Política
Ayahuasca no marketplace
O chá movimenta um lucrativo mercado à margem da lei, mas a repressão parece alcançar apenas os povos indígenas
Rituais religiosos e xamânicos com ayahuasca, historicamente associados a práticas espirituais amazônicas, estão sendo apropriados pela indústria e transformados em mercadoria. Fábricas com métodos sofisticados, venda aberta na internet, propaganda massiva nas redes sociais e contrabando ao exterior em grandes volumes – inclusive em gel ou disfarçado de açaí. Segundo relatos apresentados em audiência pública do Ministério Público Federal no Acre, o que avança hoje não é a consciência, mas o comércio da bebida psicodélica, à margem da legalidade.
Lideranças indígenas, pesquisadores e integrantes do campo ayahuasqueiro afirmam que cadeias econômicas informais se estruturam sob o disfarce do uso ritualístico, deslocando a ayahuasca de seus contextos tradicionais para circuitos de mercado e explorando lacunas regulatórias. Enquanto entidades religiosas operam com respaldo jurídico para produzir e distribuir a bebida em larga escala, povos indígenas amazônicos são alvo de apreensões, retenções em aeroportos e processos ao transportar a mesma substância produzida de forma tradicional.
Presidente da Federação dos Povos Huni Kuin do Acre (Fephac), o cacique Ninawá Huni Kuin lamenta a falta de distinção, pelas autoridades, entre transporte para fins ritualísticos ou comerciais. “Um líder espiritual indígena não transporta toneladas de ayahuasca para cerimônia”, protesta. Para o advogado Alexandre Giacomo, assessor jurídico da Fephac, a produção industrial fora dos territórios indígenas rompe com o sentido ancestral da prática religiosa, violando direitos garantidos pela Constituição e pela Convenção 169 da OIT. “Não é apenas desrespeito cultural, é violência neocolonial juridicamente ilícita.”
MPF do Acre alerta para a fabricação em escala industrial da bebida usada em rituais religiosos
Giacomo acrescenta que a Resolução nº 1, de 25 de janeiro de 2010, do Conselho Nacional de Políticas sobre Drogas (Conad), que autoriza o uso ritual da ayahuasca, foi elaborada sem a participação indígena e acabou por legitimar práticas comerciais. “O enquadramento religioso capturou uma tecnologia ancestral e a transformou em privilégio institucional. O resultado é a conversão de um patrimônio biocultural indígena em mercado espiritual.”
Um dos relatos mais contundentes na audiência pública veio do jornalista Altino Machado, que acompanha o universo ayahuasqueiro no Acre há mais de 40 anos. Frequentador do Alto Santo desde 1983, ele avalia que a luta pelo reconhecimento ritual abriu espaço para desvios perigosos. “Aplainamos uma pista para comerciantes e traficantes da substância. Se a ayahuasca está em Tóquio, é porque alguém a leva.”
Machado alerta para um vídeo de um centro xamânico no interior de São Paulo que mostra uma fábrica automatizada, com máquinas e tubulações interligadas. “Aquilo não é nixi pae (ayahuasca para o povo Huni Kuin), nem (Santo) Daime. É uma substância feita para comércio.” Ele estima que há pelo menos três fábricas em operação no País, e um dos centros do Acre seria hoje um dos maiores clientes da Gollog, braço de logística e transporte de cargas da Gol Linhas Aéreas. Os anúncios, que circulam livremente nas redes, revelam a exploração predatória das plantas. “Entram no mato, tiram cipós e folhas e os vendem.”
À reportagem, Machado acrescenta que o comércio internacional e a produção industrial integram um circuito de turismo religioso e xamânico desconectado das tradições originais, com riscos à saúde. “Muitos adoecem por causa da mistura de ayahuasca com outras substâncias.”
A expansão da circulação da ayahuasca esbarra em limites legais, observa o advogado Konstantin Gerber. A comercialização pela internet pode configurar tráfico de drogas. “A regra é a autossustentabilidade do cultivo e cooperação pontual para o preparo.” Fluxos regulares descaracterizam o uso ritual e expõem a bebida à atuação da Polícia Federal.
Alvo errado. O cacique Ninawá Huni Kuin cobra discernimento das autoridades na fiscalização – Imagem: Pablo Blazquez Domingues/Getty Images/AFP
Na Europa, a circulação ocorre em contexto de clandestinidade e insegurança jurídica. Vivendo na Bélgica há quase duas décadas, Enilda Carvalho relata que a bebida é enviada por malas despachadas, fracionada entre passageiros ou com declarações falsas. “Hoje, o controle é rigoroso. Aqui é proibido mesmo.” A bebida é vendida a cerca de 400 euros o litro (aproximadamente, 2,5 mil reais). “É um comércio lucrativo.”
Na França, segundo Claude Bauchet, dirigente do Centro Livre do Céu de Paris, que segue a linha do Santo Daime, praticamente todas as igrejas que utilizam ayahuasca operam na clandestinidade. Absolvido de um processo em 2005, ele viu a bebida ser proibida meses depois por decisão administrativa. “Não foi questão de saúde pública, mas oposição à prática religiosa.”
No plano internacional, o avanço da criminalização da ayahuasca ocorre em meio a um quadro jurídico instável e desigual, avalia Jesús Alonso Olamendi, advogado do Ayahuasca Defense Fund (ADF), programa do International Center for Ethnobotanical Education, Research and Service (Iceers) dedicado à defesa legal de práticas envolvendo a planta. Embora países como a Espanha distingam DMT sintética – substância psicodélica sujeita a controle internacional – da DMT de origem natural presente na ayahuasca, a tendência dominante na Europa é de equipará-las. “Do ponto de vista legal e farmacológico, isto é um erro. Ignora orientações internacionais e desconsidera a especificidade cultural e botânica das plantas.”
O endurecimento recente está ligado a políticas globais de segurança que reforçam a criminalização do uso de substâncias psicoativas, mesmo sem base científica. Práticas rituais acabam sendo tratadas como narcotráfico, sobretudo por autoridades pouco familiarizadas com os usos tradicionais. O resultado tem sido um aumento de apreensões, detenções e processos, especialmente no Leste Europeu.
“A ayahuasca chegou ao mundo inteiro”, diz Jesús Olamendi, defensor de uma regulação que proteja os indígenas
A circulação internacional ocorre de forma limitada e majoritariamente aérea, mas envolve riscos elevados, sobretudo para lideranças indígenas, que enfrentam processos judiciais, prisão preventiva ou deportação. “Isso impacta tanto quem viaja quanto as comunidades que ficam sem suas lideranças”, observa Olamendi.
Desde sua criação, há cerca de dez anos, o ADF documentou e prestou apoio em cerca de 500 casos envolvendo plantas da farmacopeia indígena americana, em 47 países. Embora nem todos tenham bons resultados em processos formais, os dados evidenciam a amplitude global da circulação da ayahuasca e padrões recorrentes de criminalização e vulnerabilidade jurídica.
O tema será um dos eixos do Fórum Mundial da Ayahuasca, previsto para setembro em Girona, na Espanha. Organizado pelo Iceers em parceria com o Instituto Yorenka Tasorentsi, do Acre, o encontro reunirá povos indígenas, pesquisadores, juristas e representantes institucionais para discutir regulação, circulação internacional, proteção dos conhecimentos tradicionais e impactos ambientais e culturais da expansão global da bebida.
“Sem políticas públicas que reconheçam os povos indígenas como detentores centrais desses conhecimentos, qualquer regulação corre o risco de aprofundar desigualdades”, afirma Olamendi. Em vez de proteção cultural e ambiental, alerta, o vácuo regulatório favorece mercados informais, repressão seletiva e novos ciclos de apropriação. O debate é urgente: “A ayahuasca chegou ao mundo inteiro.” •
Publicado na edição n° 1396 de CartaCapital, em 21 de janeiro de 2026.
Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Ayahuasca no marketplace’
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