Política
Avanços em série
A PrEP injetável levará tempo para ser incorporada ao SUS, mas o Brasil coleciona conquistas no combate à Aids
O Brasil deu um passo importante na prevenção do HIV em 12 de janeiro, quando a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) aprovou o registro de um medicamento revolucionário para profilaxia pré-exposição (PrEP), capaz de reduzir em mais de 96% o risco de infecção pelo vírus. O Sunlenca (lenacapavir) é aplicado por injeção subcutânea a cada seis meses. Na ausência de uma vacina, essa é atualmente a melhor alternativa disponível, avalia a Organização Mundial da Saúde. Até agora, os brasileiros só tinham acesso a comprimidos diários ou a uma formulação específica para exposições esporádicas: dois comprimidos antes da relação sexual desprotegida, seguidos de doses adicionais nas 24 e 48 horas seguintes.
A notícia foi celebrada com entusiasmo pela comunidade médica e pela população em geral – até que a Gilead Sciences, fabricante do Sunlenca, jogou um balde de água fria sobre quem esperava ver a droga rapidamente incorporada ao SUS. A farmacêutica norte-americana não incluiu o Brasil no acordo de licenciamento voluntário que permite a produção de genéricos em 120 países de baixa e média renda. Para oferecer a injeção na rede pública, o governo teria de desembolsar mais de 130 mil reais por paciente ao ano, um valor proibitivo para o subfinanciado sistema. Segundo o Ministério da Saúde, “não há, até o momento, nenhum pedido de análise para incorporação” do medicamento. Também não há perspectiva de quebra de patente para baratear a produção em território nacional.
Independentemente do revés circunstancial, a Fundação Oswaldo Cruz iniciou um estudo para avaliar a viabilidade de implementação do lenacapavir injetável no SUS. Segundo a médica infectologista Beatriz Grinsztejn, coordenadora da pesquisa “ImPrEP Len Brasil”, o objetivo é verificar se o medicamento é “implementável na vida real”, considerando adesão e persistência da população ao tratamento. Atualmente, mais de 140 mil brasileiros utilizam a PrEP oral diariamente, mas 35% interromperam o uso, revela a chefe do Laboratório de Pesquisa Clínica em HIV/Aids do Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas, da Fiocruz. “As interrupções mais frequentes acontecem entre as populações mais vulneráveis, seja pela falta de informação ou de acesso”, explica.
O estudo será realizado inicialmente em sete cidades, em nove centros de saúde já integrados à rede PrEP SUS. As doses foram doadas pela Gilead. O público-alvo são homens gays, bissexuais e pessoas transexuais e não binárias entre 16 e 30 anos, faixa etária que concentra o maior número de novas infecções, segundo Grinsztejn. A oferta será feita a quem procurar o serviço de testagem e demonstrar interesse em iniciar a PrEP. Para começar o tratamento injetável, é necessário ter teste de HIV negativo e não ter usado a droga anteriormente. “A vantagem do lenacapavir é que, por ser semestral, exige menos em termos de adesão diária, e pode ser uma estratégia crucial de proteção para quem tem dificuldade com o esquema de comprimidos.”
A profilaxia pré-exposição é hoje o método mais eficaz de prevenção ao HIV, pois cria no corpo uma barreira que impede o vírus de se fixar e se replicar. O designer catarinense João Vitor Machado, de 23 anos, usa PrEP oral há pouco mais de um ano, desde que começou a morar sozinho e teve uma vida sexual mais “agitada”, com diferentes parceiros. “Algo que sempre me afetou como homem gay foi o medo e o preconceito de contrair HIV. Com a PrEP e a PEP, posso viver minha sexualidade livremente.” PEP é a profilaxia pós-exposição indicada após uma relação sexual desprotegida.
O País eliminou a transmissão vertical e conseguiu reduzir a mortalidade ao menor nível em mais de três décadas
São Paulo é pioneira na popularização desses métodos. Desde 2021, a Secretaria Municipal de Saúde mantém um serviço itinerante de testagem, PrEP e PEP. Na Estação República do Metrô, na região central da cidade, funciona uma unidade de atendimento rápido, complementada por armários com autotestes e máquinas semelhantes às de refrigerante, onde qualquer cidadão pode acessar os medicamentos de forma discreta. “Nosso objetivo é pegar quem está de passagem, pelo caminho”, diz Cristina Abbate, coordenadora de IST/Aids. Com 78 mil usuários de PrEP na capital, ela revela que muitos valorizam justamente o sigilo oferecido por essas estruturas.
O Brasil é uma referência global não apenas na prevenção, mas também no tratamento da Aids. No fim do ano passado, a OMS certificou o País pela redução da transmissão vertical do HIV – de mãe para filho – para menos de 2% dos casos, patamar considerado de erradicação. Além disso, o SUS registrou a menor taxa de mortalidade pela doença em 32 anos.
“Vários jovens do nosso coletivo contraíram HIV por transmissão vertical. Quando recebemos a notícia dessa conquista, todos ficaram emocionados”, conta João Cavalcante Rezende, secretário de Informação e Comunicação da Rede Nacional de Pessoas Vivendo com HIV e Aids. O ativista convive com o vírus há nove anos e afirma que, nesse período, os avanços foram significativos. “Hoje, qualquer um tem acesso ao teste rápido e sabe o resultado em 15 minutos”, comenta. Professor de Física em uma escola de ensino médio de Mato Grosso, ele avalia que a principal dificuldade ainda é o estigma social. “Hoje, ninguém tem medo de morrer, basta seguir o tratamento. O que todos temem é a sorofobia.”
Aos 65 anos, o palestrante e ativista Luís Baron vive com HIV desde 1988. Na época, ainda não havia tratamento disponível no Brasil. “Eu comprava o remédio de um amigo que era piloto de avião e conseguia trazer do exterior”, recorda. Ao viajar para os EUA, descobriu que a fase terminal de quem tomava AZT era extremamente dolorosa e optou por interromper a medicação. A partir de 1997, iniciou um novo tratamento pelo SUS. “Nunca mais precisei gastar um centavo com remédios, que evoluíram muito. No início, eram necessários 28 comprimidos diários, agora são apenas três.”
O infectologista Alexandre Naime Barbosa, chefe do Departamento de Infectologia da Unesp, conduziu recentemente uma pesquisa com pacientes idosos e identificou que, quanto mais simplificada a terapia, maior é o conforto terapêutico e menores são os efeitos colaterais. “Os pacientes estão vivendo melhor e envelhecendo com HIV. Agora, precisamos desenvolver estratégias de geriatria para essa população”, avalia.
No ambulatório da Unesp, 56% dos pacientes têm mais de 50 anos. A expectativa de vida para quem segue o tratamento e consegue manter a carga viral indetectável é praticamente idêntica à do restante da população, diz Barbosa. Após décadas de avanços científicos, as mortes em decorrência da Aids tornaram-se raras, e também é cada vez mais comum que os pacientes atinjam a carga indetectável, condição que impede a transmissão do vírus. “A ciência só não conseguiu produzir uma vacina contra o preconceito.” •
Publicado na edição n° 1397 de CartaCapital, em 28 de janeiro de 2026.
Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Avanços em série’
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