minuciosa que recebeu suporte de antropólogos e indianistas. E, mais importante, são livros que contam histórias, algumas delas antes relatadas na mídia, a partir do ponto de vista dos indígenas, não dos brancos, com protagonismo das vozes e das mitologias da floresta.

Nascido em 1937, na bacia do Rio Xingu, no norte de Mato Grosso, Raoni demonstrava pendor para liderança desde a adolescência. Com pouco mais de 15 anos, foi trabalhar com os irmãos indigenistas Cláudio e Orlando Villas Bôas no Parque Nacional do Xingu, com quem fortaleceu uma relação que durou meio século.

Nesse período, além de mediar conflitos existentes dentro de seu próprio povo, ele destacou-se na arena política tanto no Brasil quanto no exterior. A partir de 1960, quando se encontrou com o presidente Juscelino ­Kubitschek, para reivindicar a Ilha do Bananal (TO), que seria convertida em polo turístico, Raoni se transformou em figura onipresente em Brasília.

“Você já fez Brasília para os brancos. A Ilha do Bananal é dos indígenas”, teria dito ele a JK. Desde então, os únicos presidentes que não o receberam foram ­Michel Temer (2016–2018) e Jair Bolsonaro (2019–2022). Em 2023, Raoni foi um dos escolhidos para subir a rampa do Palácio do Planalto com Lula na posse de seu terceiro mandato como presidente.

Com o notável batoque de madeira no lábio, sua figura carismática ganhou a simpatia do mundo. Ao lado do músico inglês Sting, conquistou adeptos em uma jornada que dura até hoje. Um exemplo é o prêmio Liberatum Cultural Honors – uma plataforma global de diplomacia cultural – recebido em 28 de dezembro. Foi criado ainda o Fundo Legado Cacique Raoni para garantir a continuidade da defesa da Amazônia.

Raoni – Memórias do Cacique é um compilado de entrevistas concedidas por ele aos netos – palavra que, na cultura kaiapó, inclui os filhos, netos e bisnetos de seus irmãos. As conversas partiram de um desejo do cacique de ter suas memórias publicadas em português para um público não indígena.

Raoni – Memórias do Cacique. Raoni Metyktire. Companhia das Letras (296 págs., 89,90 reais)

“Nosso avô viveu em dois mundos”, explicam os netos no prefácio. Além de dar voz a seu povo fora da aldeia, Raoni teve intensa atuação como pajé, o que justifica a inclusão das mitologias e da vida espiritual na narrativa.

No prólogo, o antropólogo Fernando Niemeyer, que decupou o material gravado, destaca que o livro também é uma resposta à dívida que a sociedade brasileira tem com os povos originários, refletida no enorme abismo entre a riqueza do pensamento e o pequeno número de publicações de autores indígenas.

Foi também a salvaguarda da memória que motivou o neto de Nahu Kuikuro a escrever Dono das Palavras. Ao assistir a Xingu (2012), dirigido por Cao Hamburger­, Yamaluí Kuikuro Mehinaku notou que o avô havia desaparecido da história.

Por meio de entrevistas com parentes e amigos de Nahu, Yamaluí busca desfazer esse apagamento da história oficial. No livro, o último século de história do Xingu é contado a partir da vida do avô.

Dono das Palavras. Yamaluí Kuikuro Mehinaku. Todavia (216 págs., 84,90)

O título da obra vem da importância que a palavra teve na vida de Nahu. Logo cedo, ele aprendeu português, a língua dos brancos. Com isso, tornou-se um interlocutor entre o povo kuikuro e os não indígenas. Embora ele não fosse nobre dentro de sua sociedade, a capacidade para estabelecer pontes entre mundos, deu-lhe status. Rapidamente, Nahu tornou-se homem de confiança dos irmãos Villas Bôas e, ao lado deles, teve papel importante na criação do Parque Nacional do Xingu.

O livro é bilíngue, com os textos em ­kuikuro e português colocados em duas colunas, lado a lado. O tom, quase coloquial, segue a forma de contar histórias dos Kuikuro: “Nahu cresceu com o leite de sua mãe/ Algum tempo depois, faleceu o pai./ Ainda era bebê quando seu pai o deixou./ Morreu em Alahatuá./ Só ficou a mãe”.

Além de jogar luz sobre as negociações entre brancos e indígenas, o relato revela um Nahu de memória prodigiosa, mestre de saberes distintos como cantos, rezas e atividades rituais. Sua importância no Xingu era tal que, ao morrer, em 2005, foi celebrado com um Quarup, ritual fúnebre destinado a grandes chefes. “Foi um dos maiores que pude assistir”, diz o antropólogo Carlos Fausto no livro.

Homens que, ainda jovens, saíram de suas aldeias para se aventurar no mundo dos brancos, tanto Raoni quanto Nahu impressionam não só pela disposição para o enfrentamento político, mas pela capacidade de funcionar como mediadores em tempos nem sempre fáceis. •

Publicado na edição n° 1398 de CartaCapital, em 04 de fevereiro de 2026.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Viver a política e a mitologia’

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