Renato Meirelles

Comunicólogo, presidente do Instituto Locomotiva e fundador do Data Favela, autor de 'Um País Chamado Favela' e 'Como Ser Uma Empresa Antirracista'

Opinião

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Esperança individualizada

Oito em cada dez brasileiros acreditam que 2026 será melhor, mas não demonstram o mesmo otimismo em relação à economia e ao futuro do País

Esperança individualizada
Esperança individualizada
O egoísmo virou virtude, o individualismo, norma
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No fim de ano, tem brasileiro que faz promessa olhando para o espelho e tem quem faça acompanhando o noticiário. Um pacto é íntimo. O outro é coletivo. E quase sempre os dois entram em conflito quando o calendário vira e a vida segue com o mesmo preço no supermercado.

A pesquisa do Instituto Locomotiva e da QuestionPro sobre expectativas para 2026 revela um traço do Brasil real. Oito em cada dez brasileiros acreditam que 2026 será melhor do que o ano anterior. Esse número fala menos de empolgação e mais de disposição. O Brasil real não escolheu o cinismo como abrigo. Escolheu continuar tentando, com a teimosia de quem aprendeu que desistir é sempre o pior investimento.

Quando o brasileiro fala de 2026, ele fala primeiro da própria vida. Fala do corpo, da rotina, da saúde mental, do dinheiro, do trabalho, da vontade de organizar a casa e a cabeça. O futuro, para a maioria, não parece um salto. Parece um ajuste. Melhorar é colocar ordem, é conseguir respirar e ter um pouco mais de controle sobre o mês.

E aí aparece um traço que é quase uma assinatura do País. O brasileiro se enxerga como principal motor da própria mudança. Ele não delega a esperança. Ele se responsabiliza por ela. Isso pode soar bonito, e em parte é. Mostra uma cultura de esforço, de persistência, de gente que não espera a vida se resolver sozinha.

Mas esse mesmo traço também revela uma coisa importante. Quando a esperança se individualiza, o coletivo perde força. O brasileiro confia mais na própria capacidade de reagir do que na capacidade do País de organizar o caminho. E isso explica por que a expectativa sobre o Brasil costuma ser mais cautelosa do que a expectativa sobre a vida pessoal.

Essa cautela não é desamor. É memória. Quem vive o Brasil todos os dias sabe que o País tem talento para criar ruído. Sabe como é fácil mudar regra, fazer o básico virar exceção e transformar o simples em difícil.

É por isso que o otimismo do Brasil ­real não é euforia. É disposição com prudência. O indivíduo quer acreditar, mas quer se proteger. Quer fazer planos e ter um chão firme. Quer avançar, mas quer evitar o tombo. O futuro desejado é menos uma festa e mais uma rotina funcionando.

Esse ponto é central para entender a economia do dia a dia. Economia, para o brasileiro, não é gráfico. É o que cabe no bolso e no tempo. É o preço do mercado e a sensação de que o dinheiro some antes do fim do mês. É a parcela que vira companhia fixa. É a escolha diária entre o necessário e o possível. É a vontade de guardar um pouco, nem que seja pouco, para não viver sempre no susto.

Quando tanta gente fala em poupar, em reorganizar gastos, em melhorar a vida com atitudes concretas, existe ali um desejo de previsibilidade. Previsibilidade é a palavra que não aparece na mesa do almoço, mas está em todas as conversas. O brasileiro não está pedindo que a vida fique fácil. Apenas deseja que ela pare de ser surpreendente.

O mais interessante é que esse conjunto de expectativas não tem o tom de quem desistiu do País. Pelo contrário. O brasileiro segue apostando. Só que ele aposta com a cabeça de quem já aprendeu a calcular risco. Ele torce, mas não se ilude. Ele tenta, mas não se entrega.

E talvez seja esse o retrato mais honesto do Brasil no início de 2026. Um país onde os cidadãos acreditam na própria capacidade de melhorar de vida, mesmo quando não têm certeza de que o Brasil vai melhorar junto. Um lugar onde a esperança não é sentimento abstrato, mas um comportamento. Uma nação onde o futuro é menos um destino e mais uma construção.

Se existe um recado forte aqui, é que o brasileiro não está parado, esperando. Ele está se mexendo. Está tentando ajustar a rota. Está procurando um jeito de fazer a vida caber dentro dela mesma. E isso, em um país que costuma exigir demais de quem tem menos, já é uma forma de coragem.

A pergunta que fica para 2026 não é se o brasileiro vai tentar. Ele vai. A pergunta é se o ambiente vai ajudar essa tentativa a virar avanço. Porque, quando a esperança encontra caminho, ela vira melhora real. E quando não encontra, ela não vira revolta. Ela vira cansaço. E o cansaço é o jeito mais silencioso de um país perder potência. •

Publicado na edição n° 1397 de CartaCapital, em 28 de janeiro de 2026.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Esperança individualizada’

Este texto não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.

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