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Cassino político
Aposta suspeita em queda de Maduro expõe vícios e armadilhas do bilionário “mercado de previsões”
O futuro da Venezuela já tem dono – e cotação em dólares. Na Kalshi, uma das maiores plataformas de “mercados de previsão” dos EUA, Delcy Rodríguez desponta como favorita para comandar a nação caribenha até dezembro de 2026, enquanto Cuba e Groenlândia entram no cardápio especulativo de intervenções militares norte-americanas. Não é mais ficção geopolítica: são ativos negociáveis em tempo real. Na manhã de 3 de janeiro, a imagem de Nicolás Maduro sequestrado pelo governo de Donald Trump rodou o mundo. Horas antes da operação, um apostador anônimo abriu uma conta em outra plataforma, a Polymarket, e apostou 30 mil dólares na queda do líder venezuelano. Saiu com mais de 400 mil dólares de lucro.
O que parecia ser coincidência vem se transformando em símbolo de uma política global precificada como cassino. Os casos citados somam-se a outros suspeitos de uso de informação privilegiada (insider trading) relacionados a ações do governo Trump. O resultado é um ambiente em que a fronteira entre o Estado e o mercado financeiro torna-se porosa e lucrativa.
Os chamados mercados de previsão (prediction markets) nasceram como experimentos acadêmicos, usados para medir expectativas sobre eleições ou taxas de juro. Em 2023, a Kalshi – “tudo”, no idioma árabe – introduziu outras modalidades de predição política: os usuários poderiam, por exemplo, apostar em qual partido controlaria o Congresso. Depois disso, o salto foi vertiginoso. De acordo com a revista Forbes, o volume mensal de negociações nessas plataformas saltou de menos de 100 milhões de dólares, no início de 2024, para mais de 13 bilhões de dólares no fim de 2025.
Lucro. Apostador ganhou 400 mil dólares com o sequestro do líder venezuelano – Imagem: DEA/AFP
Nessas bolsas da política, cada evento futuro – seja uma eleição, seja uma decisão judicial, seja uma guerra – transforma-se em ativo negociável. A lógica é de especulação pura, com a roupagem da previsão científica. Só que, agora, os “eventos” são ações de governos e crises políticas que afetam vidas reais. Por exemplo, na Kalshi, o Irã está na roda de apostas com até 60% de chance de Ali Khamenei sair do poder em 2026. Na Polymarket, a eleição brasileira também faz parte das previsões e colocam o presidente Lula liderando com cerca de 47% de chance de ser reeleito. Tarcísio de Freitas, com cerca de 35%, é o principal desafiante. Mas essa não é a primeira vez que o Brasil é pauta nesse mercado de previsões. Em julho do ano passado, o País foi tragado para dentro desse circuito especulativo quando Trump anunciou o tarifaço de 50% sobre produtos brasileiros, justificando “ameaças à segurança nacional”, mencionando explicitamente o julgamento do ex-presidente Jair Bolsonaro e as decisões do ministro Alexandre de Moraes.
O gesto foi lido como provocação política, mas carregava também um eco financeiro. Assim como aconteceu na Venezuela, horas antes do anúncio das tarifas, o mercado de dólar futuro na B3 (antiga Bolsa de Valores de São Paulo) registrou movimentações bilionárias: perto de 6,6 bilhões de reais apostaram na desvalorização do real. O resultado foi de tamanha anomalia que Moraes determinou a abertura de um inquérito sigiloso no STF para investigar vazamentos e negociação de ativos com informação privilegiada. Não há prova pública de que alguém em Washington tenha antecipado o tarifaço, mas, para analistas financeiros, a coincidência reforça a intuição de que o eixo de decisão política nos EUA vem funcionando como matriz de arbitragem – um ponto onde a linha temporal das decisões estatais e as grandes posições especulativas se cruzam.
Seja a transição venezuelana, outra intervenção militar dos EUA ou um degelo ártico, tudo se tornou um ativo financeiro global, e quem acertar o “nome e o timing” multiplica o capital em dólares. Trump sabe disso e não esconde seu interesse. Em 9 de abril de 2025, por exemplo, ele publicou no X que aquela manhã era “uma excelente hora para comprar dólar”. Pouco depois, anunciou uma pausa de 90 dias nas tarifas para mais de 75 países. Resultado: a Bolsa disparou e quem comprou dólares no momento do post, ganhou muito dinheiro. À época, Jamie Cox, investidor do Harris Financial Group, afirmou à rede de televisão CNN que o presidente demonstrava a todos no mercado o quão incrivelmente difícil era negociar em torno de seu regime tarifário, “porque Trump, e somente ele, sabe quando termina”.
Deputado democrata quer proibir servidores federais de investir em plataformas como Kalshi e Polymarket
Entre os rostos à frente desse lucrativo negócio está o da brasileira Luana Lopes Lara, uma das fundadoras da Kalshi. Formada em Engenharia de Dados pelo MIT, uma das universidades mais prestigiadas dos EUA, a mineira de Belo Horizonte defende que o mercado de previsões é um “termômetro mundial para o futuro”. Em entrevistas para tevês e jornais no Brasil, o status de ter se tornado a “bilionária mais jovem do mundo a construir a própria fortuna sem ser herdeira” ganhou manchetes, mas pouco se questionou sobre o negócio que a colocou no Olimpo da fortuna.
Desde o início do segundo mandato de Trump, grandes plataformas de prediction markets, como a que Luana fundou, passaram a adotar a retórica do “todo mundo é especialista em algo”. Uma semana antes da posse, por sinal, a Kalshi anunciou Donald Trump Jr., filho do presidente, como conselheiro estratégico de marketing da empresa. “Na noite da eleição em Mar-a-Lago, enquanto a mídia tendenciosa dizia que a disputa estava indefinida, minha família e amigos próximos usaram a Kalshi para saber que tínhamos vencido horas antes”, escreveu no X. “Imediatamente soube que precisava contribuir para a missão deles.”
Filho do presidente. Donald Trump Jr. assumiu cargo de conselheiro estratégico da Kalshi, uma das maiores plataformas do mercado de previsões nos EUA – Imagem: Gage Skidmore
As suspeitas de negociações com informações privilegiadas levaram o Congresso dos EUA a reagir. Em 9 de janeiro, o deputado democrata Ritchie Torres, de Nova York, apresentou um Projeto de Lei de Integridade Pública em Mercados de Previsão Financeira, que pretende proibir integrantes do governo, do Judiciário e do Congresso – além de seus familiares diretos – de negociar contratos de previsão sobre decisões de Estado ou ações de órgãos públicos. “O canto mais corrupto de Washington pode muito bem ser a interseção entre os mercados de previsão e o governo, onde o uso de informações privilegiadas e o conflito de interesses deixaram de ser riscos imaginários e se tornaram perigos comprovados. Ignorar essa corrupção flagrante é um risco que não podemos correr”, disse Torres ao apresentar o texto, que contou com apoio de outros 29 integrantes da Casa.
Para o deputado, há falta de salvaguardas para impedir o uso de informações privilegiadas. Aliás, a semelhança com o tradicional crime de insider trading no mercado de ações é inevitável, mas os mercados de previsão vivem em um limbo regulatório porque são supervisionados apenas parcialmente pela Commodity Futures Trading Commission, uma agência independente do governo dos EUA que regula os mercados de derivativos.
O volume mensal de negociações saltou de menos de 100 milhões de dólares, no início de 2024, para 13 bilhões ao término de 2025
Em nota enviada à reportagem de CartaCapital, a assessoria de imprensa da Kalshi reagiu às suspeitas de uso de informação privilegiada, enfatizando seu rigor regulatório. A plataforma destaca que insider trading é proibido por lei federal nos EUA e que suspende contas suspeitas, investigando e reportando casos às autoridades quando há evidências. A empresa afirma que tem controles mais rígidos do que concorrentes, e faz rastreamento de todos os negociadores contra listas de pessoas politicamente expostas, incluindo Donald Trump Jr. e seus familiares.
A noção de que “o mercado reage à política” já soa ultrapassada. Na prática, os mercados de previsão são um experimento de dominação de informação. O fenômeno não é apenas econômico, é simbólico. “Lucre com seu conhecimento”, diz um dos slogans da Polymarket. “O mundo enlouqueceu. Negocie isso”, convida a Kashi. Naturaliza-se a ideia de que política é um jogo, no qual é possível ganhar dinheiro com as pistas certas. Pouco importa se, nessa roleta, a democracia é apenas uma ficha na mesa. •
Publicado na edição n° 1396 de CartaCapital, em 21 de janeiro de 2026.
Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Cassino político’
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