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Incerteza política marca eleições mais polarizadas em Portugal nas últimas décadas

Eleitores vão às urnas neste domingo; país deve ter segundo turno, algo muito raro nas eleições portuguesas

Incerteza política marca eleições mais polarizadas em Portugal nas últimas décadas
Incerteza política marca eleições mais polarizadas em Portugal nas últimas décadas
Candidatos à presidência de Portugal durante debate realizado no dia 6 de janeiro – foto: Patricia de Melo Moreira/AFP
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Portugal se prepara para eleger o novo presidente do país no domingo 18, em um cenário de incerteza política e sem maioria absoluta para nenhum dos 11 candidatos. Nos últimos 40 anos, o Partido Social Democrata e o Partido Socialista vêm se alternando no poder, mas com a ascensão do partido populista Chega, que se tornou a segunda força política do país, as perspectivas mudaram. Os brasileiros em Portugal com direito a voto tendem a priorizar os direitos dos imigrantes.

A menos de 48 horas da abertura das urnas para a escolha do sucessor do social-democrata Marcelo Rebelo de Sousa, que ocupou o cargo nos últimos dez anos, a disputa continua polarizada. Metade dos eleitores que já decidiram o seu voto admite mudar, o que faz com que estas eleições sejam as mais imprevisíveis dos últimos tempos em Portugal. A realização do segundo turno, em 8 de fevereiro, é quase certa – algo raro no país.

Um terço dos portugueses ainda não decidiu o seu voto, mas cerca de 93% dos eleitores pretendem comparecer às urnas, em um país onde a participação não é obrigatória. Os cinco candidatos que mais se destacam nas sondagens são o da esquerda António José Seguro, apoiado pelo Partido Socialista (PS); o populista André Ventura, líder do Chega, de extrema-direita; Luís Marques Mendes, da coligação de centro-direita AD-PSD/CDS, entre o Partido Social Democrata e o Partido Popular; o neoliberal João Cotrim de Figueiredo, fundador da Iniciativa Liberal, e o almirante Henrique Gouveia e Melo, que concorre como independente.

Desta vez, o número de candidatos para a corrida presidencial é um recorde para Portugal: são 11 candidatos oficiais. Com a dispersão de votos entre os concorrentes, será praticamente impossível alguém alcançar os 50% necessários para vencer no primeiro turno. De acordo com a última sondagem do Centro de Estudos e Sondagens de Opinião (CESOP) da Universidade Católica Portuguesa, Seguro e Ventura estão em primeiro lugar nas intenções de voto, em uma disputa intensa pela liderança.

Extrema-direita se consolida

O tema da imigração ganhou destaque na campanha destas eleições e o líder ultradireitista André Ventura parece ter normalizado o seu discurso de ódio, quando usou a frase xenófoba “Isto não é Bangladesh” como um de seus slogans de campanha.

“O Chega desempenha um papel central ao redefinir simbolicamente quem pertence à comunidade nacional, tendo como alvos explícitos as comunidades ciganas e, mais recentemente, migrantes do sul da Ásia, em particular, oriundos de Bangladesh”, afirmou à RFI Luca Manucci, pesquisador do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa e especialista em populismo e extrema-direita.

“O dado politicamente mais relevante, porém, é que a direita tradicional, em particular o PSD, longe de conter essa dinâmica, tem contribuído para a sua normalização, como ilustra a recente legislação sobre a nacionalidade. No contexto presidencial, isso não revela uma crise nas relações luso-brasileiras, mas sim a consolidação de um espaço político onde posições antes marginais da direita radical passam a integrar o debate dominante sobre imigração e identidade nacional”, analisa.

De olho nos direitos dos imigrantes

Os brasileiros com nacionalidade portuguesa que moram em Portugal, no Brasil ou qualquer outro país podem votar nas eleições presidenciais. Segundo o jornal português Público, “os brasileiros vão às urnas de olho nos direitos dos imigrantes”. A comunidade brasileira, que tem sido alvo de xenofobia em Portugal, deve votar em peso contra o Chega, partido anti-imigração.

Neste pleito que está sendo considerado o mais emocionante desde a redemocratização do país, em 1974, o candidato socialista António José Seguro parece ser o favorito em um possível confronto no segundo turno contra o líder do Chega. “É interessante perceber que o André Ventura, embora tenha estado nas sondagens sempre em primeiro lugar e com uma ida ao segundo turno praticamente garantida, parece também ser o único candidato que, indo para o segundo turno, não seria eleito presidente, porque tem uma taxa de rejeição muito grande”, ressalta a ativista ambiental e tradutora portuguesa Ana Berhan.

Desde 1986 não se tem uma disputa para eleger o chefe de Estado de Portugal em dois turnos. A última vez que isso aconteceu foi há 40 anos, nas eleições mais disputadas da democracia portuguesa, com vitória do socialista Mário Soares. Foi a primeira vez que um civil assumia o Palácio de Belém, sede do governo em Lisboa, após quase cinco décadas de ditadura militar e dez anos de transição democrática.

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