Josué Medeiros

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Cientista político e professor da UFRJ e do PPGCS da UFRRJ. Coordena o Observatório Político e Eleitoral (OPEL) e o Núcleo de Estudos sobre a Democracia Brasileira (NUDEB)

Colunas

Primeiras pesquisas de 2026 consolidam disputa entre Lula e o clã Bolsonaro

Em aliança com a Faria Lima e com a grande mídia, a direita tradicional tentará até março reverter o quadro, promovendo a tese de que Tarcísio seria o único capaz de derrotar Lula

Primeiras pesquisas de 2026 consolidam disputa entre Lula e o clã Bolsonaro
Primeiras pesquisas de 2026 consolidam disputa entre Lula e o clã Bolsonaro
Lula, Tarcísio e Flávio Bolsonaro. Fotos: Ricardo Stuckert / PR; Bruno de Lima / Governo de São Paulo; e Carlos Moura/Agência Senado
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Eleições 2026

As primeiras pesquisas eleitorais de 2026 confirmam o que já vinha se desenhando ao longo do ano passado: a força da polarização entre o presidente Lula e a família Bolsonaro, agora representada por Flávio Bolsonaro, senador e filho do ex-presidente Jair Bolsonaro.

O instituto Ideia, em parceria com o portal Meio, divulgou seu levantamento no dia 13 de janeiro. No dia seguinte, 14, foi a vez da Quaest tornar públicos os seus resultados.

Nas intenções de voto espontâneas (quando o entrevistado responde sem que nomes sejam apresentados) aparece o primeiro retrato dessa polarização. Na pesquisa Ideia, Lula marca 32%, contra 9,5% de Jair Bolsonaro e 6,6% de Flávio Bolsonaro. Já na Quaest, Lula aparece com 19%, Flávio com 7% e Jair Bolsonaro com apenas 2%.

A tendência ao longo do ano é que o eleitor que hoje ainda declara voto no ex-presidente, condenado e preso, migre para o filho. Esse movimento ajuda a explicar o potencial de crescimento de Flávio Bolsonaro.

Nos dois institutos, Lula venceria todos os demais oponentes tanto no primeiro quanto no segundo turno. No cenário de confronto direto entre Lula e Flávio testado pelo Ideia, o presidente tem 39,7%, contra 27,5% do senador. A Quaest trabalha com vários cenários, quase todos com Lula e Flávio, variando os nomes da direita tradicional hoje cotados como candidatos.

O melhor desempenho de Lula aparece no cenário 4 da Quaest: ele marca 40%, Flávio Bolsonaro fica com 23% e Tarcísio de Freitas alcança 14%. O dado curioso é que o pior desempenho de Lula ocorre justamente no cenário sem Tarcísio — considerado por parte da grande mídia, do empresariado e das lideranças da direita tradicional como o mais competitivo. Nesse caso, Lula tem 35%, Flávio Bolsonaro 26% e, em terceiro lugar, aparece Ratinho Jr., governador do Paraná, com 9%.

Há ainda um cenário pouco provável, mas que merece registro: aquele em que Flávio Bolsonaro não concorre. Na pesquisa Ideia, Lula teria 40,2% e Tarcísio chegaria a 32,7%. Já na Quaest, sem Flávio, Lula marca 39% e Tarcísio, 27%.

Um dado que chama atenção na pesquisa Quaest é o alto índice de indecisos na pergunta espontânea. Nela, 68% dos entrevistados não souberam indicar um candidato — um padrão historicamente comum nas pesquisas eleitorais brasileiras neste estágio do processo. Na pesquisa Ideia, porém, apenas 27,4% disseram não saber em quem votar. Isso ajuda a explicar por que, nesse instituto, nomes mais fracos aparecem pontuando mais: o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, surge com 6,1% na espontânea, enquanto na Quaest todos os demais nomes somam apenas 4%.

Outro ponto questionável da pesquisa Ideia foi a decisão de testar o primeiro cenário estimulado — quando os entrevistados recebem uma lista de candidatos — excluindo Flávio Bolsonaro. É razoável que, neste começo de ano e até abril, prazo de desincompatibilização para governantes que pretendem disputar as eleições, os institutos explorem cenários alternativos. Mas o patamar de votos já alcançado por Flávio permite afirmar que ele é hoje o principal oponente de Lula e, portanto, deveria figurar como o primeiro cenário testado.

Na comparação com os dados de 2025, os números da Quaest parecem mais consistentes do que os do Ideia. Neste último, o governador Tarcísio aparece inflado, com desempenho superior ao registrado no conjunto das pesquisas de diferentes institutos, tanto na espontânea — em que chega a um extraordinário 6% — quanto na estimulada, onde pontua cerca de cinco pontos a mais do que na Quaest. Minha hipótese é que os números do Ideia tendam a convergir nos próximos meses, reduzindo as intenções de voto do governador paulista.

Essa hipótese é reforçada por outros indicadores trazidos pela Quaest. Quando perguntados se Jair Bolsonaro acertou ou errou ao indicar Flávio Bolsonaro como candidato, o eleitorado de direita apoia majoritariamente a decisão. Na direita bolsonarista, o apoio subiu de 78% em dezembro de 2025 para 87% em janeiro de 2026. Já na direita não bolsonarista, o índice passou de 55% para 62% no mesmo período, confirmando a tendência de consolidação da candidatura do senador fluminense.

No mesmo sentido, cresce a percepção de que Flávio Bolsonaro irá até o fim da disputa. Para 54% dos entrevistados, ele está no pleito “para valer”, cinco pontos acima dos 49% registrados em dezembro. Já o percentual dos que acreditam que ele vai retirar a candidatura caiu de 38% para 34%.

Em síntese, 2026 começa como 2025 terminou. Os campos políticos da esquerda, com Lula, e da extrema-direita, com o bolsonarismo, lideram a corrida presidencial e aprofundam a polarização. A direita tradicional segue sem protagonismo nacional. Em aliança com a Faria Lima e com a grande mídia, esse campo tentará até março reverter o quadro, promovendo a tese de que Tarcísio seria o único candidato capaz de derrotar Lula no segundo turno e pressionando Flávio Bolsonaro a desistir.

O problema dessa tese é simples: o bolsonarismo é o campo que tem votos, e esses votos estão vinculados à liderança da família Bolsonaro. Manter a candidatura de Flávio em 2026 é crucial para a sobrevivência do clã, não apenas no curto prazo, mas também no médio prazo, mirando um cenário em que as eleições de 2030 já não contarão com Lula nas urnas.

A opinião de colunistas e articulistas não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.

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