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Se queres a paz…

A situação atual requer ação. Urgente. Bem planejada. Destemida

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A nu. O sequestro de Maduro e a ação na Venezuela escancaram a ausência de meios de defesa no continente e o Canal do Panamá não é mais uma via confiável – Imagem: DEA/AFP e iStockphoto
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Vivemos atualmente uma fase de imensos riscos no mundo inteiro. Desde a Segunda Guerra Mundial, não se via um quadro geopolítico e militar tão perigoso.

A fonte principal de instabilidade, ameaças e agressões é conhecida. Seria um equívoco, entretanto, atribuir a ­Donald Trump a responsabilidade exclusiva pelo que vem ocorrendo. Antes pudéssemos fazê-lo. Trump é passageiro. Mas o problema é de natureza estrutural e será, portanto, mais duradouro.

A tradição imperial dos Estados Unidos

Duas observações. Primeira: o desprezo do Império Norte-Americano pela ordem internacional não é de hoje e vem se manifestando sob diversas formas, inclusive e até na direção de organizações internacionais, ao orquestrar o afastamento do primeiro diretor-geral da Organização para a Proibição das Armas Químicas (Opaq). E as invasões do Iraque, da Líbia e da Síria, entre outras, ocorreram sempre com base em alegações forjadas, impostas ao resto do mundo como verdades.

Não nos esqueçamos de que abusos e violências ocorreram também durante governos democratas. O Império não dá trégua. Já Dwight Eisenhower denunciava o temível poder do “complexo militar-industrial”. Mais recentemente, tornou-se de uso corrente a expressão Deep State (Estado Profundo), constituído pelo Departamento de Estado, o Pentágono, o FBI, a CIA, a indústria armamentista, a imprensa corporativa e poderosos grupos financeiros. O Deep State atua sob qualquer presidência e, de fato, manobrou o leme de Clinton, Obama e Biden tanto como o dos presidentes republicanos.

Antes de Trump, porém, a ação imperial era protegida por retórica e hipocrisia – a hipocrisia que, como escreveu La Rochefoucauld, é “a homenagem do vício à virtude”. Trump é contra a hipocrisia. Quando atacou a Venezuela, por exemplo, disse com franqueza que o seu objetivo era “administrar” o país e passar a controlar o petróleo venezuelano. Em governos anteriores, operações semelhantes eram justificadas por preocupações com direitos humanos e democracia.

Segunda observação: o fenômeno Trump deve ser visto como a reação de uma superpotência em declínio, que já não consegue manter a sua hegemonia global com base na competição econômica, de forma ordeira, obedecendo as regras do jogo. O governo Trump está desmontando por completo a arquitetura internacional que os próprios Estados Unidos construí­ram depois da Segunda Guerra Mundial.

Já não podemos nos enganar: dispondo­ do maior poderio militar do planeta, o titubeante hegemon está disposto a utilizá-lo para impor cruamente sua vontade. Recusa-se a acomodar seus interesses ao quadro jurídico consagrado num mundo crescentemente multipolar. Foi-se para não voltar o Olimpo no qual viveu sozinho após o desmanche da União Soviética, cenário internacional em que a China mantinha ainda presença discreta.

No entanto, os Estados Unidos resistem ferozmente a adaptar-se a essa nova realidade mundial. Agora nervoso, o hegemon rasga seus disfarces e perde os modos ao despertar para um mundo no qual a China, a Rússia e o Sul Global se fazem ouvir.

Desafios para o Brasil 

Como fica o Brasil nesse admirável mundo novo? O sequestro de Nicolás Maduro e os planos de dominação da Venezuela levantam, entre outras, uma questão fundamental para o nosso entorno geográfico: a ausência de meios de defesa nos países sul-americanos, no Brasil em particular, que permitam exercer algum poder dissuasório diante da chamada “Doutrina ­Donroe”. Trazem à tona até mesmo a questão de nossa participação no Tratado de Não Proliferação Nuclear, ao qual aderimos em 1998 sem que se tivesse procedido a um verdadeiro e profundo debate público.

É imprescindível que retomemos, embora com trágico atraso, o fortalecimento de nossas Forças Armadas e o estabelecimento de uma verdadeira Base Industrial de Defesa, com a participação do empresariado nacional e a formação de quadros especializados. Pensemos no modelo francês da DGA (“Direction ­Générale de l’Armement”).

Tampouco devemos perder de vista o controle geográfico dos recursos minerais e das terras-raras. E o controle das rotas e dos fluxos comerciais, questão na qual o Atlântico Sul assume importância cada vez mais crítica. A chamada Zona de Paz do Atlântico Sul deve deixar a retórica para tornar-se o foro de um diálogo mais estratégico entre seus membros, em coordenação com o grupo dos BRICS. Não se pode dizer hoje, em sã consciência, que o Canal do Panamá seja a via bicontinental mais confiável.

Por último, e com não menor urgência, impõe-se abrir um debate interno, por um lado sobre a situação jurídica de nossa Base de Alcântara, mantida curiosamente distante do noticiário, e, por outro, sobre a adoção de uma política que vise preservar Fernando de Noronha (nossa Groenlândia?), objeto de recentes e perturbadoras referências. Tampouco devemos perder de vista as novas atividades militares estadunidenses no Paraguai, bem como o incômodo que pode, de uma hora para outra, causar a ­Washington a presença da nossa população árabe/palestina na Tríplice Fronteira.

Afirma-se, às vezes, que o Brasil fez uma aposta existencial na paz. No mundo em que vivemos, essa aposta na paz pode ser suicida. Continua valendo o antigo lema romano: Se vis pacem, para bellum (Se queres a paz, prepara-te para a guerra).

O Brasil é um país gigantesco, com amplos e variados recursos naturais. Se for percebido como um gigante de pés de barro, incapaz de defender-se, será fatalmente objeto de intervenções estrangeiras.

Essas intervenções só não ocorrerão se os interesses estrangeiros puderem impor-se via prepostos locais. Já tivemos uma experiência traumática com Bolsonaro. Vários candidatos da mesma índole se apresentam para disputar a eleição presidencial de 2026 contra o presidente Lula. Se um deles vencer, Trump terá um presidente vassalo no Brasil. Sem disparar um tiro, os Estados Unidos farão o que quiserem por aqui, assim como fazem na Argentina de Milei.

O que está acontecendo na Venezuela deve ser um estridente wake up call para o Brasil e outros países, pois levanta a questão essencial da ausência de poder dissuasório. Poder de dissuasão significa dispor de meios de indicar, de modo crível, que qualquer ataque ao território nacional implicará perdas expressivas para o país agressor.

A construção desse poder de dissuasão mostra-se urgente. Já deveria ter começado há muito tempo. Importante, entre outras iniciativas, estabelecer ou aprofundar a cooperação militar com países como China, Rússia, Índia e França. E repensar as escolas militares, revertendo o trabalho de colonização mental e subordinação às doutrinas dos Estados Unidos.

Hoje, o Brasil é o único dos grandes paí­ses do planeta que não dispõe de armamento nuclear. E as nossas armas convencionais são insuficientes para defender o território nacional e as nossas costas marítimas. Além disso, são fornecidas, em grande parte, pelos Estados Unidos – mais um ponto de vulnerabilidade militar.

A situação atual requer ação. Urgente. Bem planejada. Destemida. Temos de nos opor a um novo Diálogo de Melos. •


*José Maurício Bustani é diplomata, foi o primeiro diretor-geral da Opaq e embaixador em Londres e Paris. Paulo Nogueira Batista Jr. é economista, foi diretor-executivo do FMI em Washington e vice-presidente do Novo Banco de Desenvolvimento estabelecido pelos BRICS em Xangai. 

Publicado na edição n° 1397 de CartaCapital, em 28 de janeiro de 2026.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Se queres a paz…’

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