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Com futuro político em risco, líder da extrema-direita francesa Marine Le Pen volta a enfrentar a Justiça
Condenada a cinco anos de inelegibilidade por desvio de recursos públicos, ela volta aos tribunais para julgamento de recurso
Um julgamento em grau de recurso, com pesadas consequências políticas para Marine Le Pen, começa nesta terça-feira 13, em Paris, um ano após a condenação da líder da extrema-direita francesa a cinco anos de inelegibilidade por desvio de recursos públicos. A sanção, por ora, a impede de concorrer à presidência da França em 2027.
Amplamente debatida e até criticada, inclusive fora de seu próprio campo político, a execução da decisão tomada em primeira instância representou um revés significativo para Marine Le Pen, figura emblemática da extrema-direita europeia.
Impulsionado por resultados expressivos nas últimas eleições europeias e legislativas, que lhe permitiram eleger 120 deputados para a Assembleia Nacional, bem posicionado nas pesquisas de intenção de voto para as eleições municipais de março e, sobretudo, para a eleição presidencial do próximo ano, seu partido Reunião Nacional (RN) nunca esteve tão próximo do poder na França.
A confirmação da sentença proferida em um caso envolvendo assistentes parlamentares da Frente Nacional, antigo nome do RN, pode, no entanto, obrigar a deputada, de 57 anos, a ceder seu lugar ao presidente do partido, Jordan Bardella, de 30 anos, na disputa pela Presidência da República.
Conheça o caso
Em março do ano passado, um tribunal de Paris considerou Marine Le Pen e outros oito ex-deputados europeus do RN culpados de terem desviado mais de € 4 milhões; o partido e cerca de uma dúzia de assistentes parlamentares também foram considerados culpados por terem recebido indevidamente esse montante.
Em causa está o uso, entre 2004 e 2016, por Marine Le Pen e outros dirigentes do RN, de fundos do Parlamento Europeu para remunerar pessoas que, na realidade, trabalhavam para o partido.
Os juízes justificaram a decisão de tornar a execução da pena imediatamente efetiva pela necessidade de “evitar um prejuízo irreparável à ordem pública democrática”.
Marine Le Pen considera legítima a utilização dos recursos e acusa os magistrados de puni-la por razões políticas, posição que remete às recentes críticas de personalidades políticas americanas ao sistema judicial.
O que será julgado?
Le Pen recorreu da decisão judicial, assim como o Reunião Nacional (RN) e outras dez pessoas.
Assim como na primeira instância, ela vai a julgamento por desvio de recursos públicos e cumplicidade em desvio de recursos públicos. O tribunal, porém, considerou que ela estava “no coração desse sistema”: “Marine Le Pen se inseriu com autoridade e determinação no funcionamento instaurado por seu pai, do qual participava desde 2004”, informa o processo.
“O caso será reavaliado do zero; espero poder convencer os magistrados da minha inocência”, declarou ela nesta segunda-feira 12, quando participou da recepção de Ano-Novo de Jordan Bardella para a imprensa.
Questionada sobre sua estratégia para este novo julgamento, Marine Le Pen afirmou querer “dizer a verdade, como fiz em primeira instância, esperando ser melhor ouvida em grau de recurso”.
Condenação
Em primeira instância, Marine Le Pen não recebeu a pena máxima prevista, que é de dez anos de prisão e € 1 milhão de multa. Em grau de recurso, esse teto permanece o mesmo, e a Corte de Apelação de Paris pode decidir aplicá-lo ao final deste segundo julgamento.
A decisão proferida em recurso só será definitiva após o esgotamento de todas as vias recursais. Marine Le Pen ainda poderá recorrer à Corte de Cassação. Enquanto a mais alta instância judicial francesa não examinar o recurso, a pena não será definitiva.
Decisão antes do verão europeu
Previsto para durar até 12 de fevereiro, com uma decisão esperada antes do verão europeu, o julgamento poderá atrair a atenção da administração de Donald Trump, que manifestou apoio a Marine Le Pen após a primeira sentença.
No ano passado, autoridades do governo americano chegaram a considerar sanções contra magistrados franceses envolvidos na condenação da deputada, segundo quatro fontes ouvidas pela Reuters.
A informação, inicialmente publicada pela revista alemã Der Spiegel, foi classificada como “falsa” na rede X pela subsecretária de Estado Sarah B. Rogers.
Um porta-voz do Departamento de Estado afirmou, no entanto, que “Não comenta antecipadamente eventuais ações”.
Pouco expansivos sobre o tema, dirigentes do RN continuam a esperar que a presidente do grupo do partido na Assembleia Nacional seja sua candidata à Presidência da República pela quarta vez. Caso contrário, Jordan Bardella a substituirá.
“Se, infelizmente, isso vier a acontecer, será uma campanha completamente diferente. Não terá a mesma energia… uma mudança de geração. Mas Bardella não se afastaria do programa”, disse à Reuters, sob condição de anonimato, um deputado próximo a Marine Le Pen.
O entorno de Jordan Bardella se mantém pronto. “Não faço prognósticos. A vantagem é que eles se preparam juntos; isso não muda a campanha do ponto de vista político”, afirmou à Reuters, também sob anonimato, um assessor do eurodeputado.
“Mesmo que ela seja inelegível, Marine Le Pen fará campanha; ela não fará como Alain Juppé e irá para Montreal”, acrescentou, em referência ao ex-primeiro-ministro que se exilou por algum tempo no Canadá após sua condenação em grau de recurso, em 2004, no caso de empregos fictícios do partido RPR.
Para o analista político Stewart Chau, diretor de estudos da Verian, “os franceses já viraram a página Marine Le Pen”.
“Uma parcela crescente considera que Jordan Bardella será o candidato do RN em 2027”, afirmou à Reuters. “As intenções de voto lhe são favoráveis, ele está no centro da cena, e os eleitores assimilaram essa dinâmica.”
Na segunda-feira, Jordan Bardella expressou seu “apoio total e sua amizade” a Marine Le Pen. “Ela demonstrará sua inocência”, assegurou, acrescentando que “esse processo não paralisará o tempo político”.
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