Economia

assine e leia

Toma lá, dá cá

Prestes a ser assinado, o acordo comercial traz riscos imediatos, benefícios a prazo e divergências quanto ao seu real efeito para o País

Toma lá, dá cá
Toma lá, dá cá
Desprotegido. Por aqui, o setor de máquinas e equipamentos é um dos mais vulneráveis à concorrência europeia – Imagem: iStockphoto e Massey Ferguson Brasil
Apoie Siga-nos no

A aprovação provisória do acordo de livre comércio entre o Mercosul e a União Europeia, com assinatura final prevista para este mês, em Assunção, no Paraguai, após 25 anos de negociações, está longe de representar uma convergência de avaliações sobre seus prováveis efeitos. Celebrado pelo governo e por parte do empresariado, confiantes nos supostos efeitos revigorantes da exposição da economia brasileira a um choque de competição com os europeus, o tratado é visto com apreensão por segmentos do setor produtivo e por diversos economistas. Esses críticos apontam riscos elevados para diferentes ramos da já fragilizada indústria nacional.

Mesmo entre apoiadores, o tratado desperta sentimentos conflitantes. “O acordo, sem dúvida, traz benefícios aos dois blocos, mas envolve uma negociação complexa, com tantas artimanhas, armadilhas, restrições e salvaguardas que chamá-lo de acordo de livre comércio é quase um contrassenso, um paradoxo”, tem repetido o economista Roberto Giannetti da Fonseca, ex-secretário-executivo da Câmara de Comércio Exterior (Camex), em entrevistas recentes.

O tratado estabelece as bases da maior zona de livre comércio do mundo, que reúne­ em torno de 720 milhões de habitantes. O texto prevê a abertura gradual de mercados, a manutenção de salvaguardas ao agronegócio europeu e a adoção de novas regras para serviços, investimentos e compras públicas. O acordo ainda enfrenta resistência de agricultores europeus e de ambientalistas, preocupados com seus impactos climáticos e com a concorrência no setor agrícola. A implementação será progressiva e dependerá da ratificação pelo Parlamento Europeu.

O processo de desindustrialização do Brasil pode se intensificar, alerta a Abimaq

No Mercosul, o acordo prevê a eliminação de tarifas sobre 91% dos bens europeus em até 15 anos. Na União Europeia, serão retiradas as cobranças incidentes sobre 95% dos produtos do bloco sul-americano em um prazo de até 12 anos. Alguns setores – como máquinas e equipamentos, automóveis e autopeças, produtos químicos, aeronaves e equipamentos de transporte – terão tarifa zero desde a entrada em vigor do tratado.

Produtos considerados “sensíveis” pela UE estarão sujeitos a cotas, caso de carne bovina, frango, arroz, mel, açúcar e etanol. Acima dos limites estabelecidos voltará a incidir a taxação. Os itens beneficiados pelo acordo não poderão estar associados a desmatamento ilegal, e as cláusulas ambientais terão caráter vinculante. Está prevista, inclusive, a suspensão do tratado em caso de violação do Acordo de Paris. Os europeus pretendem manter padrões sanitários e fitossanitários rigorosos.

O acordo beneficia, sobretudo, setores europeus como automóveis, máquinas, equipamentos e químicos. No Brasil, estão previstos ganhos em quase todos os segmentos do agronegócio e perdas na indústria. A Abimaq, associação das indústrias de máquinas e equipamentos, alerta para o risco de aprofundamento da desindustrialização, aumento do déficit comercial e perda de competitividade, especialmente nos setores de máquinas e veículos.

Cabo de guerra. O agro brasileiro terá benefícios, mas a reação dos fazendeiros europeus é forte. O setor automotivo europeu tem motivos para celebrar – Imagem: Marco Bertorello/AFP, Oliver Killig/Volkswagem e José Fernando Ogura/GOVPR

Um estudo do Ipea estima que o tratado pode resultar em um crescimento de 0,46% do PIB brasileiro, de 0,20% nos demais países do Mercosul e de 0,06% na União Europeia. O impacto sobre a indústria de transformação seria “levemente positivo”, com retração da produção em setores como veículos e autopeças, metais ferrosos, vestuário, produtos de metal, têxteis, farmacêuticos, máquinas e equipamentos e eletrônicos. Por outro lado, o estudo aponta ganhos em segmentos como calçados e artefatos de couro, aeronaves e equipamentos aeronáuticos, metais não ferrosos, celulose e papel e produtos de madeira, exceto móveis.

O problema da indústria, no entanto, é mais complexo do que os modelos econômicos e projeções sugerem, observa o economista Paulo Gala, professor da FGV. “O acordo precisa ser apresentado com clareza: ele tende a reduzir tarifas a zero, mas isso não significa, por si só, maior acesso a mercados. Nas indústrias de alta intensidade tecnológica, as tarifas da UE já são relativamente baixas e o déficit do Brasil nesses segmentos já é elevado, de modo que zerá-las tem efeito limitado sobre a abertura efetiva e pode, sobretudo, ampliar a assimetria competitiva”, alerta Gala em um estudo. Segundo ele, isso ocorre porque as tarifas de importação do Brasil são altas e serão eliminadas, o que tende a agravar o déficit do País nesses setores diante da Europa.

Em contrapartida, nos setores em que as tarifas europeias são elevadas – especialmente no agronegócio e em indústrias de baixa e média-baixa intensidade –, a eliminação dessas barreiras “pode reforçar o padrão dominante do Brasil nesses produtos, estimulando uma especialização regressiva em vez de favorecer a diversificação e o avanço para atividades de maior conteúdo de conhecimento”, sublinha o professor.

“Quando alguém olha o perfil tarifário da União Europeia no agregado”, prossegue Gala, “a primeira reação costuma ser: ‘mas a UE é aberta!’ De fato, a tarifa média aplicada gira em torno de 5%, e a média ponderada pelo comércio cai para perto de 2,8%. Parece pouco. O problema, entretanto, é que média não é estrutura”, explica o economista. Em comércio internacional, é a estrutura que determina quem ganha e quem perde. Ao analisar a tabela por grupos de produtos e cruzá-la com os gráficos de composição do comércio – os treemaps de França e Alemanha, por exemplo –, a lógica fica clara: a UE mantém “picos” tarifários e barreiras relevantes justamente nos setores em que o Brasil é competitivo no curto prazo – agro e alimentos – e, ao mesmo tempo, exporta para cá bens de alta densidade tecnológica. Na outra ponta, o Brasil continua a vender ­commodities e semimanufaturados, dispara o economista. O resultado é um acordo que “tende a congelar a especialização periférica do Brasil”.

O acordo reflete o padrão de abertura seletiva dos mercados de nações ricas, com muita proteção em setores sensíveis

O economista destaca dois aspectos pouco debatidos: a seletividade da abertura e a força do protecionismo europeu. No resumo do perfil tarifário da UE, a comparação básica é reveladora: a tarifa média aplicada é em torno de 5%, enquanto em produtos agrícolas chega a 10,5% e em não agrícolas a 4,1%. Ou seja, no agro, a Europa é bem menos “liberal” do que a média sugere. Ao analisar a distribuição por faixas tarifárias, emerge o mecanismo central: nas linhas agrícolas, uma parcela relevante incide em faixas acima de 15%, 25%, 50% e até 100%, ou mais. Já nos não agrícolas, as tarifas se concentram nas faixas mais baixas. “Em outras palavras, o mercado europeu não é simplesmente ‘aberto’; ele é administrado”, ressalta Gala.

Não é só isso: onde a UE protege, “protege pesado”. O detalhamento por grupos de produtos confirma o padrão político-econômico clássico das economias ricas: abertura seletiva, com forte proteção a setores sensíveis. Alguns exemplos de tarifas médias aplicadas em grupos relevantes ilustram o ponto: laticínios 27%, bebidas e tabaco 18%, açúcares e confeitaria 18%, vestuário 11,5%, cereais e preparações alimentícias 12%, peixes 11,5%.

“O recado é direto: mesmo nos segmentos em que o Brasil imagina “subir um degrau”, como alimentos processados, bebidas e manufaturados leves, o acesso não é trivial. E, além da média, a tabela revela máximos muito altos em certos grupos, ou seja, há proteção em forma de ‘pico’ para itens específicos”, observa o professor. “É exatamente por isso que muita gente, com razão, interpreta esse tipo de acordo assim: o que o Brasil “ganha” em acesso, quando ganha, está concentrado em manufaturas de baixa e média-baixa intensidade, enquanto os setores de maior densidade tecnológica ficam do outro lado.”

Um ponto fundamental, segundo o economista, e que quase ninguém quer discutir, são os interesses setoriais e das multinacionais. Na disputa para definir alíquotas e outras regras do tratado, os setores de baixa e média-baixa intensidade acabam dominando as associações industriais, pois têm agendas mais imediatas e, muitas vezes, mais “compatíveis” com a liberalização comercial – ou conseguem negociar benefícios específicos para si.

Empenho. No fim de 2025, Lula encontrou-se com a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, para destravar o acordo – Imagem: Ricardo Stuckert/PR

Outro aspecto é que os interesses das matrizes multinacionais frequentemente se sobrepõem aos das empresas nacionais, já que parte do parque industrial instalado no Brasil funciona como plataforma de mercado, dependente de insumos importados e de decisões corporativas globais. “Isso gera um viés: o acordo pode ser ótimo para quem quer vender manufaturas sofisticadas ao Brasil e usar o país como mercado, mas ao mesmo tempo prejudica quem precisa de política industrial e instrumentos de aprendizado para subir a escada tecnológica”, alerta o economista.

O Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi) enxerga o acordo Mercosul-UE como uma oportunidade para fortalecer o ambiente de negócios no Brasil, atraindo investimentos e ampliando o acesso a mercados, mas ressalta a necessidade de políticas de apoio à competitividade industrial e períodos de adaptação para setores sensíveis. O tratado foca na liberalização tarifária e em compromissos regulatórios, com o objetivo de modernizar a economia e integrar o País a cadeias globais, mas há preocupações sobre um possível avanço da desindustrialização.

O Iedi e a Confederação Nacional da Indústria concordam que a concretização dos benefícios esperados dependerá da forma como o tratado será implementado e de políticas públicas capazes de mitigar riscos, fortalecer a base produtiva e estimular a inovação, garantindo que o setor nacional se beneficie sem ser prejudicado pela concorrência externa.

Ao se conectar com um universo mais amplo e diversificado de clientes, fornecedores e concorrentes, as empresas são expostas a novas formas de competição e têm contato com tecnologias inovadoras, além de diferentes modelos de negócios e práticas de gestão. “Como resultado, muitos estudos indicam que empresas exportadoras crescem mais, inovam mais e oferecem salários mais elevados”, ressalta o Iedi.

A Europa pode ter acesso preferencial a recursos naturais e matérias-primas estratégicas, como cobre, lítio, petróleo e terras-raras

Os Acordos Preferenciais de Comércio (APCs) são instrumentos fundamentais para a inserção dos países nas cadeias globais de valor e contribuíram significativamente para o aumento dessas articulações internacionais, destaca um estudo encomendado pelo Iedi e conduzido por Vera Thorstensen, da FGV de São Paulo, que por 15 anos assessorou a Missão do Brasil na Organização Mundial do Comércio (OMC).

Os mega-acordos, como o ­Mercosul-UE, representam uma evolução dos APCs, envolvendo um grande número de economias e abrangendo todo o espectro da regulação do comércio internacional, inclusive aspectos regulatórios considerados barreiras. Atualmente, três mega-acordos estão em vigor: 1) o ­Transpacific ­Partnership (TPP), com 11 economias da Ásia, do Pacífico e os EUA; 2) o ­Transatlantic Trade and Investment Partnership (TTIP), que inclui EUA e UE; e 3) o Regional Comprehensive Economic Partnership (RCEP), liderado pela China e integrado por 16 países asiáticos.

O acordo Mercosul-UE terá impactos comerciais positivos, mas marginais, e está longe de ser decisivo para qualquer um dos blocos, avalia Esteban ­Actis, professor de Relações Internacionais da Universidade Pública de Rosário, na Argentina. Para a UE, o Mercosul representa uma oportunidade quase única de obter acesso preferencial a recursos naturais e matérias-primas estratégicas, como lítio, cobre, elementos de terras-raras, petróleo e GNL, essenciais para reduzir a vulnerabilidade diante das ambições de EUA, China e Rússia. Na atual fragmentação geoeconômica, a Europa é claramente a perdedora no acesso a esses recursos de uso civil e militar.

“O caso das terras-raras é emblemático. Em recente entrevista, Stéphane ­Séjourné, comissário europeu para a Indústria, afirmou que estava prestes a viajar ao Brasil para avançar na aquisição de uma mina. Antes da viagem, foi informado de que a Corporação Financeira de Desenvolvimento Internacional dos EUA havia disponibilizado o financiamento e garantido toda a produção até 2030”, observa Actis. “Teriam os acontecimentos se desenrolado de forma diferente se o acordo já estivesse em vigor, criando um arcabouço institucional para a cooperação técnica e política? É uma questão em aberto.” •

Publicado na edição n° 1396 de CartaCapital, em 21 de janeiro de 2026.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Toma lá, dá cá’

ENTENDA MAIS SOBRE: , , , ,

Jornalismo crítico e inteligente. Todos os dias, no seu e-mail

Assine nossa newsletter

Assine nossa newsletter e receba um boletim matinal exclusivo

Apoie o jornalismo que chama as coisas pelo nome

Depois de anos bicudos, voltamos a um Brasil minimamente normal. Este novo normal, contudo, segue repleto de incertezas. A ameaça bolsonarista persiste e os apetites do mercado e do Congresso continuam a pressionar o governo. Lá fora, o avanço global da extrema-direita e a brutalidade em Gaza e na Ucrânia arriscam implodir os frágeis alicerces da governança mundial.

CartaCapital não tem o apoio de bancos e fundações. Sobrevive, unicamente, da venda de anúncios e projetos e das contribuições de seus leitores. E seu apoio, leitor, é cada vez mais fundamental.

Não deixe a Carta parar. Se você valoriza o bom jornalismo, nos ajude a seguir lutando. Assine a edição semanal da revista ou contribua com o quanto puder.

Jornalismo crítico e inteligente. Todos os dias, no seu e-mail

Assine nossa newsletter

Assine nossa newsletter e receba um boletim matinal exclusivo