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Novos sinais da parabólica

Almério e Martins, nomes de proa da canção brasileira, sintetizam a efervescência musical de Pernambuco

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Novos sinais da parabólica
Em dupla. A turnê do álbum Almério e Martins ao Vivo lotou casas no Brasil e na Europa. Ambos tinham carreiras solo consolidadas – Imagem: Redes Sociais
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Almério e Martins praticamente lotaram os teatros e casas de shows da turnê do álbum Almério e Martins ao Vivo, que percorreu o Brasil e parte da Europa nos últimos cinco anos.

Donos de carreiras solo consolidadas em Pernambuco, ambos deixaram os projetos individuais em segundo plano para se dedicar ao disco que acabaria por dar uma reviravolta na carreira de ambos. Além de atrair o público e chamar atenção da crítica especializada, o álbum despertou o interesse de grandes nomes da música brasileira.

Martins viu algumas de suas composições, que têm uma poesia singular e uma sonoridade universal, ganharem novos arranjos nas vozes de Ney Matogrosso (Estranha Toada), Simone (A Gente se Aproveita) e Margareth Menezes (Me Dê).

Já Almério é autor de uma das canções de maior sucesso em 2025, Quero Você, gravada em parceria com Maria Bethânia, e um dos destaques da trilha sonora do remake da novela Renascer, que estreou em 2024 na TV Globo.

Daniela Mercury usou composições de Martins em seus dois últimos álbuns: Deixa Rolar e Me Dê – a mesma gravada por Margareth – estão em Baiana (2022), e Suma, em Cirandaia (2025).

“São músicas do meu primeiro álbum, que me colocam em um lugar de compositor onde me sinto imensamente confortável, embora eu também goste muito do palco, da alegria de cantar”, diz o autor. “Tenho uma preocupação grande com absolutamente tudo que faço, e ter esses artistas da música brasileira como intérpretes das minhas canções me ajuda a persistir nesse lugar.”

Os dois artistas têm sucessos gravados por cantores como Maria Bethânia Daniela Mercury, Ney Matogrosso, Simone e Margareth Menezes

Cirandaia traz também uma música de Almério, Antes de Você Chegar, parceria com Ceumar, que, no álbum, Daniela interpreta com Zélia Duncan. Seus parceiros artísticos têm sido muitos: Ney Matogrosso – com quem gravou Brasil, de Cazuza –, Chico César, Elba Ramalho e Chico Chico.

Ele fez ainda um disco inteiro com a cantora e compositora baiana Mariene de Castro, Acaso Casa (2020), indicado ao Grammy Latino na categoria Melhor Álbum de Música de Raízes em Língua Portuguesa.

“Almério e Martins representam um novo retrato da música popular brasileira, que não precisa tanto da mídia, de televisão, de rádio e tal”, analisa o crítico de música pernambucano José Teles. “São artistas com um grande potencial que, talvez, precisem migrar para o eixo Rio-São Paulo para alçar novos voos.” Teles ressalta que ambos contam com bons empresários que trabalham em Pernambuco: André Brasileiro e Tadeu Gondim.

As origens de Almério e Martins são distintas, mas se cruzam. Enquanto o primeiro vem do interior de Pernambuco, da cidade de Altinho, o segundo é cria da periferia recifense.

“Apesar de ter origem numa família muito humilde, eu sempre tive ídolos grandiosos”, diz Martins, citando como referências Caetano Veloso, Alceu Valença, Geraldo Azevedo e Belchior. “Acho que a literatura me levou para a música. Já a ideia de que era possível fazer algo potente, profundo e com qualidade no Recife, mantendo nossa linguagem e nossos valores, ganhou outra dimensão a partir do Manguebeat.”

Usina de sons. A Reverbo garimpa artistas do Sertão do Pajeú à Zona da Mata – Imagem: José de Holanda

Almério, por sua vez, conta que perdeu o pai aos 13 anos e teve de trabalhar muito cedo. “O que me salvava era a poesia. Então, em todo tempo vago que tinha, corria para fazer música. Passei a adolescência inteira escrevendo, compondo e, com o tempo, fui me aperfeiçoando”, lembra o artista.

Ele iniciou a carreira cantando em bares na noite de Caruaru, no Agreste pernambucano. “A música, para mim, é uma deusa. Ela me cura, me chama. Todas as vezes que penso em desistir, ela me puxa de novo e diz: ‘Você é meu, não é de mais ninguém’”, diz, completando que, muitas vezes, o mercado da música é injusto.

Almério já gravou quatro álbuns solo e tem um quinto a caminho. Diz que Nesse Exato Momento (2024) é o disco que melhor o traduz: “Traduz minha vontade de expandir as coisas que passei anos conceituando. Eu estava em ebulição, os arranjos todos na minha cabeça. Quando cheguei ao estúdio, propus que fosse uma semana de pré-produção e a outra com os músicos, gravando. Todo mundo fresquinho, sem interferência externa”.

Martins também está trabalhando em novo álbum, o terceiro da carreira solo, que pretende lançar no segundo semestre de 2026 ou início de 2027. Seu segundo disco, Interessante e Obsceno (2023), foi apontado em algumas listas feitas pela crítica especializada como o melhor daquele ano.

Ele, além disso, tem músicas em produção que devem ser lançadas na voz de outros artistas, dentre eles o português Salvador Sobral. Apesar da centralidade de Martins como compositor, ele também investe em projetos de versões.

Em março de 2025, a música mais tocada nas rádios do Brasil foi sua versão de Jardim da Fantasia, de Paulinho Pedra Azul, também presente na trilha de Renascer.

Tanto Almério quanto Martins compõem ainda o coletivo Reverbo, movimento que tem chacoalhado a cena pernambucana e vem sendo comparado ao Manguebeat, que lançou ao mundo nomes como Chico Science e Nação Zumbi­, Fred Zero Quatro, Otto, Mestre Ambrósio e a Banda Eddie.

Almério e Martins compõem a Reverbo, coletivo que tem chacoalhado Pernambuco e já foi comparado ao Manguebeat

O manifesto Caranguejo com Cérebro: Uma Antena Parabólica Enfiada na Lama, lançado em 1992 por Fred Zero Quatro, do Mundo Livre S/A, revolucionou a cultura pernambucana ao misturar tradições locais, como maracatu e coco de roda, com a modernidade global do ­rock, hip-hop e música eletrônica. No centro do debate estava a desigualdade social.

O crítico José Teles, no entanto, não vê muita relação entre a Reverbo e o Manguebeat. “No Manguebeat não havia um consenso estético, mas um objetivo comum, que era mexer com o Recife. E realmente mexeu”, diz. “Já na Reverbo, o pessoal tem quase o mesmo pensamento estético. Faz uma espécie de nova MPB sofisticada, com boas letras e ótimos músicos.”

O músico Juliano Holanda, que, com Mery Lemos, concebeu a Reverbo, não discorda, mas pontua: “Sem o Manguebeat não haveria a Reverbo, certamente”.

A diferença principal, prossegue Holanda, é que a Reverbo não é um movimento – como era o Manguebeat –, e sim uma mostra de música, hoje formada por 26 autores, que acabou se expandindo pelo Estado todo. “É um coletivo voltado para fazer e pensar a música, uma movimentação que tem a canção como célula mater, o verso como ponto de estudo e de interesse”, diz.

O coletivo reúne músicos de todas as regiões pernambucanas e garimpa o que há de melhor em cada localidade, indo desde a poesia popular do Sertão do Pajeú até as influências do maracatu da Zona da Mata.

Além de Almério e Martins, fazem parte da Reverbo criadores como Larissa Lisboa, PC Silva, Isabela Moraes e Flaira Ferro. O coletivo reúne-se periodicamente em uma mostra na qual cada artista expõe suas composições.

Para 2026, eles planejam uma espécie de residência a ser realizada em uma fazenda, em um projeto de imersão e novas trocas. “Por ser um grupo de criação, a gente preza muito pela autoria, conceito que se estende também à interpretação. A arte é o centro da criação”, conclui Holanda. •

Publicado na edição n° 1397 de CartaCapital, em 28 de janeiro de 2026.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Novos sinais da parabólica’

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