Do Micro Ao Macro
Empresas com diversidade de gênero têm até 25% mais chances de superar concorrentes
Vieses inconscientes ainda afetam contratações no Brasil, mas uso de dados e processos estruturados ajuda empresas a reduzir distorções
Mesmo com a ampliação do debate sobre diversidade e inclusão, o viés inconsciente segue como um dos principais entraves para processos seletivos mais justos nas empresas brasileiras. Essas distorções aparecem em decisões automáticas, muitas vezes imperceptíveis, que influenciam a avaliação de candidatos e determinam quem avança ou fica pelo caminho.
Pesquisas acadêmicas já demonstraram que currículos idênticos podem receber avaliações distintas apenas pela alteração de nome, gênero ou origem social. Na prática, isso indica que critérios subjetivos ainda pesam mais do que competências técnicas em parte das contratações.
O impacto desse cenário ultrapassa a dimensão social. Levantamento da McKinsey aponta que empresas com maior diversidade de gênero em cargos de liderança têm até 25% mais chances de apresentar desempenho financeiro acima da média do setor. No recorte étnico-racial, essa vantagem chega a 36%. Ainda assim, muitos processos seletivos permanecem pouco estruturados e acabam reproduzindo padrões homogêneos.
Onde o viés aparece no recrutamento
Os vieses costumam se manifestar com mais intensidade nas etapas subjetivas do recrutamento, como a triagem de currículos e as entrevistas. Expressões como “fit cultural” ou “perfil parecido com o time” tendem a favorecer escolhas baseadas em afinidade, conforto e histórico semelhante, em vez de critérios objetivos de desempenho.
Para Daniel Monteiro, founder e CEO da Yellow.rec, o problema não está no indivíduo. Segundo ele, o viés inconsciente faz parte do comportamento humano. A falha ocorre quando a empresa não cria mecanismos para neutralizá-lo ao longo do processo.
Método como ferramenta de equidade
Na avaliação do executivo, processos mais objetivos reduzem a influência de vieses. Entre as práticas recomendadas estão critérios claros de avaliação, etapas padronizadas, comparabilidade entre candidatos e definição prévia de requisitos técnicos e comportamentais.
Outras medidas incluem a construção de shortlists diversas, entrevistas conduzidas por mais de um avaliador e o uso de dados para apoiar decisões. Essas estratégias ajudam a reduzir interferências subjetivas e aumentam a consistência do recrutamento.
Segundo Monteiro, boa intenção não é suficiente. Sem método, os processos tendem a favorecer perfis semelhantes aos já existentes dentro da organização.
Impacto da diversidade nos resultados do negócio
Além de ampliar o acesso a talentos, a redução de vieses influencia indicadores operacionais. Estimativas do setor indicam que uma contratação equivocada pode custar até oito vezes o salário do profissional, considerando desligamento, nova seleção e impactos na rotina da equipe.
Em um ambiente de menor margem para erros, o recrutamento passa a ser tratado como decisão estratégica. Para o CEO da Yellow.rec, contratar de forma mais justa não se resume a uma pauta de diversidade, mas a uma escolha de gestão orientada por dados e eficiência.
Na prática, isso exige revisar a operação do recrutamento como um todo. Linguagem das vagas, canais de divulgação, critérios eliminatórios e até o tempo dedicado às entrevistas influenciam diretamente o perfil de quem avança no processo.
A adoção de métodos estruturados, transparentes e baseados em dados tende a transformar diversidade em consequência do processo, e não em um objetivo isolado do discurso corporativo.
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