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Teste de fogo

O embate no estado de Minnesota definirá os limites dos arroubos autocráticos do governo Trump

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Abuso de poder. Agentes do ICE atropelam os direitos civis para deter imigrantes. O governador Tim Walz promete recorrer à Justiça – Imagem: Octavio Jones/AFP
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De janela em janela, o aviso se espalha como sirene improvisada, enquanto carros sem identificação e agentes federais mascarados percorrem mais um bairro da cidade de ­Minneapolis em busca de imigrantes. A sensação térmica de 28 graus Celsius­ negativos não afasta os ­moradores, que saem pelas ruas para se transformar na primeira e, muitas vezes, única barreira entre os alvos e os representantes do estado de exceção. Na tentativa de proteger a vizinhança, moradores gritam a plenos pulmões: “Tranquem suas portas”, “fiquem em casa”, “eles estão aqui”. O estado de Minnesota tornou-se o mais novo campo de batalha do governo Trump contra as leis nacionais e os direitos civis.

Desde o início do segundo mandato, em janeiro do ano passado, a promessa de campanha de “restaurar a ordem” nos Estados Unidos é apresentada como uma cruzada contra o crime e a imigração irregular, servindo de justificativa para uma ofensiva sem precedentes de Washington em cidades administradas, sobretudo, por democratas. Agentes do Serviço de Imigração e Alfândega e da Patrulha de Fronteira (ICE, na sigla em inglês) passaram a atuar sem limites em metrópoles como Los Angeles e ­Chicago, em operações espetaculosas, seguidas de coletivas de imprensa e a divulgação de números inflados de prisões.

Minneapolis não virou alvo por acaso. Embora a população imigrante represente uma fatia menor do que aquela da média nacional, o estado foi escolhido por Trump como vitrine de uma política de confronto, uma região historicamente democrata ideal para servir de exemplo a prefeitos e governadores da oposição, e com comunidades imigrantes visíveis, em especial somalis, latinos e asiáticos, facilmente transformadas em bode expiatório.

Nesse contexto, a morte de Renée ­Nicole Good tornou-se um catalisador das tensões. Cidadã ­norte-americana, mãe de três filhos e poeta premiada, Good foi morta a tiros dentro de seu carro em 7 de janeiro por um agente do ICE. A vítima estava a poucos quarteirões de casa e a cerca de um quilômetro do cruzamento onde George Floyd foi assassinado por policiais em 2020. Segundo testemunhas e lideranças comunitárias, Good atuava como observadora legal de uma operação de imigração, registrando a ação dos agentes. O governo Trump a classificou, após a morte, como “terrorista doméstica”, numa tentativa de justificar o uso da força letal. “A mulher no carro estava muito desordeira, obstruindo e resistindo. Ela atropelou violentamente, de forma deliberada e viciosa, o agente do ICE, que parece ter atirado em legítima defesa. É difícil acreditar que ele esteja vivo, mas agora se recupera no hospital”, escreveu o presidente em suas redes. Na terça-feira 20, durante coletiva de imprensa na Casa Branca, ao ser informado do fato de os pais de Good serem seus apoiadores, o republicano mudou o tom e definiu a morte da poeta como uma “tragédia”.

A população local, por ora, resiste às ameaças

Os vídeos da ação dos agentes do ICE mostraram, no entanto, uma versão bem diferente da apresentada e insuflaram a revolta local. Em pronunciamento emocionado, o prefeito de Minneapolis, ­Jacob Frey, solidarizou-se com a família de Good e acusou diretamente o governo federal: “Agentes de imigração estão causando caos em nossa cidade. Exigimos que o ICE deixe a cidade e o estado imediatamente. Estamos ao lado das comunidades de imigrantes e refugiados”. O governador Tim Walz, pressionado por protestos diários nas “cidades gêmeas”, Minneapolis e St. Paul, e por um inquérito federal, acusou Trump de “abuso de poder” e anunciou uma ação judicial contra Washington.

Em resposta, o presidente descreveu Minnesota como um estado “suave com o crime” e atribuiu às autoridades estaduais a criação de “santuários para ilegais”. “O ICE está removendo alguns dos criminosos mais violentos do mundo do nosso país e os levando de volta para casa, onde eles pertencem. Por que Minnesota está lutando contra isso? Eles realmente querem assassinos e traficantes de drogas instalados em sua comunidade? Os bandidos que estão protestando incluem muitos agitadores profissionais e anarquistas bem pagos. É isso mesmo que Minnesot­a quer?”, escreveu Trump em sua rede Truth Social no domingo 18. No mesmo dia, o Pentágono colocou em alerta 1,5 mil soldados, que podem ser enviados a qualquer momento para o estado. Dias antes, o republicano havia ameaçado recorrer à Lei de Insurreição, que permite ao presidente mobilizar tropas militares em solo norte-americano sem aval dos governadores estaduais, e na terça 20, durante entrevista à rede de notícias NewsNation, manteve a ameaça. “Por ora, acho que ainda não”, declarou. “Pode ser que aconteça em algum momento.”

A população de Minneapolis não se intimidou. Os protestos completaram três semanas e a cidade está em plena ebulição. Vigílias com velas no local do assassinato de Good se transformaram em marchas de milhares de moradores, com cartazes de “Justiça para Renée” e “ICE saia de Minnesota”. Grupos de resposta rápida usam apitos para avisar em tempo real quando vans dos agentes federais chegam a determinados bairros. Sindicatos e pequenos comércios anunciaram greves e paralisações, e promotores estaduais abriram investigações após o FBI excluir autoridades locais do controle das operações. No dia 13, seis promotores federais renunciaram em protesto contra a pressão do Departamento de Justiça para investigar Becca, viúva de Good, mas não o assassino.

No domingo 18, um grupo de manifestantes invadiu um culto da Igreja Batista de St. Paul e interrompeu o sermão do pastor Matthew Johnson, que, em segredo, atuava como diretor de campo do ICE na região. Gritos de “sangue nas suas mãos” e “hipócrita” ecoaram pelo santuário. O Departamento de Justiça anunciou uma investigação criminal contra os invasores, enquanto ativistas celebraram a ação como “desmascaramento da face religiosa da repressão”. Trump usou o incidente para reforçar sua versão de “insurreição doméstica”. Na terça-feira 20, o departamento intimou o governador Walz e o prefeito Frey a se explicarem por suspeita de “obstrução” dos trabalhos do ICE. •

Publicado na edição n° 1397 de CartaCapital, em 28 de janeiro de 2026.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Teste de fogo’

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