CartaCapital
Compliance Zero/ Novos ilícitos
PF bloqueia 5,7 bilhões de reais e mira empresários ligados ao Banco Master
A Polícia Federal deflagrou, na quarta-feira 14, a segunda fase da Operação Compliance Zero, que apura fraudes na gestão do Banco Master. A ação foi autorizada pelo ministro Dias Toffoli, do Supremo Tribunal Federal. Segundo ele, as investigações indicam que o controlador da instituição, Daniel Vorcaro, continua atuando para encobrir irregularidades: “Há evidências da prática de novos ilícitos cometidos pelo investigado”.
Nesta etapa, foram cumpridos 42 mandados de busca e apreensão, além do sequestro e bloqueio de bens que somam 5,7 bilhões de reais. Nos endereços vistoriados, os agentes apreenderam carros de luxo, armas e 97 mil reais em dinheiro vivo.
O empresário Fabiano Zettel, cunhado de Vorcaro, chegou a ser detido ao tentar embarcar para Dubai, nos Emirados Árabes Unidos, mas foi liberado em seguida. Pastor da Igreja Lagoinha, sediada em Belo Horizonte, Zettel preside a Moriah Assets, fundo de investimento com participações em empresas do setor de wellness, voltadas à promoção de um estilo de vida saudável. Nas eleições de 2022, foi o maior doador individual das campanhas de Jair Bolsonaro à Presidência, com 3 milhões de reais, e de Tarcísio de Freitas ao governo de São Paulo, com outros 2 milhões.
Também foram alvos da PF os empresários e investidores Nelson Tanure e João Carlos Mansur. Este último é fundador e ex-executivo da gestora Reag Investimentos, apontada pelas investigações como responsável por um fundo ligado ao Master,
o Brain Cash, que teria multiplicado seu patrimônio em 30 mil vezes em apenas 20 dias.
No mesmo dia da operação, o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, reuniu-se em Brasília com o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, mas o conteúdo da conversa não foi divulgado. No início da semana, o BC firmou acordo com o Tribunal de Contas da União para que o órgão realize inspeções nos documentos que embasaram a decisão pela liquidação do Master e pela rejeição da proposta de compra do banco que, segundo Vorcaro, teria sido apresentada pela Fictor.
Em nota, a defesa do banqueiro – que chegou a ser preso pela PF em novembro, ao tentar deixar o País – diz que Vorcaro “tem colaborado integral e continuamente com as autoridades competentes”. De acordo com os advogados, “todas as medidas judiciais determinadas no âmbito da investigação serão atendidas com total transparência”.
Veto a emendas
Ao sancionar a Lei Orçamentária Anual de 2026, o presidente Lula vetou dois dispositivos que somam 392,8 milhões de reais em emendas parlamentares. As propostas foram incluídas durante a tramitação do texto e não constavam da programação orçamentária encaminhada pelo Poder Executivo, o que, segundo o governo, contraria as regras estabelecidas pela Lei Complementar 210/2024. O veto ainda será analisado por deputados e senadores, que poderão mantê-lo ou derrubá-lo. Ao todo, o Orçamento da União para 2026 alcança 6,54 trilhões de reais, com meta de superávit de 34,2 bilhões. O salário mínimo passará de 1.518 para 1.621 reais.
Oriente Médio/ Golfo em ebulição
O Irã fecha seu espaço aéreo em meio à escalada de tensões com os EUA
A repressão aos protestos deixou milhares de mortos, denunciam ONGs – Imagem: STR/AFP
A tensão entre Irã e EUA escalou ao longo da semana e deixou o mundo apreensivo diante da possibilidade de um novo conflito. Na quarta-feira 14, o governo de Donald Trump iniciou a retirada de militares norte-americanos lotados em bases instaladas em países do Golfo Pérsico. A medida ocorreu no mesmo dia em que Teerã alertou governos da região que abrigam tropas dos EUA sobre a possibilidade de bombardeios de retaliação a essas instalações em caso de um ataque direto ao território iraniano.
Segundo fontes diplomáticas, Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Catar e Omã – embora sem manifestações oficiais – procuraram representantes de Washington para advertir que uma ação militar voltada à derrubada do regime do aiatolá Ali Khamenei poderia lançar a região em uma espiral de violência de consequências imprevisíveis. Apesar de rivais do governo iraniano, esses países temem que um bombardeio norte-americano provoque a expansão do conflito por todo o Oriente Médio, comprometendo o abastecimento global de petróleo e gás e, por consequência, a própria economia dos EUA. Até o fechamento desta edição, não havia indicação de que o alerta tenha sensibilizado Trump.
Enquanto governos trocavam ameaças, Teerã intensificou a repressão aos protestos internos iniciados em 28 de dezembro. Embora os números ainda careçam de confirmação independente, imagens e relatos divulgados por organizações de direitos humanos nas redes sociais indicam que as tropas de Khamenei vêm abrindo fogo contra manifestantes desarmados.
Na própria quarta-feira 14, estimativas mais conservadoras apontavam ao menos 850 mortos. Já a organização norueguesa Direitos Humanos no Irã (IHR, na sigla em inglês), que mantém uma rede de militantes no país, divulgou um boletim estimando cerca de 3,4 mil execuções. Na véspera, Trump insuflou, nas redes sociais, os manifestantes a “continuar nas ruas e tomar as instituições do país”. O presidente norte-americano também insinuou a iminência de um ataque: “A ajuda está a caminho”.
Bravura indômita
Imagem: Julie Bennett/AFP
Claudette Colvin, ativista estadunidense que desafiou a segregação racial em um ônibus de Montgomery, capital do Alabama, quando tinha apenas 15 anos, morreu na terça-feira 13, aos 86 anos. Em 1955, ela se recusou a ceder o assento a uma mulher branca e foi retirada à força pela polícia, nove meses antes de Rosa Parks protagonizar um protesto semelhante. Embora menos conhecida, seu ato de desobediência civil inspirou outros ativistas e ajudou a pavimentar o caminho para o fim da segregação nos transportes públicos dos EUA. “Deixa um legado de coragem que contribuiu para mudar o curso da história norte-americana”, afirmou a Fundação Claudette Colvin.
Publicado na edição n° 1396 de CartaCapital, em 21 de janeiro de 2026.
Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘A Semana’
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