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Armas para não usar

A produção do submarino nuclear e de mísseis, estratégica para desencorajar ataques externos, derrapa na austeridade fiscal

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Ativos brasileiros. O primeiro submarino movido a propulsão nuclear sairá do estaleiro apenas em 2034. O cargueiro KC-390 Millennium, desenvolvido pela Embraer, é um sucesso mundial de vendas, mas trata-se de uma exceção no setor – Imagem: Marinha do Brasil e Embraer
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O sequestro do presidente da Venezuela, Nicolás ­Maduro, e a tomada da produção petrolífera do país pelos EUA despertaram temores no Brasil. Uma pesquisa da Quaest revelou que 58% dos brasileiros temem que algo semelhante ocorra aqui, e Lula chegou a convocar uma reunião com os chefes militares e o ministro da Defesa para discutir a situação. O problema é amplamente conhecido: o aparato de defesa brasileiro carece de autonomia produtiva, sofre com a escassez de equipamentos e apresenta defasagem tecnológica, com raras exceções. O investimento é baixíssimo, dependente de fornecedores estrangeiros e acaba prejudicado por uma austeridade fiscal radical, que limita compras do governo e direciona o rumo da economia. Esse é o panorama delineado por economistas e levantamentos sobre o setor.

“De 2003, no primeiro governo Lula, até 2020, o Brasil destinou 1,4% do PIB à defesa, mas essa parcela caiu e hoje gira em torno de 1,1%. No mesmo período, os demais países aumentaram seus investimentos no setor, e agora o ­País sente o impacto do que aconteceu na ­Venezuela”, ressalta o economista ­Marcos ­José ­Barbieri Ferreira, coordenador do Laboratório de Estudos das Indústrias Aeroespaciais e de Defesa da Unicamp.

Antes da guerra na Ucrânia, prossegue o economista, a média mundial de gastos com defesa estava entre 2,2% e 2,3% do PIB dos países. Algumas estimativas apontam uma elevação para cerca de 2,5% nos últimos anos.

Quando se considera o investimento, o quadro no Brasil torna-se ainda mais preo­cupante. A maior parte do orçamento é destinada ao pagamento dos soldos das tropas, fardamento, alimentação e manutenção das instalações. Apenas 8,8% do total de 1,1% do PIB gasto com defesa vai efetivamente para a aquisição de equipamentos. Já os países da Otan, mesmo antes da guerra na Ucrânia, destinavam ao menos 2% do PIB à defesa, sendo 20% desse valor aplicados em investimentos.

O gasto em defesa caiu de 1,4% do PIB, entre 2003 e 2020, para apenas 1,1%. Uma ínfima parte vai para investimentos

A principal causa do problema, sublinha Ferreira, são os excessos da política de austeridade fiscal, que deixa o governo sem alternativa senão cortar investimentos. “O ponto-chave é este: gastamos pouco em defesa em relação aos países democráticos desenvolvidos. Espanha, França, Suécia, Portugal e Itália desembolsam o dobro do que o Brasil gasta. Se o País adotasse diretrizes semelhantes, o investimento passaria de 8% para ao menos 24% do total dos gastos com defesa.”

Analistas do setor destacam que o primeiro dos três lotes de 36 caças ainda não foi entregue à Aeronáutica. Estimam que o País conte hoje com cerca de dez caças modernos operacionais e alguns submarinos convencionais, entre outros equipamentos. É pouco. Para um país continental como o Brasil, ter três ou quatro submarinos nucleares e cem caças modernos não seria exagero. Seriam necessários ainda investimentos em mísseis e drones, mas os recursos simplesmente não existem.

A meta não é a construção de um poder bélico capaz de rivalizar com o das grandes potências, mas a constituição de capacidade dissuasória, isto é, de equipamentos capazes de impor perdas relevantes aos agressores e levá-los a pensar duas vezes antes de atacar o País. Em outras palavras, eles não existem para ser usados, mas para desencorajar o adversário a atacar.

Os principais dispositivos dissuasórios são sistemas nucleares como a bomba atômica, mísseis de longo alcance e sistemas antidrone. O Brasil possui tecnologia e urânio, mas assinou o Tratado de Não Proliferação Nuclear em 1998. Como observa o colunista Paulo Nogueira Batista Jr., paí­ses como Líbia, Síria, Iraque e Afeganistão integram a lista recente de nações atacadas pelos EUA, sem possuírem bomba atômica, enquanto a Coreia do Norte, que desenvolveu o artefato, não foi atacada.

Orgulho. O míssil tático produzido pela Avibras é o mais avançado da América do Sul por sua precisão e alcance – Imagem: Exército Brasileiro

O equipamento de dissuasão mais potente em construção no Brasil é o submarino com propulsão nuclear, mas equipado apenas com mísseis convencionais. Ele pode permanecer submerso por longos períodos e surgir de surpresa, mas só deve entrar em operação em 2034, segundo a Marinha. Já o míssil de longo alcance poderia estar em produção plena, não fosse a delicada situação financeira da Avibras, fabricante do AV-TM 300, míssil tático de cruzeiro desenvolvido para o Exército e considerado o mais avançado da América do Sul, tanto em precisão quanto em alcance, superior a 300 quilômetros.

O atraso na produção de equipamentos de dissuasão pode custar caro ao País, pois “tudo pelo qual o mundo briga nós temos aqui”, destacou o ministro da Defesa, José Múcio, ao defender o aumento de investimentos no setor. A principal empresa de defesa, a Embraer, cuja capacidade é 80% voltada à aviação civil, já figurou entre as cem mais importantes do mundo no setor militar e produz o KC-390, referência global em transporte militar. Mas trata-se de uma exceção.

“A necessidade mais urgente da indústria de defesa brasileira é avançar de forma consistente rumo à autossuficiência em matérias-primas estratégicas e em tecnologia de ponta. As mudanças geopolíticas na América Latina e no cenário global evidenciam que depender de cadeias externas para insumos críticos, componentes sensíveis e conhecimento tecnológico limita a soberania, a previsibilidade e a competitividade do País”, alerta João Eduardo Dmitruk, presidente da Câmara Setorial de Máquinas, Equipamentos e Componentes do Setor de Defesa e Segurança da Abimaq. Ele acrescenta um alerta importante: “É fundamental promover uma mudança de mentalidade. O Brasil precisa deixar de ser predominantemente comprador de sistemas de defesa e consolidar-se como desenvolvedor e exportador de produtos e soluções de defesa”.

Elaine Rodrigues, presidente da consultoria ConnecTree, alerta que “qualquer dependência externa – econômica, industrial ou tecnológica – torna a defesa intrinsecamente vulnerável”. Além disso, uma nação sem um plano de segurança efetivo e exequível também se encontra em posição frágil. São aspectos cruciais “diante de um cenário geopolítico global cada vez mais dinâmico e imprevisível”.

Os países da Otan, mesmo antes da guerra na Ucrânia, gastavam ao menos 2% do PIB com defesa e 20% disso em investimentos

No momento em que a principal amea­ça à segurança do País e do mundo vem de um antigo aliado do Brasil, ganha peso o alerta do economista e técnico do Ipea Pedro Silva Barros: “Precisamos diminuir nossa dependência dos EUA, reforçando nossa autonomia”. Essa preocupação se refletiu, por exemplo, na escolha do Exército pelo sistema de defesa antiaérea italiano Enhanced Modular Air Defense Solutions (EMADS), que permite escapar de boicotes e restrições dos EUA e da Alemanha.

Autor de um estudo sobre o tema, Barros ressalta que “a concentração das relações de defesa em uma única potência traduz-se em subordinação ou vulnerabilidade. Isso vale para os equipamentos, a doutrina e as interações”. De forma concreta, acrescenta o economista, o Brasil deve buscar agendas positivas e equidistantes com os principais polos de poder – EUA, China e Europa – e priorizar a integração regional.

Se queremos manter nossa região como zona de paz, precisamos refletir esses valores em nossa política, estratégia e ações de defesa, avalia Barros. É igualmente importante fortalecer relações com países que compartilham posições semelhantes às do Brasil. Um exemplo é a Turquia, que participa da Otan, é parceira da Organização de Cooperação de Xangai e, nos últimos anos, ampliou sua capacidade­ de defesa, expandindo a produção doméstica e diversificando seus parceiros.

“No nosso entorno, a prioridade é recuperar a integração regional em defesa e consolidar a Zona de Paz e Cooperação do Atlântico Sul, criada após a Guerra das Malvinas, apesar das reservas e oposição de Estados Unidos, Reino Unido e França”, propõe o economista. •

Publicado na edição n° 1397 de CartaCapital, em 28 de janeiro de 2026.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Armas para não usar’

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