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As batalhas mundo afora

Às vésperas das indicações, nove dentre os pré-indicados ao Oscar de Filme Internacional podem ser vistos no Brasil

As batalhas mundo afora
As batalhas mundo afora
Janelas abertas. Foi Apenas Um Acidente, de Jafar Panahi, A Única Chance, de Park Chan-wook, e Valor Sentimental, de Joachin Trier, mostram a potência da categoria – Imagem: C.J. Enm, Kasper Tuxen Andersen e Les Filmes Pelleas
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Com a estreia do filme sul-coreano A Única Chance, na quinta-feira 22, serão quatro os títulos da pré-lista de 15 indicados ao Oscar de Filme Internacional – da qual faz parte O Agente Secreto – em cartaz nos cinemas brasileiros. Há, ainda, outros cinco títulos da relação divulgada pela Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood disponíveis no streaming.

Esse conjunto de nove longas-metragens oferece um interessante mapa do cinema mundial. A primeira curiosidade é que os títulos internacionais que tiveram lançamento no circuito de salas brasileiro são, cinematograficamente, os mais potentes – e, não à toa, os mais premiados.

São eles, além de O Agente Secreto, o norueguês Valor Sentimental, dirigido por Joachin Trier, ganhador do Grand Prix do júri de Cannes; Foi Apenas Um Acidente, representante da França, dirigido pelo iraniano Jafar Panahi, vencedor da Palma de Ouro no festival francês; e A Única Chance, do sul-coreano Park Chan-wook, ganhador do Urso de Prata de Melhor Direção no Festival de Berlim.

Com a estreia do sul-coreano A Única Chance serão quatro os concorrentes em cartaz nas salas

Os direitos dos três filmes para o Brasil foram comprados pela Mubi. A empresa, em cada país, faz parcerias com distribuidores locais e, antes de disponibilizar os títulos para os assinantes da plataforma, os coloca nos cinemas. Os cinco longas-metragens presentes nos catálogos da Netflix e da Amazon Prime Video (ver quadro na pág. à dir.) foram direto para o streaming.

Embora os títulos disponíveis na ­Netflix e na Prime Video tragam temáticas fortes, com viés social e político, e prendam a atenção, eles têm uma linguagem menos sofisticada que os demais. O que diferencia as quatro obras que estarão simultaneamente em cartaz nos cinemas é a complexidade narrativa e visual.

Foi Apenas Um Acidente, que completou seis semanas em cartaz e era considerado o grande concorrente de O Agente Secreto no Globo de Ouro, é, provavelmente, o grande trabalho da carreira de Jafar Panahi, cineasta que, desde 2009, é perseguido pelo regime teocrático do Irã.

No filme, um grupo de ex-presos políticos se debate entre a ideia de perdão e a vingança ao encontrar seu suposto torturador. O mais tocante nesta obra é o senso de esperança no homem que ­Panahi, apesar de tudo, mantém.

Valor Sentimental, também um grande filme, é tanto um olhar sobre o próprio cinema quanto uma reflexão sobre as marcas afetivas que carregamos. Enquanto O Agente Secreto e Foi Apenas Um Acidente olham para as marcas deixadas pela violência do Estado, o filme norueguês nos coloca frente a frente com o trauma familiar. Detalhe (que não é um detalhe): na origem desse trauma, há também uma histórica política a envolver tortura.

As protagonistas são duas irmãs que, após a morte da mãe, têm de lidar com a presença física de uma casa e um fantasma: o pai cineasta que, como toda figura paterna ausente, impõe uma presença que, pela falta, pesa.

A nova estreia, A Única Chance, remete, inevitavelmente, ao conterrâneo Parasita, ganhador de um Oscar, em 2019, que se tornou símbolo da reorganização geopolítica à qual Hollywood se adaptou.

O tema de fundo do filme é a insanidade competitiva gerada pelo mundo do trabalho. O protagonista da trama é um executivo que tem de lidar com uma demissão. A perturbação que a perda do cargo lhe traz é proporcional à certeza de que vale tudo – tudo mesmo – para conseguir um novo posto.

A direção de Park Chan-wook é impressionante. O horror, salpicado com humor, é construído a partir de uma partitura cênica precisa, em que cada plano e cada fala importam. A sobrevivência, para o protagonista de A Única Chance, depende da aniquilação do outro.

Essa ideia do outro como “ameaça”, tão presente também em Panahi e ­Kleber Mendonça Filho, aparece ainda em Na Linha de Frente, um thriller que coloca em cena terroristas islâmicos, e Belém, que reconta a história de uma mulher presa por ter, supostamente, cometido um aborto em um hospital. Estamos, enfim, numa temporada pré-Oscar com as janelas abertas para o mundo. •

Publicado na edição n° 1396 de CartaCapital, em 21 de janeiro de 2026.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘As batalhas mundo afora’

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