Opinião
Audiovisual brasileiro: 2026 é o ano da virada
Só a regulação garantirá serviços bem prestados aos consumidores, uma presença nacional sólida nos catálogos e recursos para o fomento, via Condecine, da nossa produção independente
O cinema brasileiro está na moda e o sucesso internacional de O Agente Secreto é o exemplo mais recente disso. O “parabéns” (em português) da atriz Minnie Driver ao anunciar o Globo de Ouro de Melhor Filme (em língua não-inglesa) para o longa de Kleber Mendonça Filho foi significativo: o mundo está prestando atenção em nós. E o ciclo virtuoso iniciado em 2024 com o sucesso mundial de Ainda Estou Aqui tem tudo para se perpetuar.
Projeções apontam que o Brasil será responsável por 2% da receita global da indústria cinematográfica em 2029. Este é um feito e tanto quando lembramos da perseguição implacável que a Cultura e os trabalhadores e produtores da indústria sofreram em boa parte dos últimos 10 anos. Após o golpe em Dilma Rousseff, as Artes, a Educação e a Memória foram alvos primordiais da extrema-direita, num processo permanente de difamação, especialmente no desastroso governo Bolsonaro. Por anos a fio, a Cultura e seus fazedores e fazedoras foram demonizados das formas mais vis.
Por isso mesmo, tem sido tão bonito acompanhar a relação calorosa do povo brasileiro às conquistas recentes do nosso cinema, da explosão de alegria carnavalesca com o Oscar de Ainda Estou Aqui ao amplo reconhecimento e festa pelas conquistas históricas de O Agente Secreto no Globo de Ouro. As performances fenomenais destes filmes comprovam, com muitos números, o imenso potencial da nossa indústria da cultura. Ainda Estou Aqui estreou em mais de 40 países e faturou 200 milhões de reais. Na expectativa por indicações ao Oscar, O Agente Secreto já soma 56 troféus ao redor do mundo e um faturamento global que se aproxima dos 50 milhões de reais.
Não são fenômenos isolados. Outras produções reafirmam o momento especialmente virtuoso do nosso audiovisual, do sucesso de bilheteria de O Auto da Compadecida 2 (mais de 4 milhões de espectadores) à trajetória premiada de O Último Azul (vencedor do Grande Prêmio do Júri no Festival de Berlim). Filmes como Manas, A Melhor Mãe do Mundo, Ato Noturno, o documentário Apocalipse nos Trópicos e o curta Amarela também vêm se destacando no circuito global de festivais e mostras, sempre recebidos com muita atenção.
O interesse internacional não parece ser passageiro: uma pesquisa da auditora PwC projeta que, em 2029,o Brasil será responsável por 3,6 bilhões de reais da indústria audiovisual, um crescimento de 34% em relação a 2024. A pergunta é: devemos nos contentar com esta porcentagem, ou temos como estimular ainda mais o crescimento dessa indústria no Brasil? O setor nacional em peso tem certeza que sim. Porque há espaço e demanda para isso. Se o potencial do mercado externo é alto, o interno não fica atrás: cerca de 10% dos 112,5 milhões de espectadores de 2025 pagaram ingressos para ver filmes brasileiros. É bom mas, novamente: é o suficiente?
Na verdade, não. Este número representa uma retração de 10% no mercado exibidor brasileiro em relação a 2024. Das 10 maiores bilheterias do ano, apenas três foram nacionais. O domínio de Hollywood ainda é brutal. Gostemos ou não, os EUA compreenderam há muito tempo o poder do cinema (e da cultura) para influenciar valores, comportamentos, políticas, colonizar. Este é um dos temas do meu livro Cultura é Poder, em que afirmo a total urgência de exercermos nossa soberania por meio da afirmação cultural. Não existe projeto nacional de desenvolvimento possível sem valorizar e apostar no potencial criativo e diverso de nosso povo.
E esse potencial, impulsionado por nosso desejo de nos ver nas telas, é imenso. A indústria audiovisual agrega mais à nossa economia do que, por exemplo, as indústrias têxtil, farmacêutica e de eletrônicos. A demanda por filmes, séries, documentários, podcasts, games e outras formas de criação continua enorme. Mas precisamos, com urgência, atualizar e criar novas políticas estruturantes para fortalecer o setor.
É neste oceano de complexidades que navegamos atualmente. Passei mais de um ano ouvindo e debatendo intensamente com representantes de toda a cadeia do audiovisual, durante a construção de um projeto de lei que atenda às demandas do setor na regulação do VoD e streaming no Brasil. Elas são muitas e justas.
Nossa indústria criativa precisa de um projeto consistente e continuado, que garanta sua autonomia diante do poderio econômico estrangeiro, e seja duradouro, aplicável a modelos de negócio e tecnologias vindouras. Só a regulação garantirá serviços bem prestados aos consumidores, uma presença nacional sólida nos catálogos e recursos para o fomento, via Condecine (que a indústria brasileira paga, mas as plataformas estrangeiras, não), da nossa produção independente. Não custa lembrar que o Brasil é o segundo maior mercado de streaming do mundo.
Não sou a relatora do projeto final, que ainda irá a votação no Senado, mas sigo na luta, junto a toda a cadeia brasileira de audiovisual, pela aprovação de uma legislação avançada, mesmo conhecendo os limites da correlação de forças no Congresso Nacional. A cultura é estratégica para qualquer país não apenas por sua dimensão econômica, mas também pela afirmação de valores e expressões. Neste campo, o Brasil é potência mundial, e seu audiovisual, uma ponte sólida entre nós e outros povos, culturas e mercados.
Mais do que um mercado consumidor, somos cidadãs e cidadãos. Uma nação com orgulho enorme de se ver representada nas telas. Que em 2026 as histórias brasileiras, que têm sido contadas mundo afora por talentos como Walter Salles, Fernanda Torres, Kleber Mendonça Filho, Wagner Moura, Rodrigo Santoro, Petra Costa e tantos outros sigam revelando também um pouco mais de nós, povo brasileiro, com nossas glórias, alegrias, fantasmas do passado – e nossa fé no futuro.
Este texto não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.
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