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Incerteza política marca eleições mais polarizadas em Portugal nas últimas décadas
Eleitores vão às urnas neste domingo; país deve ter segundo turno, algo muito raro nas eleições portuguesas
Portugal se prepara para eleger o novo presidente do país no domingo 18, em um cenário de incerteza política e sem maioria absoluta para nenhum dos 11 candidatos. Nos últimos 40 anos, o Partido Social Democrata e o Partido Socialista vêm se alternando no poder, mas com a ascensão do partido populista Chega, que se tornou a segunda força política do país, as perspectivas mudaram. Os brasileiros em Portugal com direito a voto tendem a priorizar os direitos dos imigrantes.
A menos de 48 horas da abertura das urnas para a escolha do sucessor do social-democrata Marcelo Rebelo de Sousa, que ocupou o cargo nos últimos dez anos, a disputa continua polarizada. Metade dos eleitores que já decidiram o seu voto admite mudar, o que faz com que estas eleições sejam as mais imprevisíveis dos últimos tempos em Portugal. A realização do segundo turno, em 8 de fevereiro, é quase certa – algo raro no país.
Um terço dos portugueses ainda não decidiu o seu voto, mas cerca de 93% dos eleitores pretendem comparecer às urnas, em um país onde a participação não é obrigatória. Os cinco candidatos que mais se destacam nas sondagens são o da esquerda António José Seguro, apoiado pelo Partido Socialista (PS); o populista André Ventura, líder do Chega, de extrema-direita; Luís Marques Mendes, da coligação de centro-direita AD-PSD/CDS, entre o Partido Social Democrata e o Partido Popular; o neoliberal João Cotrim de Figueiredo, fundador da Iniciativa Liberal, e o almirante Henrique Gouveia e Melo, que concorre como independente.
Desta vez, o número de candidatos para a corrida presidencial é um recorde para Portugal: são 11 candidatos oficiais. Com a dispersão de votos entre os concorrentes, será praticamente impossível alguém alcançar os 50% necessários para vencer no primeiro turno. De acordo com a última sondagem do Centro de Estudos e Sondagens de Opinião (CESOP) da Universidade Católica Portuguesa, Seguro e Ventura estão em primeiro lugar nas intenções de voto, em uma disputa intensa pela liderança.
Extrema-direita se consolida
O tema da imigração ganhou destaque na campanha destas eleições e o líder ultradireitista André Ventura parece ter normalizado o seu discurso de ódio, quando usou a frase xenófoba “Isto não é Bangladesh” como um de seus slogans de campanha.
“O Chega desempenha um papel central ao redefinir simbolicamente quem pertence à comunidade nacional, tendo como alvos explícitos as comunidades ciganas e, mais recentemente, migrantes do sul da Ásia, em particular, oriundos de Bangladesh”, afirmou à RFI Luca Manucci, pesquisador do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa e especialista em populismo e extrema-direita.
“O dado politicamente mais relevante, porém, é que a direita tradicional, em particular o PSD, longe de conter essa dinâmica, tem contribuído para a sua normalização, como ilustra a recente legislação sobre a nacionalidade. No contexto presidencial, isso não revela uma crise nas relações luso-brasileiras, mas sim a consolidação de um espaço político onde posições antes marginais da direita radical passam a integrar o debate dominante sobre imigração e identidade nacional”, analisa.
De olho nos direitos dos imigrantes
Os brasileiros com nacionalidade portuguesa que moram em Portugal, no Brasil ou qualquer outro país podem votar nas eleições presidenciais. Segundo o jornal português Público, “os brasileiros vão às urnas de olho nos direitos dos imigrantes”. A comunidade brasileira, que tem sido alvo de xenofobia em Portugal, deve votar em peso contra o Chega, partido anti-imigração.
Neste pleito que está sendo considerado o mais emocionante desde a redemocratização do país, em 1974, o candidato socialista António José Seguro parece ser o favorito em um possível confronto no segundo turno contra o líder do Chega. “É interessante perceber que o André Ventura, embora tenha estado nas sondagens sempre em primeiro lugar e com uma ida ao segundo turno praticamente garantida, parece também ser o único candidato que, indo para o segundo turno, não seria eleito presidente, porque tem uma taxa de rejeição muito grande”, ressalta a ativista ambiental e tradutora portuguesa Ana Berhan.
Desde 1986 não se tem uma disputa para eleger o chefe de Estado de Portugal em dois turnos. A última vez que isso aconteceu foi há 40 anos, nas eleições mais disputadas da democracia portuguesa, com vitória do socialista Mário Soares. Foi a primeira vez que um civil assumia o Palácio de Belém, sede do governo em Lisboa, após quase cinco décadas de ditadura militar e dez anos de transição democrática.
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