Daniel Camargos
Repórter especial na 'Repórter Brasil', venceu diversos prêmios por reportagens, entre eles o Vladimir Herzog. Dirigiu o documentário 'Relatos de um correspondente da guerra na Amazônia' e participou da Rainforest Investigations Network, do Pulitzer Center.
Daniel Camargos
A Vale é uma vergonha
No dia em que o desastre de Brumadinho completou sete anos, a empresa fez uma propaganda na TV enquanto a lama voltava a escorrer em Minas Gerais
No intervalo de Atlético x Cruzeiro, neste domingo 25, a TV Globo exibiu uma longa propaganda da Vale. Imagens de trabalhadores sorrindo, fotografia impecável e trilha sonora encantadora tentaram passar a mensagem de que a empresa é tudo de bom. Quase um oásis de felicidade e sustentabilidade.
Horas antes, contudo, a Vale se explicava sobre mais uma falha grave que acabara de acontecer na mina de Fábrica, no limite entre Ouro Preto e Congonhas. A empresa disse que houve “extravasamento de água com sedimentos de uma cava”. Afirmou, em uma nota, que o material atingiu áreas de outra companhia, a CSN, e que não houve impacto sobre pessoas ou comunidades.
O desastre da vez aconteceu em 25 de janeiro. Nesta mesma data, em 2019, a barragem B1 rompeu em Brumadinho, na mina Córrego do Feijão, e matou 272 pessoas, incluindo dois nascituros. No site da Avabrum, associação dos familiares das vítimas, é possível ver os rostos e um pouco da história de todos os mortos.
Na nota, a Vale escolheu chamar de “extravasamento” o último desastre. O que aconteceu, de forma objetiva: vazou água com sedimentos. Lama, que alcançou a área de escritórios da CSN com alagamento de áreas na unidade Pires, em Ouro Preto, com impacto em almoxarifado, acessos internos, oficinas e área de embarque, entre outras estruturas. Cerca de 200 funcionários foram retirados às pressas do local.
Mais de 200 mil m³ de água (equivalente a 80 piscinas olímpicas) vazaram da estrutura, lavando todo tipo de minério e materiais. O fluxo alcançou o córrego Goiabeiras, ligado à bacia do rio Maranhão, segundo o prefeito de Congonhas, Anderson Cabido (PSB).
Pires também é o nome de um bairro de Congonhas. Há 13 anos, quando era repórter do Estado de Minas, passei alguns dias morando ali para uma reportagem. Lembro de acordar e dormir com o barulho da mineração por perto. A poeira entrava na casa e grudava no chão, nos móveis e na roupa do corpo.
O bairro era cercado por mineradoras e por uma logística pesada que atravessava a vida cotidiana. Caminhões na BR-040, vagões carregados de minério de ferro, locomotivas, uma circulação constante de máquinas e minério que fazia o Pires parecer um lugar improvisado, uma zona de sacrifício.
O que me chocou foi perceber como isso mudava até o que parecia banal. Não havia nenhuma casa pintada de branco. Na unidade de saúde, nem as enfermeiras vestiam branco. A poeira do minério, misturada à fumaça dos caminhões e às partículas levantadas pelos trens, apagava o que deveria ser simples.
À época, os moradores diziam contabilizar pelo menos 50 mortes por atropelamento na BR-040, em uma travessia sem passarela. A água também não era garantida. O bairro ficou sem a nascente que abastecia a comunidade depois de obras, e passou a receber água por caminhões-pipa e galões pagos pela CSN por determinação do Ministério Público. Para quem vivia ali era preciso negociar para poder respirar e beber água.
Quem vive cercado por mineradoras conhece o impacto da mineração muito antes do Brasil passar a falar em Brumadinho e Mariana como símbolos do modo como a Vale lidou com a vida de centenas de pessoas.
Sete anos depois do rompimento da barragem da Vale em Brumadinho, um estudo do Núcleo de Assessoria às Comunidades Atingidas por Barragens (Nacab) analisou imagens de satélite e estimou que rejeitos do rompimento de Brumadinho se espalharam por 2.442 hectares depois de cheias registradas em 2020 e 2022. Isso mostra que a lama não ficou em 2019: com as cheias, ela volta a avançar sobre margens e áreas usadas por moradores, afetando água, solo e o trabalho ao longo do rio.
A Vale disse à Folha de S. Paulo que o rio já tinha contaminação antes do rompimento, classificou o rejeito como “inerte e atóxico” e afirmou que análises feitas após as cheias de 2022 não encontraram similaridade com os rejeitos do desastre.
Quando se completaram dez anos do rompimento da barragem de Fundão, em Mariana, escrevi nesta CartaCapital sobre uma cena que ficou comigo desde 2015. Nos dias seguintes ao colapso, famílias desalojadas foram levadas para hotéis e pousadas. Um avô, tentando lidar com a morte da neta de 5 anos, amassava folhas de limão e esfregava no nariz para tentar disfarçar o cheiro de morte que dizia sentir desde o enterro.
Acompanhei aquele sepultamento como repórter. E, sempre que volto a escrever sobre a lama, é esse cheiro que me vem primeiro. O rompimento da barragem de Fundão, da Samarco (à época controlada pela Vale e pela BHP Billiton), deixou 19 mortos, mais de 600 desabrigados e 1,2 milhão de pessoas sem água potável, além de despejar cerca de 40 milhões de metros cúbicos de rejeitos.
No Pará, o Ministério Público Federal afirma ter identificado uma “assinatura química” atribuída à Vale em contaminação por metais pesados que atinge o povo indígena Xikrin do Cateté, no sudeste do estado, em uma área impactada pelo empreendimento Onça Puma, de mineração de níquel.
O MPF levou o caso para debate durante a COP30, em Belém, em um evento intitulado “A morte do Rio Cateté, ação de saúde e Onça Puma”, com procuradores, lideranças Xikrin e um médico que acompanha a comunidade há décadas.
No evento, o médico João Paulo Botelho Vieira Filho, doutor pela Unifesp, apresentou dados de estudos com 720 indígenas: segundo ele, 99,7% da população Xikrin do Cateté examinada apresenta pelo menos um ou mais elementos químicos em excesso no organismo. No total, foram encontrados 32 elementos em excesso, sendo 22 metais. Sete deles são listados como “extremamente tóxicos”, incluindo mercúrio, chumbo, alumínio, bário e titânio. O médico afirmou ainda que crianças de 1 a 10 anos estariam 100% intoxicadas por um ou mais metais.
O MPF e especialistas relacionam esse quadro a uma crise ambiental no Rio Cateté e na região: segundo o médico, antes do início da mineração no projeto Onça Puma, em 2009, o rio era transparente e cheio de vida; hoje, Cateté e Itacaiúnas são descritos como rios mortos. Foram relatados também efeitos severos na saúde, com menção a casos de malformação fetal grave, doenças neurológicas semelhantes ao Parkinson em jovens e crianças, problemas de locomoção, cânceres raros, doenças autoimunes e dermatites severas após contato com a água.
Lideranças Xikrin também descreveram a perda de peixes e água limpa, a dependência de água mineral e de alimentos industrializados. “Não temos mais alegria. Nossos filhos nascem doentes, nossos velhos estão morrendo. Queremos que a Vale pare de nos matar”, disse uma das lideranças do povo Xikrin.
A ação civil pública segue em curso, segundo o MPF, buscando obrigar a Vale a custear tratamento de saúde vitalício para os afetados e a executar a limpeza da bacia do Rio Cateté. Em resposta a uma matéria da Repórter Brasil, a Vale negou a relação de suas operações com a contaminação do rio Cateté.
A empresa também afirmou que “estudos conduzidos por peritos judiciais independentes” concluíram que suas operações não são a fonte de contaminação, disse que monitora regularmente as condições da água no entorno dos empreendimentos e citou a existência de “inúmeras atividades de garimpo ilegal” na região.
A Vale é sempre muito firme nas respostas e excelente em marketing. Na COP30, em Belém, a mineradora ocupou a cidade como se fosse a dona do pedaço. Tinha propaganda no aeroporto, em outdoors espalhados e até em anúncios no aplicativo do Uber. Em alguns pontos, parecia mais fácil escapar do calor do que da onipresença da empresa. Estava até no estande do governo da Indonésia, ao lado da imagem de um rinoceronte-de-sumatra.
Antes de a bola rolar no clássico Atlético x Cruzeiro, o estádio fez um minuto de silêncio em homenagem às vítimas do rompimento de Brumadinho. No telão, apareceu a mensagem: “Por memória. Por respeito. Por justiça”.
No intervalo do jogo de domingo, quem assistia pela TV viu a longa propaganda Vale se vendendo como um orgulho dos brasileiros.
Para Carolina de Moura, moradora de Brumadinho que atua no Instituto Cordilheira, cada comercial da empresa representa uma violação de direitos e um novo dano emocional. “Meu corpo se inunda de uma raiva e uma dor incontroláveis”, desabafa. “Os veículos de comunicação que aceitam essas publicidades prestam um enorme desserviço.”
O que a Vale diz sobre si mesma pode caber em propaganda. Mas o que grande parte do povo de Minas Gerais e do Pará sente, em datas como 25 de janeiro, é a frase que está no título desta coluna.
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