Augusto Diniz | Música brasileira
Jornalista há 25 anos, Augusto Diniz foi produtor musical e escreve sobre música desde 2014.
Augusto Diniz | Música brasileira
Johnny Hooker: Além das conquistas, vivi um processo público de violência
O novo disco do cantor e compositor pernambucano nasce como resposta a ataques, perdas e tentativas de apagamento
O período do lançamento de Orgia (2022) foi um dos mais difíceis da trajetória de Johnny Hooker. Em meio à pandemia, que afetou duramente uma indústria musical dependente de shows, o artista passou a sofrer uma escalada de ataques de ódio nas redes sociais, motivados por seus posicionamentos políticos, sua identidade e pela reação conservadora a pautas de diversidade.
“Fizeram de tudo. Inventaram que eu tinha morrido. Liguei um dia na GloboNews e tinha repórter desmentindo a minha morte”, contou em conversa com este colunista, na redação de CartaCapital. O episódio, segundo ele, não foi um caso isolado, mas parte de um processo contínuo de violência pública.
“Senti a violência do mundo. Essa tentativa de apagamento simbólico”, afirma. “E ela não veio só de fora, mas de dentro também.” Hooker se refere a conflitos familiares que resultaram em um golpe financeiro. “O patrimônio que eu tinha conseguido juntar foi praticamente dilapidado.” A situação agravou um período já marcado por instabilidade emocional e profissional.
youtube.com/watch?v=lrQAQUHVJeg&feature=youtu.be
Seu quarto disco, Viver e Morrer de Amor na América Latina (2025), surge como uma resposta direta a esse momento. “Eu também mereço amor, mereço ser feliz”, resume. O álbum funciona como uma afirmação de sobrevivência e de direito à alegria após a violência vivida.
A faixa de abertura, que o cantor define como um “epílogo”, explicita esse enfrentamento. Em Querem Me Ver Humilhada, Hooker reage aos ataques: “Quem só me fez sofrer, só me fez chorar / Vai pagar dobrado, cantar pro diabo quando a hora chegar.” A canção estabelece o tom do disco, que recusa o silêncio e a submissão.
Outras faixas recorrem à memória como forma de reconstrução. É o caso da regravação de A Vida É Assim, de Conde Só Brega. A escolha dialoga com um repertório afetivo que atravessa sua formação. “É uma música que cresci ouvindo”, diz.
Em Saudades, Elder, canção autoral de estética brega-romântica, ele revisita uma relação do passado. Já em 2 Punks, aparecem relatos da descoberta do amor e da liberdade em São Paulo, cidade onde decidiu viver. “Eu precisava resgatar as memórias dos renascimentos, dos primeiros amores, do deslumbramento com a vida. Um agradecimento por tudo o que eu faria de novo”, explica.
A faixa-título do álbum conta com a participação de Ney Matogrosso. “Ele adorou a música”, afirma Hooker, que compôs a canção já pensando na colaboração. O disco também traz Daniela Mercury, no frevo autoral Eu Quero Ver Pegar Fogo, e Lia de Itamaracá em A Vida É um Carnaval, versão de Hooker para La Vida Es un Carnaval, imortalizada por Celia Cruz.
Para Johnny Hooker, a chamada “onda queer” que impulsionou artistas LGBTQIAPN+ no Brasil já não tem a mesma força. “Você olhava os line-ups de festivais, a gente aparecia em todo lugar”, recorda, ao comentar um cenário que, para ele, mudou não apenas no mercado cultural, mas também no ambiente político.
Viver e Morrer de Amor na América Latina terá videoclipes para todas as faixas — sete ainda serão lançados, das dez que compõem o disco. No dia 24 de janeiro, Hooker apresenta o Bloco do Johnny Hooker na Casa Natura, em Pinheiros, em São Paulo.
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