Maria Rita Kehl

Opinião

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Ouvidos para quê?

Bolsonaro quase cumpriu a promessa de acabar com a democracia. Por que tantos brasileiros ignoraram – ou fingiram ignorar – essa ameaça?

Ouvidos para quê?
Ouvidos para quê?
Ataques de 8 de Janeiro em Brasília – Imagem: Joédson Alves/Agência Brasil
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Caros leitores, pela primeira vez uso este espaço para recomendar um livro: Arquitetura da Destruição: Um Diário da Era Bolsonaro, do Palanque à Condenação (Ed. ­Autêntica), de Bernardo Mello Franco. A obra reúne análises escritas pelo jornalista no calor dos acontecimentos e publicadas nas páginas do jornal O ­Globo. Reunidas em volume, essas colunas adquirem, como observa a historiadora Heloisa Starling no prefácio, a dimensão de um poderoso testemunho sobre a trajetória do homem que prometeu acabar com a democracia brasileira – e quase cumpriu a promessa.

Bolsonaro jamais escondeu suas pretensões ditatoriais. Em 1999, quando questionado sobre o que pretendia fazer caso fosse eleito presidente da República, não hesitou em defender o fechamento do Congresso Nacional. “Daria um golpe no mesmo dia. Não funciona! Tenho certeza que pelo menos 90% da população ia fazer festa e bater palma”, afirmou, antes de acrescentar que o voto popular é incapaz de produzir mudanças concretas no País. “Você só vai mudar, infelizmente, quando um dia nós partirmos para uma guerra civil aqui dentro. E fazendo um trabalho que o regime militar não fez, matando uns 30 mil. Começando com FHC…”. Por que tanta gente não acreditou – ou fingiu não acreditar – na promessa do capitão?

Tão logo assumiu o governo, Bolsonaro expôs sua vocação autoritária, inclusive com ofensas e ameaças ao Supremo Tribunal Federal. A pregação contra as urnas eletrônicas e o sistema eleitoral escalou após a Corte confirmar, em 2021, a anulação das condenações de Lula. Naquele momento, Bolsonaro colhia os resultados da gestão desastrosa da pandemia de Covid-19 – mais de 700 mil mortes –, enquanto o adversário petista despontava como favorito nas pesquisas de intenção de voto.

Até então inerte, o Judiciário despertou quando o ministro Luís Roberto Barroso, então presidente do TSE, determinou a abertura de um inquérito para apurar seis crimes na avalanche de acusações falsas de Bolsonaro contra as urnas: corrupção, fraude, conduta vedada a agente público, campanha extemporânea, uso indevido dos meios de comunicação e abuso de poder político e econômico. Barroso também enviou uma notícia-crime ao STF para incluir o capitão na mira do inquérito das fake news.

Bolsonaro ainda tentou intimidar o Congresso com um desfile de blindados, mas o plano não saiu como esperado, observa Mello Franco: “Os parlamentares rechaçaram a pressão e sepultaram a farsa do voto impresso. A parada fora de época virou alvo de chacota nas redes”. Poucos fanáticos assistiram à tragicômica passagem dos tanques, com motores queimando óleo diesel e soltando fumaça preta. Ainda assim, contava com a proteção do presidente da Câmara, Arthur Lira, que engavetou mais de uma centena de pedidos de impeachment contra ele em troca de um bilionário “orçamento secreto” para manejar.

Felizmente, as instituições não deixaram de funcionar. Em 2021, o TSE bloqueou a monetização de sites que disseminavam mentiras, a principal arma dos bolsonaristas contra adversários. Alexandre de Moraes avançou no inquérito das fake news e dos atos antidemocráticos. Após a intentona bolsonarista de 8 de janeiro de 2023, assumiu também a relatoria da ação penal contra o núcleo central da trama golpista. Provas reunidas pela Polícia Federal e pela Procuradoria-Geral da República possibilitaram a inédita condenação de um presidente e de altos oficiais das Forças Armadas por conspirar para um golpe de Estado no Brasil.

De nada adiantaram as súplicas dos golpistas em quartéis ou grupos de oração. Se existe, Deus aparentemente não moveu uma palha para salvar o bolsonarismo. O líder da seita ainda tentou usar a vitória de Donald Trump nos Estados Unidos para alterar os rumos do seu julgamento no Brasil, mas a conspiração fracassou. Bolsonaro não poderia prever que Lula, hábil negociador desde os tempos de sindicalista, negociaria o relaxamento das tarifas e sanções impostas pelo presidente norte-americano, que ao cabo constatou ter uma “química excelente” com o homólogo brasileiro.

Os textos de Mello Franco trazem análises certeiras e corajosas, que merecem ser relidas em perspectiva histórica. Não surpreende, portanto, que Bolsonaro tenha fustigado jornalistas ao longo de todo o governo: “Vocês são uma porcaria de imprensa!”, costumava bradar. Antes de encerrar, vale resgatar a declaração do ministro Flávio Dino, do STF, por ocasião dos 60 anos do golpe de 1964: “Não existe, em nosso regime constitucional, um poder militar. O poder é apenas civil”. Perfeito! É reconfortante saber que, diante de uma nova ameaça despótica, o Brasil preservou a democracia. •

Publicado na edição n° 1398 de CartaCapital, em 04 de fevereiro de 2026.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Ouvidos para quê?’

Este texto não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.

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