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Caso Rubens Paiva/ Véu da impunidade

AGU arquiva pedido do Exército para manter em sigilo as fichas de militares envolvidos no crime

Caso Rubens Paiva/ Véu da impunidade
Caso Rubens Paiva/ Véu da impunidade
O ex-deputado foi assassinado por agentes da ditadura em 1971 – Imagem: Acervo Pessoal Família Paiva
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A Câmara de Mediação e Conciliação da Advocacia-Geral da União decidiu arquivar o pedido do Exército para manter em sigilo informações sobre militares envolvidos na morte do ex-deputado Rubens Paiva, sequestrado e assassinado pela ditadura em janeiro de 1971. A solicitação, feita por meio da Lei de Acesso à Informação pela plataforma Fiquem Sabendo, buscava acesso às chamadas “folhas de alterações” dos agentes – registros que detalham promoções, punições e outros dados funcionais. Até agora, a Força havia liberado apenas os resumos dessas fichas. Em julho de 2025, a Controladoria-Geral da União reconheceu o interesse público e determinou a divulgação integral, mas o Exército resistiu, alegando proteção de dados pessoais.

Com o arquivamento da mediação na AGU, o caso seguirá para deliberação do consultor-geral da União, Augusto Dantas, que poderá tomar nova decisão ou encaminhar a questão à Consultoria Nacional da União de Uniformização (Conuni), responsável por resolver divergências jurídicas. Mesmo com informações parciais, a Fiquem Sabendo revelou fatos relevantes sobre a impunidade dos agentes da repressão: cinco militares foram promovidos após o crime, três receberam elogios formais e todos foram transferidos para a reserva remunerada, com direito a aposentadoria e pensão.

Morre Jungmann

O ex-ministro Raul Jungmann morreu no domingo 18, em Brasília, aos 73 anos, em decorrência de complicações de um câncer no pâncreas. Nascido no Recife, ele participou por mais de cinco décadas da vida pública brasileira. Na juventude, filiou-se ao Partido Comunista Brasileiro para resistir à ditadura. Após o ocaso do regime, migrou para as fileiras da direita e conseguiu conquistar a confiança de amplos setores das Forças Armadas. Além de exercer mandatos de vereador e deputado federal, chefiou quatro ministérios nos governos de Fernando Henrique Cardoso e Michel Temer: Política Fundiária, Desenvolvimento Agrário, Defesa e Segurança Pública. Desde 2022 presidia o Instituto Brasileiro de Mineração (Ibram).

Telefonia/ Engoliu a ficha

Símbolo nacional, os orelhões serão extintos até o fim de 2028

As icônicas cabines em formato de ovo vão deixar saudades no País – Imagem: CinemaScópio/Vitrine Filmes

Criados por uma arquiteta chinesa radicada no Brasil e rapidamente reconhecidos como um patrimônio nacional, os orelhões estão prestes a se aposentar. Os últimos 30 mil telefones públicos devem ser desativados até o fim de 2028. As famosas cabines em formato de ovo, projetadas por Chu Ming Silveira e lançadas em 1972, conquistaram o País graças à excelente acústica e ao baixo custo de instalação e manutenção. No auge do sistema, a rede chegou a contar com 1,5 milhão de terminais, e os populares orelhões logo ganharam “irmãos” em lugares como Angola, China, Colômbia, Moçambique, Paraguai e Peru.

Com a privatização das telecomunicações, no fim dos anos 1990, as concessionárias assumiram o compromisso de manter a rede de telefones públicos até dezembro de 2025. A adaptação desses contratos prevê a extinção gradual das cabines pelos próximos três anos, à medida que se universaliza o acesso à telefonia móvel no País – cerca de 9 mil orelhões permanecerão ativos em cidades onde ainda não haja sinal 4G. Segundo a Anatel, a medida libera recursos para a expansão da banda larga. Para saudosistas, vale consultar a localização dos terminais remanescentes no site da agência. Rápido, antes de cair a ficha.

Água/ Copo vazio

O mundo já vive a era da “falência hídrica”, alerta relatório da ONU

Mais de 2 bilhões de habitantes sofrem com abastecimento deficiente – Imagem: iStockphoto

A era da “falência hídrica global” já começou, alerta um relatório do Instituto de Água, Meio Ambiente e Saúde da Universidade das Nações Unidas. Mais da metade dos grandes lagos do mundo está encolhendo e cerca de 70% dos aquíferos subterrâneos apresentam declínio. Após décadas de uso excessivo, poluição e impactos das mudanças climáticas, em torno de 2,2 bilhões de habitantes sofrem com abastecimento deficiente de água, ao passo que 4 bilhões enfrentam escassez severa por ao menos um mês a cada ano.

Em cinco décadas, o planeta perdeu 410 milhões de hectares de zonas úmidas naturais – quase o equivalente à área total da União Europeia. “Muitos rios, lagos, aquíferos, áreas úmidas e geleiras foram empurrados além dos pontos de não retorno”, destaca o estudo.

“O dano ecológico só vai se aprofundar, alimentando conflitos sociais”, afirma Kaveh Madani, diretor do Instituto e responsável pelo estudo. Nos EUA, o Rio Colorado já não chega ao mar e a redução da vazão acirra disputas entre estados do Oeste. Egito, Sudão e Etiópia divergem sobre uma grande barragem em um afluente do Nilo. Pesquisas também indicam que a migração do México para os EUA aumenta em períodos de seca. “Falta de água significa falta de comida”, resume Madani. “Significa fome, desemprego, caos, revolução.”

Os bilionários fazem a festa

A fortuna dos bilionários bateu novo recorde em 2025, aponta o relatório anual da Oxfam. Segundo a ONG, os 12 indivíduos mais ricos do planeta concentram mais patrimônio do que a metade mais pobre da população mundial, cerca de 4 bilhões de habitantes. Pela primeira vez, o clubinho de bilionários superou a marca de 3 mil integrantes, com bens que somam 18,3 trilhões de dólares. Enquanto essa riqueza cresceu mais de 16% em um ano, a redução da pobreza perdeu tração. Para a Oxfam, essa concentração amplia a influência política dos ultrarricos e corrói direitos básicos da maioria.

Chile/ quem semeia vento…

Kast nomeia ex-advogados de Pinochet como ministros de Estado

O ultradireitista já rasgou a fantasia de “radical moderado” das eleições – Imagem: Alvaro Naranjo/AFP

Mais um “radical moderado”, aquela espécie insólita que vez por outra surge no noticiário, resolveu se revelar. Eleito com discurso pouco convincente de conciliação no segundo turno das eleições chilenas, o ultradireitista José Antonio Kast adiantou a nomeação de dois ex-advogados de Augusto Pinochet para compor o primeiro escalão do seu governo.

Kast sempre foi admirador declarado da ditadura pinochetista (1973-1990), que deixou mais de 3 mil mortos e desaparecidos. Só escondeu as posições mais extremistas na reta final da campanha, o suficiente para ser “normalizado” pela mídia. Analistas se apressam em minimizar os riscos, mas a realidade sugere o contrário.

Em Santiago, o presidente eleito apresentou sua equipe: Fernando Barros, futuro ministro da Defesa, e Fernando Rabat, futuro titular da pasta de Justiça e Direitos Humanos. Rabat representou Pinochet em caso de desvio de recursos públicos, enquanto Barros defendeu o ditador em Londres, em 1998, quando a Justiça espanhola buscava sua extradição por crimes contra a humanidade. “Este gabinete não nasce de cotas, nem de pressões. Nasce de uma convicção profunda e vocação comum: colocar o Chile sempre em primeiro lugar”, debochou Kast.

Publicado na edição n° 1397 de CartaCapital, em 28 de janeiro de 2026.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘A Semana’

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