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An African-American woman laughs lightly while looking at her smartphone, a blue credit card in hand suggesting a joyful online shopping experience or the ease of managing finances digitally.

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Cartão, crédito e cidadania

Como o uso cotidiano do cartão passou a ampliar acesso, organização financeira e participação na economia formal

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Ao longo de décadas, o cartão de crédito circulou pelo imaginário brasileiro como um objeto distante, quase um símbolo de distinção, guardado na carteira de poucos e usado para mostrar status, sempre associado à ideia de consumo e a uma certa promessa de conforto imediato. 

Com o tempo, à medida que o sistema financeiro se expandiu, se digitalizou e passou a alcançar mais gente, esse pedaço de plástico deixou de ser exceção ou privilégio e passou a fazer parte do cotidiano, assumindo funções que vão além da compra em si e se aproximam da organização da vida financeira e da participação na economia formal.

Esse processo, no entanto, não foi linear. Embora o uso do cartão já tivesse se ampliado, durante muito tempo ele veio acompanhado de uma relação pouco transparente com os próprios gastos, já que o acompanhamento das despesas dependia de extratos impressos ou da chegada da fatura no fim do mês, quando a surpresa nem sempre era agradável.

Para muita gente, o cartão funcionava no escuro, acumulando compras invisíveis que só ganhavam forma quando o valor final aparecia, pronto para ser pago — ou explicado.

A mudança começou quando o crédito deixou de ser apenas concedido e passou a ser acompanhado. A possibilidade de visualizar os gastos em tempo real, organizar faturas, acompanhar limites e identificar compras à medida que acontecem alterou a relação entre o usuário e o cartão, reduzindo a distância entre o ato de comprar e a consciência do impacto financeiro. 

Ao trazer previsibilidade para o uso cotidiano, essas ferramentas transformaram o cartão de um instrumento cercado de incertezas em um aliado do planejamento financeiro.

Essa virada acompanhou um movimento mais amplo de inclusão financeira no país. Hoje, 84% dos brasileiros adultos possuem conta bancária e cerca de 75% da população já utilizou o Pix, índices que colocam o Brasil acima da média global e dos países emergentes. Mais do que estatísticas, esses dados indicam uma mudança estrutural na forma como a população se relaciona com o dinheiro.

Esse avanço resulta da combinação entre políticas públicas, expansão dos correspondentes bancários e digitalização dos bancos, que reduziram barreiras e aproximaram o sistema financeiro da vida diária.

Até aqui, o cartão já não era mais apenas um símbolo de acesso, mas um objeto presente na rotina. Os números ajudam a dimensionar o alcance: hoje, ele responde por cerca de 40% do consumo das famílias brasileiras e movimentou R$ 2,1 trilhões em 2022. 

Mais do que volume, esses dados indicam capilaridade, já que para milhões de pessoas o cartão representa o primeiro contato estruturado com o crédito formal, viabilizando pagamentos digitais, compras online e acesso a serviços que dependem de meios eletrônicos de pagamento.

O modo como esse cartão passou a ser usado ajuda a explicar essa mudança de status. Em grande parte das compras parceladas, o consumidor não paga uma taxa de juros explícita na fatura, o que não significa custo zero: com frequência, o preço já incorpora esse parcelamento desde a origem. Ainda assim, quando bem integrado ao planejamento, o cartão deixa de ser uma solução de emergência para ser uma ferramenta de organização, ao distribuir despesas ao longo do tempo sem recorrer ao rotativo.

Esse ganho de previsibilidade, no entanto, não elimina riscos. Educação financeira segue sendo determinante para que o limite disponível não seja confundido com renda, uma distorção comum em momentos de aperto ou desorganização do orçamento. Sem esse cuidado, o mesmo instrumento que ajuda a planejar pode se tornar fonte de desequilíbrio, especialmente quando o uso migra para modalidades mais caras de financiamento.

Falar em cidadania econômica, portanto, vai além de garantir acesso ao crédito. Envolve informação clara, educação financeira, transparência nas condições de uso e mecanismos que protejam o consumidor no dia a dia. 

Ferramentas que permitem acompanhar gastos, identificar compras indevidas, contestar cobranças e compreender a fatura reduzem a distância entre o sistema financeiro e o usuário, fortalecendo a capacidade de decisão.

O cartão também se conecta à renda e à atividade produtiva, especialmente quando utilizado por pequenos empreendedores e trabalhadores autônomos. Linhas de crédito mais acessíveis ajudam a sustentar negócios locais, organizar o capital de giro e manter a atividade funcionando, fazendo com que o crédito deixe de apontar apenas para o consumo futuro e passe a circular na economia presente.

O que a experiência brasileira recente sugere é que inclusão financeira não se esgota no acesso inicial, mas se constrói no uso contínuo e consciente das ferramentas disponíveis. 

O cartão não mudou de forma, mas mudou de função. Ao acompanhar a ampliação do acesso ao sistema financeiro e o uso mais consciente do crédito, ele se afastou do papel de simples meio de pagamento e se tornou parte do repertório que sustenta acesso, organização e autonomia econômica.

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