Opinião

Amar depois do HIV

São décadas de medo da doença, que atingiu de forma particularmente cruel a comunidade LGBTQIAPN+

Amar depois do HIV
Amar depois do HIV
Mulher observa reproduções digitais das obras de Caravaggio, em 2013 caravaggio pintura barroco
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“Nós começamos, desde cedo, a sugerir para as crianças que elas precisam alcançar um patamar de excelência e ocupar lugares de destaque, pois no topo do pódio só cabe um. No entanto, esse pódio é uma mentira, porque não tem nenhum lugar no mundo onde só cabe um: sempre cabem todos.”
Ailton Krenak

O controle do HIV e da Aids parecem cada dia mais próximo, à medida que novas drogas vão sendo descobertas. Abre-se, assim, a possibilidade de que novos hábitos de relacionamento interpessoal surjam.

A modalidade da monogamia heteronormativa — em grande parte baseada no machismo, no domínio e na posse — poderá vir a sofrer modificações de monta. Por outro lado, permanece a questão central: como superar as limitações que esse modelo histórico nos impõe? Como lidar com o ciúme, com nossas inseguranças e com o próprio temor que a liberdade gera, por mais paradoxal que isso possa parecer?

Somos seres do chiaroscuro. Nossa vida psíquica, nossa ética e nossa moral assemelham-se muito a uma tela de Caravaggio, marcada por luzes e sombras intensas, opostas e complementares. Algo muito próximo, se traduzirmos para a música, de uma interpretação de Elis Regina.

Será interessante observar como essas transformações irão impactar as relações interpessoais — e, por extensão, até as internacionais. Iremos devotar mais tempo uns aos outros? Boas conversas podem surgir em meio ao tempo contado? Relações mais profundas, como as sexuais, podem prescindir de tempo? Como superar o bordão que reduz tempo a dinheiro?

Conversa não é música? Não requer pausas? Como na arquitetura, os espaços vazios não são tão ou mais importantes do que os edificados. O que é mais relevante: o MASP ou o vão livre criado por Lina Bo Bardi — a verdadeira ágora de São Paulo, onde a cidade exerce o melhor de sua cidadania participativa?

Em artigo publicado na revista Cult, Ana Lucia Ramos Pandini, a propósito da doutora Nise da Silveira, observa:

“Redescobriu a leitura do filósofo Baruch Spinoza, referência importante para a formação do método niseano. Nise foi sua discípula, assim como de Jung. Spinoza definia o humano como um modo complexo corpo-mente. Em sua visão, o filósofo não privilegiava a racionalidade em detrimento do corpo e dos afetos. Não há fatos mentais que não sejam também materiais e, portanto, corporais. Para Nise, também não haveria expressão psíquica que não estivesse destinada a acontecer na materialidade do corpo e de produções estéticas materiais.”

Em outro artigo da mesma revista, Patrícia Teixeira e Carmen Lívia Parise ressaltam a importância das relações interpessoais, inclusive para a cura médica, no receituário da revolucionária psiquiatra:

“Nise valorizava a disponibilidade afetiva, a sensibilidade e a intuição de seus monitores, estabelecendo tais atributos acima da técnica. Acreditava que a eficácia de um tratamento se devia ao fato de os clientes terem ao seu lado um ponto de apoio humano. Seria esse vínculo que catalisaria a coordenação de funções psíquicas deles e a construção de sínteses que os religariam ao mundo externo. Esse relacionamento se estenderia, aos poucos, ao contato com outras pessoas e com o ambiente. Nise nomeou esse vínculo de afeto catalizador e mostrou como produzia efeitos, inclusive nos casos que a psiquiatria tradicional considerava crônicos, não tratáveis. Encontrou excelentes catalisadores coterapeutas também entre animais, como cães e gatos. A ideia era que, nas atividades dos ateliês, a imagem produzida trouxesse consigo um significado afetivo.”

Portanto, seriam as relações afetivas o ponto central da cura.

A capacidade de se exprimir — por palavras ou pinturas — é parte desse processo: uma terapia social, como meu pai, psiquiatra, costumava enfatizar. O que Nise fez com a psiquiatria, ao retirá-la de uma esfera médica estreita, talvez possa ocorrer com a superação da Aids como enfermidade fatal.

São décadas de medo da doença, que atingiu de forma particularmente cruel a comunidade LGBTQIAPN+.

Em Seja Homem (Editora Dublinense), JJ Bola faz uma reflexão instigante sobre masculinidade e patriarcado:

“A masculinidade é fluida e está sempre mudando. O sistema do patriarcado não é permanente: ele foi criado pelas pessoas, assim como todos os sistemas de opressão, e por isso também pode ser transformado pelas pessoas. Mas o mundo só é modificado pelas pessoas que trabalham pela visão de uma vida melhor, um caminho que satisfaz ao invés de destruir, que estimula ao invés de oprimir, que nos enche de alegria e esperança ao invés de raiva e tristeza. É o momento certo para isso: as máscaras que os homens vêm usando por décadas — ou até por séculos — precisam ser removidas de uma vez por todas para que possamos ver nossos verdadeiros rostos. Assim que removermos essas máscaras, veremos que o que existe por trás é um reflexo de quem somos de verdade, independentemente de quem escolhemos ser.”

Que a cura do HIV e da Aids nos faça melhores: mais abertos, menos temerosos, mais curiosos e corajosos para sair de nossas cavernas e ir ao encontro do sol, da luz — e também de nossas sombras. Que possamos conhecê-las, pois é ao aceitá-las que se tornam possíveis novas realidades pessoais e coletivas: mais íntegras, coerentes e verdadeiras.

Este texto não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.

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