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Irã está preparado para guerra e negociações, diz chanceler do país após ameaças de Trump

Em meio a protestos no país do Oriente Médio, Donald Trump sobe o tom em ameaças

Irã está preparado para guerra e negociações, diz chanceler do país após ameaças de Trump
Irã está preparado para guerra e negociações, diz chanceler do país após ameaças de Trump
Forças de segurança atuam durante protesto de cidadãos iranianos em Londres – foto: Carlos Jasso/AFP
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O Irã está preparado para a guerra e para negociações, declarou nesta segunda-feira 12 o ministro iraniano das Relações Exteriores, Abbas Araghchi, após as ameaças de intervenção militar feitas no domingo 11 pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que prometeu agir diante da violenta repressão aos protestos.

“A República Islâmica do Irã não busca a guerra, mas está totalmente preparada para a guerra”, afirmou o chefe da diplomacia durante uma conferência com embaixadores estrangeiros em Teerã, transmitida pela TV estatal. “Também estamos prontos para negociações, mas elas devem ser justas, com direitos iguais e baseadas no respeito mútuo”, acrescentou.

Segundo o porta-voz do ministério iraniano das Relações Exteriores, Esmail Baghai, um canal de comunicação está “aberto” entre o país e o emissário americano para o Oriente Médio, em referência a Steve Witkoff, apesar da ausência de relações diplomáticas entre os dois países inimigos. A declaração foi transmitida nesta segunda pela TV estatal.

“Mensagens serão trocadas sempre que necessário”, disse o porta-voz. Segundo ele, os interesses americanos no Irã serão representados pela embaixada da Suíça, devido à ausência de relações diplomáticas entre Washington e Teerã, rompidas em 1980.

Em uma publicação em persa na plataforma X, o guia supremo iraniano, Ali Khamenei, desafiou Trump.

“Que aquele que está sentado ali com arrogância e orgulho, julgando o mundo inteiro, saiba que os tiranos e arrogantes deste mundo, como o faraó, Nimrod, Reza Khan, Mohammad Reza e outros, foram derrubados quando estavam no auge de seu orgulho — e ele também será derrubado”, escreveu Khamenei.

“O Irã ligou, eles querem negociar”, afirmou Trump a jornalistas a bordo do avião presidencial Air Force One. “Poderíamos nos encontrar”, acrescentou. “Uma reunião está sendo organizada, mas poderemos ser levados a agir antes da reunião diante da situação.”

Em declaração feita no domingo 11, Trump disse não se opor a “opções fortes”, que podem incluir intervenção militar no Irã, diante da repressão violenta do regime de Teerã às manifestações que atingem o país desde o fim de dezembro. O presidente dos EUA ameaçou várias vezes, nos últimos dias, oferecer ajuda aos manifestantes caso a repressão por parte de Teerã fosse muito “brutal”.

Trump pode se reunir na terça-feira com seus principais conselheiros para discutir opções em relação ao Irã. Segundo o Wall Street Journal, foram citados ataques militares, o uso de armas cibernéticas, o reforço das sanções e apoio on-line a fontes antigovernamentais. “O Exército está examinando a questão, e estamos estudando opções muito fortes”, declarou.

No domingo, o Irã ameaçou Israel e bases americanas no Oriente Médio com represálias caso os EUA interviessem contra a República Islâmica. O presidente do Parlamento iraniano, Mohammad Bagher Ghalibaf, afirmou que o Irã responderia a qualquer ataque americano atingindo bases militares e o transporte marítimo dos EUA.

China se opõe a interferência estrangeira

“Nós sempre nos opomos à interferência nos assuntos internos de outros países”, declarou a porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da China, Mao Ning, questionada sobre as declarações de Trump.

“A China espera que o governo e o povo iranianos superem as dificuldades atuais e mantenham a estabilidade do país”, disse ela, pedindo que “todas as partes trabalhem mais em prol da paz e da estabilidade no Oriente Médio”.

Onda de protestos

As manifestações no Irã, iniciadas em 28 de dezembro por comerciantes do bazar de Teerã que protestavam contra a inflação e a queda do rial, se espalharam para diversas cidades do interior. O ministro das Relações Exteriores do Irã, Abbas Araghchi, afirmou nesta segunda que a situação está “sob controle”. Ele acrescentou que a internet, cortada desde quinta-feira, seria restabelecida em coordenação com as forças de segurança.

O governo iraniano decretou neste domingo três dias de luto nacional para homenagear a memória dos “mártires” da “resistência” e convocou manifestações de apoio à República Islâmica nesta segunda. O presidente Massoud Pezeshkian pediu à população que participe dos atos em todo o país para denunciar as violências cometidas, segundo ele, por “criminosos terroristas urbanos”.

A TV estatal iraniana exibiu nesta segunda imagens ao vivo de uma grande multidão participando dos funerais de integrantes das forças de segurança mortos em Shahroud, assim como imagens de manifestações pró-governo organizadas em diferentes cidades, como Kerman, Zahedan e Birjand. O Irã acusa os Estados Unidos e Israel de fomentarem os protestos.

Segundo a ONG Hrana, com sede nos Estados Unidos, o número de vítimas nos protestos no Irã é de cerca de 580 pessoas, incluindo mais de 50 integrantes das forças de segurança. A mesma organização relata 10 mil prisões feitas pelas autoridades iranianas.

A onda de protestos cresceu e representa um dos maiores desafios para a República Islâmica desde sua fundação, em 1979. O filho do último xá do Irã e figura da oposição em exílio nos EUA, Reza Pahlavi, pediu nas redes sociais que as forças armadas e de segurança “fiquem ao lado do povo”.

No domingo, um vídeo compartilhado mostrou novamente manifestantes reunidos no bairro de Pounak, em Teerã, gritando slogans favoráveis à monarquia derrubada. Imagens publicadas nas redes sociais — provavelmente captadas por satélite — mostravam grandes multidões marchando da noite de sábado para domingo em várias cidades iranianas, especialmente na capital, Teerã, e em Machhad, no leste do país.

Em outro vídeo autenticado pela AFP, são vistos dezenas de corpos envoltos em sacos pretos diante de um necrotério da capital, e pessoas que parecem procurar parentes desaparecidos. O Centro pelos Direitos Humanos no Irã (CHRI), sediado em Nova York, afirmou que os hospitais estavam “sobrecarregados” de feridos e que as reservas de sangue estavam diminuindo.

Manifestações de solidariedade reuniram milhares de pessoas no domingo em Paris, Londres e Viena. Em Istambul, a polícia turca bloqueou manifestantes diante do consulado iraniano. A economia do Irã está enfraquecida após a guerra com Israel em junho e pelas sanções ligadas ao programa nuclear, restabelecidas pela ONU em setembro.

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