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A Alá dará

Os manifestantes entre a repressão brutal e o interesse oportunista externo

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Cerco. O aiatolá Khamenei culpa os “terroristas” pelo protesto. O número de mortos é incerto, assim como os efeitos no longo prazo da insatisfação popular – Imagem: Khamenei/AFP e Koshiran/Middle East Images/AFP
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Após três semanas intensas de uma brutal repressão das forças de segurança, as manifestações no Irã perderam o ímpeto inicial. Os efeitos de longo prazo continuam, porém, imprevisíveis. Em artigo na New Left Review, o pesquisador Eskandar Sadeghi-Boroujerdi comparou os protestos atuais com mobilizações mais recentes no país, entre elas o Movimento Verde, de 2009, e o “Mulher, Vida, Liberdade”, de 2022 e 2023. Agora, afirma, falta “a claridade­ de procedimento de 2009”, ­quando as mobilizações expressaram uma revolta contra a eleição de Mahmud Ahmadinejad para um segundo mandato, e “a coerência emancipatória dos protestos de 2022”, quando mulheres foram às ruas depois da morte, sob ­custódia da polícia, de Jina Amini. Seria, define Sadeghi-Boroujerdi, uma “composição social mais ampla, mais difusa nas suas demandas e mais profundamente moldada pela exaustão econômica e por um cerco geopolítico”.

Por enquanto, é difícil verificar com exatidão o número de mortos, mas a Agência de Notícias de Ativistas de Direitos Humanos, organização financiada em parte pelo governo dos EUA, registrou, no domingo 18, 3.919 vítimas, entre elas 178 integrantes do aparato de repressão do governo. A agência de notícias Reuters, também no domingo, afirmou que uma fonte oficial teria contabilizado 5 mil mortes. O regime publicou trechos de imagens com os ataques de manifestantes a oficiais de segurança com facas, machetes e armas de fogo. Ali Khamenei­ culpou os “terroristas” apoiados pelos Estados Unidos e Israel.

Para Sadeghi-Boroujerdi, entre os cenários possíveis, um dos mais problemáticos seria um longo esforço dos EUA e de Israel para manter uma guerra híbrida, de forma a sequestrar os protestos, apoiada em ampliação do cerco econômico e ações clandestinas para erodir a coesão interna, causando fissuras na elite iraniana. “O perigo não é o colapso repentino do regime, mas uma queda arrastada à instabilidade e, potencialmente, a uma balcanização.”

A repressão brutal do governo e os interesses geopolíticos externos se coligam em uma tensão que acaba por destruir possibilidades de emancipação e mudança política interna. •

Publicado na edição n° 1397 de CartaCapital, em 28 de janeiro de 2026.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘A Alá dará’

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