Do Micro Ao Macro

A crise do propósito: especialista explica o que a Geração Z revela sobre saúde mental nas empresas

Propósito aparece como fator central para a saúde mental no trabalho após pesquisa mostrar que 81% da Geração Z já deixou empregos por esse motivo

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A entrada da Geração Z no mercado de trabalho tem exposto tensões antigas nas empresas. Modelos baseados em metas desconectadas de propósito, pressão constante e competição interna passaram a ser questionados com mais frequência.

Dados do Panorama de Saúde Mental no Mercado de Trabalho Brasileiro, divulgado pela Gupy, mostram que 81% dos profissionais da Geração Z já pediram demissão por motivos ligados à saúde mental. O levantamento também aponta que 72% priorizam propósito e ética acima do salário.

Esses números costumam ser interpretados como sinal de baixa resiliência. Especialistas, porém, indicam outra leitura. O movimento revela uma mudança estrutural na relação entre trabalho, identidade e saúde mental.

Para o médico-psicanalista André Fusco, consultor em saúde mental no trabalho e especialista em Ergonomia Mental, a Geração Z não rejeita o esforço. O que está em questão é o sofrimento que não produz propósito.

Segundo ele, o trabalho envolve desafios e frustrações. O adoecimento surge quando esse esforço não gera sentido, desenvolvimento ou contribuição percebida.

Um padrão histórico que se repete

De acordo com Fusco, a reação crítica à Geração Z segue um roteiro conhecido. Ele lembra o que ocorreu com as LER e os DORT nas décadas de 1980 e 1990, quando o adoecimento foi inicialmente atribuído aos trabalhadores.

Com o tempo, estudos estabeleceram a relação entre condições de trabalho e doença. A partir disso, mudanças estruturais passaram a ser adotadas, como a ergonomia nos postos de trabalho.

Na avaliação do especialista, a discussão atual sobre saúde mental percorre caminho semelhante. O foco recai sobre o indivíduo ou sobre gestores, enquanto regras, metas e sistemas de avaliação permanecem pouco questionados.

Propósito como critério de saúde

Os dados da Gupy indicam que propósito não ocupa posição periférica para a Geração Z. Para Fusco, isso reflete a forma como o trabalho organiza a identidade adulta.

Desde cedo, o discurso social associa trabalho a quem a pessoa é. Quando essa dimensão perde propósito, a identidade profissional se fragiliza, o que amplia o risco de adoecimento.

O especialista observa que essa geração cresceu em meio a crises ambientais, sociais e econômicas, além de um fluxo intenso de informações. Esse contexto contribui para maior intolerância a incoerências entre discurso e prática nas organizações.

Ele também faz uma ressalva. Em um país desigual como o Brasil, nem todos têm margem de escolha. Para muitas pessoas, o trabalho segue sendo apenas sustento, o que amplia a responsabilidade das empresas na forma como estruturam suas relações de trabalho.

Ergonomia Mental e regras do trabalho

Como resposta, Fusco defende a adoção da Ergonomia Mental, abordagem que desloca o foco do comportamento individual para a organização do trabalho.

Segundo ele, iniciativas voltadas apenas à adaptação das pessoas, como treinamentos de resiliência ou mindfulness, ajudam de forma limitada. Elas não enfrentam a origem do sofrimento quando metas, avaliações e modelos de reconhecimento permanecem inalterados.

A proposta envolve revisar sistemas de avaliação, formas de liderança, distribuição de tarefas e critérios de reconhecimento. Ambientes que estimulam competição excessiva e medo tendem a produzir adoecimento previsível.

Na prática, isso inclui metas coletivas, ampliação de espaços de escuta e reconhecimento do trabalho realizado. Quando o esforço se conecta a propósito, os efeitos aparecem em menor rotatividade, menos afastamentos e maior consistência nos resultados.

Um sinal para o futuro do trabalho

Para Fusco, a Geração Z não criou a crise de saúde mental nas empresas. Ela tornou o problema mais visível ao recusar sua naturalização.

O debate em torno do propósito indica que insistir em modelos baseados na adaptação ao sofrimento tende a gerar perdas humanas e organizacionais. Repensar regras do trabalho passa a ser uma resposta necessária para empresas que buscam ambientes mais estáveis, produtivos e sustentáveis.

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