Fora da Faria

Uma coluna de negócios focada na economia real.

Fora da Faria

O varejo global põe a IA nas prateleiras

Passada dos chatbots e campanhas de marketing, grandes redes passaram a mostrar como a IA ajuda a decidir o que comprar, quanto comprar e por quanto vender

O varejo global põe a IA nas prateleiras
O varejo global põe a IA nas prateleiras
(Foto: iStock) NRF 2026
Apoie Siga-nos no

Foi realizada, no final da primeira quinzena de janeiro, em Nova York, a NRF Retail’s Big Show, organizada pela National Retail Federation, que reúne o varejo mundial. O evento é a maior feira global do setor e um guia anual sobre tendências, desafios e estratégias das maiores redes do planeta. No encontro de 2026, o recado foi claro: o varejo entrou em uma fase de maturidade, na qual a tecnologia — especialmente a inteligência artificial — deixa de ser vitrine e passa a ser infraestrutura invisível para garantir produtividade, eficiência e margem em um ambiente de consumo mais seletivo e de custos em alta.

Longe do deslumbramento com novidades, a NRF deste ano colocou no centro do debate como as empresas estão reagindo a uma combinação de inflação persistente, mudanças geopolíticas, pressão salarial, aumento de furtos e fraudes e cadeias de suprimento mais vulneráveis. A agenda dominante não foi “qual é a próxima grande ideia?”, mas “como manter preços competitivos e uma experiência consistente para o cliente em um cenário de risco elevado”. O resultado foi uma feira marcada por casos práticos, números e métricas de impacto em EBITDA, e menos por slogans e promessas vagas de transformação digital.

Entre as principais conclusões, três movimentos se destacaram. O primeiro é o uso intensivo de inteligência artificial e automação, aplicado ao centro estratégico da operação: previsão de demanda, gestão de estoques, redução de rupturas, precificação dinâmica e desenho de promoções. Passada a fase de usar a IA apenas em chatbots e campanhas de marketing, grandes redes passaram a mostrar como algoritmos ajudam a decidir o que comprar, quanto comprar e por quanto vender, loja a loja, canal a canal, em tempo quase real. A promessa é simples: vender melhor, com menos desperdício e mais margem.

O segundo movimento é a consolidação do chamado “unified commerce”. Na prática, isso significa que distinções rígidas entre loja física, e-commerce, aplicativos, marketplaces e social commerce perdem relevância. O consumidor entra por onde quiser — um vídeo em rede social, um aplicativo de entrega, o site da marca ou a loja de bairro — e espera encontrar preços, estoques, promoções e atendimento coerentes. A NRF mostrou varejistas investindo pesado em plataformas únicas de dados e pedidos, capazes de enxergar o cliente de ponta a ponta e permitir, por exemplo, comprar on-line, retirar na loja, devolver em outro ponto e receber ofertas personalizadas no meio desse caminho.

O terceiro vetor é a gestão de risco e resiliência. Diante de cadeias globais mais instáveis, varejistas vêm diversificando fornecedores, aproximando parte da produção, revendo contratos logísticos e adotando sistemas de monitoramento em tempo real para reduzir o impacto de choques em frete, energia ou disponibilidade de insumos. A ameaça crescente de furtos e fraudes também ganhou espaço, com exemplos do uso de IA para identificar padrões suspeitos, redesenhar o layout de lojas e equilibrar segurança com uma experiência de compra fluida, sem transformar o ponto de venda em um ambiente hostil.

Essas tendências globais dialogam diretamente com o desempenho projetado para o varejo brasileiro em 2026, em especial no segmento de supermercados. A ABRAS, associação do setor, projeta que o consumo nos lares deve crescer em torno de 3,2% ao longo do ano, depois de altas próximas a 3,7% em 2024 e 2025. É um resultado que mantém o varejo alimentar crescendo acima do PIB, mas com um ritmo um pouco menos acelerado, condizente com um consumidor que preserva o nível de compra, porém mais atento a preço, promoções e mix.

O fundamento desse crescimento continua sendo a renda. De um lado, um mercado de trabalho mais aquecido, com aumento do emprego formal e ganhos reais em faixas relevantes da população. De outro, o efeito combinado do reajuste do salário mínimo, da ampliação da faixa de isenção do Imposto de Renda e da continuidade de programas sociais de transferência de renda. Esses instrumentos concentram recursos nas camadas de menor renda, que destinam a maior parte do orçamento à alimentação e a itens essenciais, preservando o fluxo de clientes nas lojas mesmo em cenários de aperto financeiro.

Ao mesmo tempo, o ambiente de crédito segue restritivo. Juros ainda elevados encarecem financiamentos e compras parceladas, o que se reflete em um padrão de consumo mais prudente: carrinhos menores, compras mais fragmentadas ao longo do mês, alternância entre marcas líderes e opções mais baratas, migração parcial para atacarejo e formatos de vizinhança com percepção de melhor custo-benefício. O consumidor visita mais vezes o ponto de venda, mas leva menos itens a cada ida, combinando idas físicas com compras digitais em aplicativos e entregas rápidas. Perceber isso e definir estratégias está longe de ser uma atividade apenas para um grupo de pessoas. Tecnologia e IA são os focos da vez também no Brasil.

ENTENDA MAIS SOBRE: , , , , , ,

Jornalismo crítico e inteligente. Todos os dias, no seu e-mail

Assine nossa newsletter

Assine nossa newsletter e receba um boletim matinal exclusivo

Apoie o jornalismo que chama as coisas pelo nome

Muita gente esqueceu o que escreveu, disse ou defendeu. Nós não. O compromisso de CartaCapital com os princípios do bom jornalismo permanece o mesmo.

O combate à desigualdade nos importa. A denúncia das injustiças importa. Importa uma democracia digna do nome. Importa o apego à verdade factual e a honestidade.

Estamos aqui, há mais de 30 anos, porque nos importamos. Como nossos fiéis leitores, CartaCapital segue atenta.

Se o bom jornalismo também importa para você, nos ajude a seguir lutando. Assine a edição semanal de CartaCapital ou contribua com o quanto puder.

Quero apoiar

Leia também

Jornalismo crítico e inteligente. Todos os dias, no seu e-mail

Assine nossa newsletter

Assine nossa newsletter e receba um boletim matinal exclusivo