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A vida como a arte do encontro

Can Xue, chinesa há alguns anos cotada para o Nobel, cria personagens movidos pela liberdade de agir e pensar

A vida como a arte do encontro
A vida como a arte do encontro
Imaginário milenar. Nascida em 1953, a escritora cursou apenas o ensino fundamental – Imagem: Chen Xiaozhen
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Quando Niu Cuilan, uma das personagens de Histórias de Amor no Novo Milênio, volta à aldeia da infância para visitar seus primos, não reconhece mais o entorno: a vila, as árvores e até mesmo as duas colinas que ficavam à beira da estrada tinham desaparecido. Até a voz da prima se alterara e soa como uma cigarra. Tudo ainda era o mesmo, pensa Cuilan, mas alguma coisa havia mudado.

Essa parece ser a tônica do intrigante romance de Can Xue, pseudônimo da chinesa Deng Xiaohua, já há alguns anos cotada para receber o Nobel de Literatura. As personagens estão atadas a uma realidade opaca e sufocante, com poucas perspectivas de transformação. No entanto, todas parecem transitar pelo avesso dessa realidade, como se tivessem encontrado as fissuras por onde o ordinário se combina com o onírico e o inusitado.

Seja em deambulações noturnas ou em deslocamentos pelo campo, seja na vivência ativa da sexualidade ou até mesmo no aprisionamento voluntário, as mulheres e os homens criados pela autora se lançam na busca por uma genuína liberdade de agir, sentir e pensar.

O amor surge, então, como o meio de experimentar a ruptura com o corriqueiro, reverberando uma mudança que é menos material e muito mais de ordem íntima e individual, ainda que sempre dialógica. O outro é figura essencial na descoberta de novos horizontes. Apesar de tantos desencontros, a vida é realmente a arte do encontro, constata cada personagem a seu modo.

Histórias de Amor no Novo Milênio. Can Xue. Tradução: Verena Veludo Papacidero. Fósforo (400 págs., 104,90 reais)

Não há psicologismos na elaboração narrativa de Can Xue. Sua prosa, em tradução direta do chinês por Verena Veludo­ Papacidero, é límpida e simples – parecendo, às vezes, até ingênua. Em entrevista, a autora chinesa compara sua escrita à performance, um ato que convoca os leitores a “dançar” com ela. De fato, no decorrer da leitura, a fruição prevalece, acima de qualquer explicação lógica ou desfecho revelador.

Nascida em 1953, a escritora cursou apenas o ensino fundamental. Na época da Revolução Cultural, seu pai – acusado de ser contrarrevolucionário – foi preso e sua mãe e dois de seus irmãos, mandados para um campo de reeducação.

Can Xue começou a escrever profissionalmente em meados dos anos 1980, e sua literatura peculiar entrelaça o imaginário milenar chinês a um estilo que ecoa Franz Kafka e Jorge Luis Borges (sobre os quais já escreveu, aliás). Tem uma obra profícua. Histórias de Amor no Novo Milênio, publicado originalmente em 2013, é seu primeiro e único romance lançado no Brasil. •

Publicado na edição n° 1397 de CartaCapital, em 28 de janeiro de 2026.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘A vida como a arte do encontro’

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