Educação

‘Estatísticas cristalizadas não capturam a complexidade da vida trans’

Pioneira nos estudos sobre cotas trans, a pesquisadora, mãe e avó Sara York reflete sobre o futuro das pessoas trans, da educação à velhice 

‘Estatísticas cristalizadas não capturam a complexidade da vida trans’
‘Estatísticas cristalizadas não capturam a complexidade da vida trans’
Sara York foi uma das primeiras pesquisadoras a investigar as cotas trans no Brasil (Foto: Arquivo pessoal)
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No Brasil, falar sobre pessoas trans quase sempre começa e termina em números. Estatísticas repetidas à exaustão moldam um imaginário de morte precoce, exclusão educacional e destino social interrompido. O país que mais mata pessoas trans no mundo, a expectativa de vida de 35 anos, a ínfima presença no ensino superior: dados que circulam como verdades absolutas, raramente interrogadas em seus métodos, contextos e interesses políticos. O efeito é perverso: ao mesmo tempo em que denunciam a violência, cristalizam a ideia de que a vida trans é, por definição, inviável.

Neste terreno, a pesquisadora Sara York, 57 anos, constrói uma inflexão incômoda. Formada em Pedagogia pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), pioneira nos estudos sobre cotas trans na educação. Mãe e avó, York tensiona os modos de produzir e ler estatísticas sobre pessoas trans, propondo deslocar o foco da contagem para o contexto, da exceção para a estrutura, do dado bruto para a experiência.

Precisamos pensar em como fortalecer essas políticas para que não apenas abram portas, mas também transformem efetivamente as instituições

Ao colocar a experiência trans no centro da análise, ela desafia tanto a neutralidade acadêmica quanto os consensos fáceis do progressismo institucional. Seu trabalho percorre o tempo, a travestilidade que envelhece, acumula memória e cobra coerência histórica, oferecendo exemplos concretos de resistência: da vivência como moradora de rua, expulsa de casa, passagem por processos de “cura gay” e maternidade, à trajetória acadêmica reconhecida na última semana ao ocupar uma cadeira na Academia de Letras e Artes do Estado do Rio de Janeiro, cujo patrono é Nelson Rodrigues.

Em um contexto de visibilidade crescente, mas ainda profundamente desigual, sua reflexão sobre o futuro das pessoas trans no Brasil recusa tanto o otimismo ingênuo quanto o fatalismo estatístico. Entre avanços legais, disputas internas e persistência da violência, York insiste em uma pergunta radical: que futuro é possível quando existir deixa de ser exceção e passa a ser direito?

Confira, a seguir, os destaques da entrevista.

CartaCapital: No seu trabalho, você propõe pensar a experiência trans para além da identidade fixa, levando em conta tempo, aparência e leitura social. O que, afinal, define quem é lido como trans?

Sara York: O reconhecimento de quem é ou não lido como trans não se dá apenas pela autoidentificação, mas por uma combinação de tempo, aparência e leitura social. Por isso trabalho com os conceitos de paralaxe e prolepsis. A paralaxe diz respeito a como a sociedade te enxerga: o modo como o corpo é lido, classificado e aceito — ou não — nos espaços. Já a prolepsis tem a ver com o tempo de aderência à lógica cisgênera, com o quanto uma pessoa esteve protegida por essa norma ao longo da vida. A aparência, aquilo que chamamos de expressão de gênero, pode facilitar acessos ou produzir exclusões muito concretas: entrar ou não em determinados lugares, sofrer ou não violências, ser legitimada ou não institucionalmente. É por isso que eu sustento que todas as pessoas são trans em alguma medida — algumas têm consciência disso, outras não. O que muda é o quanto cada uma pôde sustentar essa travessia sem pagar o preço social da exclusão. E é justamente aí que aparecem as desigualdades: nem todo mundo atravessa o gênero com o mesmo custo, com o mesmo risco ou com o mesmo histórico de apagamento.

CC: O que seu estudo mostrou sobre como as universidades brasileiras lidam com cotas trans?

SY: Meu trabalho mostrou que falar de cotas não é apenas garantir acesso: é visibilidade, pertencimento e transformação das instituições. Curiosamente, as primeiras iniciativas surgiram no Norte e Nordeste, e não no Sudeste ou Sul como muitos poderiam imaginar. Por exemplo, a Federal do Sul da Bahia foi pioneira ao criar mecanismos de inserção de pessoas trans, muito antes de universidades consideradas mais “liberais” ou progressistas.

Ao mesmo tempo, hoje o cenário é desigual. Nem todas as universidades têm políticas claras ou sistematizadas de cotas trans; algumas não respondem sequer a pedidos de informação sobre como essas vagas funcionam. Isso cria uma tensão: há pessoas que se sentem confortáveis para se declarar trans agora, enquanto outras carregam décadas de exclusão e violência estrutural. Além disso, a autonomia das universidades significa que cada instituição define suas próprias regras — e nem sempre essas regras conseguem contemplar quem esteve historicamente marginalizado.

Outro ponto importante é a percepção social: a visibilidade e o imaginário sobre corpos trans ainda geram disputas dentro e fora das universidades. Mesmo com avanços legais e maior presença de pessoas trans no ensino superior, o acesso permanece desigual, e as cotas são apenas uma parte do desafio. Precisamos pensar em como fortalecer essas políticas para que não apenas abram portas, mas também transformem efetivamente as instituições, respeitando trajetórias de vida, contextos históricos e desigualdades regionais.

CC: Quando essa leitura social do corpo passa a operar como critério de acesso a direitos, como nas cotas trans, onde você localiza o limite entre reparação histórica e oportunismo institucional?

SY: O grande desafio das cotas trans não é apenas garantir acesso, mas lidar com a complexidade da experiência trans. Nem todas as pessoas que se declaram trans vêm de trajetórias históricas de exclusão; algumas, diante de oportunidades como vagas ou cotas, passam a se identificar como trans de forma relativamente recente. Isso não está errado, mas gera tensões: políticas pensadas para reparar desigualdades históricas podem ser disputadas por pessoas que nunca sofreram o mesmo custo social. É como se eu tivesse um lugar conquistado com muita luta, e de repente alguém chegasse dizendo “eu também sou trans” porque se sente confortável para isso agora. As cotas são um instrumento importante, mas revelam também o quanto ainda precisamos discutir critérios, contextos e o imaginário educacional sobre corpos e vidas trans. O que importa é não perder de vista que a prioridade deveria ser quem esteve historicamente marginalizado e que ainda enfrenta barreiras estruturais profundas.

CC: No Brasil, algumas impressões sobre pessoas trans e travestis parecem cristalizados sobre alguns dados: o país que mais mata pessoas trans no mundo, expectativa de vida média de 35 anos, e apenas 0,3% no ensino superior. Esses dados refletem toda a realidade ou é possível, metodologicamente, questioná-los?

SY: É importante primeiro questionar a própria interpretação desses números. O Brasil não é necessariamente o país que mais mata pessoas trans, porque essa afirmação só faria sentido se houvesse pesquisas comparativas em todos os países do mundo, o que não existe. Os dados que temos são parciais e muitas vezes reforçam uma narrativa de fatalismo sobre a vida trans.

Metodologicamente, para romper com esse imaginário, precisamos combinar estatísticas críticas com abordagens qualitativas centradas na experiência trans: contextualizar os dados por fatores sociais, econômicos e de saúde, realizar entrevistas em profundidade, narrativas de vida e etnografias que revelem práticas de cuidado, resistência e projetividade trans. Só assim podemos mostrar que mortalidade e expectativa de vida não são inevitabilidades biológicas, mas construções sociais atravessadas por violência, acesso desigual e afeto.

E, mais do que isso, pesquisar sobre pessoas trans envolve estudar a história do movimento, compreender as lutas que abriram espaços e as trajetórias de resistência que possibilitam qualquer análise atual. Não se trata apenas de números: é olhar para os processos de construção de visibilidade, pertencimento e direitos conquistados ao longo do tempo, entendendo que cada dado só ganha sentido quando situado nesse contexto histórico e social.

CC: Olhando para sua trajetória como pesquisadora, mãe e avó, como você enxerga o futuro das pessoas trans no Brasil?

SY: O futuro das pessoas trans no Brasil é complexo. Cheio de avanços, tensões e desigualdades, mas também carregado de possibilidades concretas. Minha própria vida é um testemunho disso: nunca me enxerguei como uma pessoa cisgênero; vivi experiências de exclusão profunda, fui moradora de rua, expulsa de casa, passei por um processo de “cura gay” que me afastou do meu filho por 15 anos. Mas essas vivências também moldaram minha resistência e minha capacidade de projetar futuros diferentes.

Hoje, como mãe, avó, pós-doutora e reconhecida pela Academia Brasileira de Letras, percebo que ultrapassar a expectativa de vida de 35 anos atribuída às pessoas trans no Brasil não é apenas uma conquista individual: é uma demonstração de que as estatísticas cristalizadas não capturam a complexidade da vida trans nem as múltiplas formas de cuidado, afeto e resistência que atravessam nossas trajetórias.

O futuro, portanto, não pode ser pensado apenas em termos de risco ou vulnerabilidade, mas também como construção coletiva. Precisamos fortalecer redes de cuidado, educação anticapacitista e antirracista, políticas públicas realmente inclusivas e equitativas, e dar visibilidade às histórias e trajetórias das pessoas trans que atravessaram décadas de exclusão. É nesse espaço que a experiência de vida, a memória do movimento e a projetividade trans se encontram, permitindo transformar um cenário que muitas vezes é visto como ameaçador em um horizonte de possibilidades concretas.

Quando olhamos para o presente e para o passado, podemos perceber que “ultrapassar expectativas” não é um feito isolado: é uma ação política, social e histórica que mostra que a vida trans pode ser longa, plena e produtiva, tornando-nos, de certa forma, imortais — não porque ignoramos os riscos, mas porque carregamos resistência, memória e potência em cada gesto de existir.

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