Paulo Nogueira Batista Jr.

paulonogueira@cartacapital.com.br

Economista. Foi vice-presidente do Novo Banco de Desenvolvimento, estabelecido pelos BRICS em Xangai, e diretor-executivo no FMI pelo Brasil e mais dez países

Opinião

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Risco existencial

O ataque dos EUA à Venezuela deixa escancarado o perigo que correm o Brasil e outros países

Risco existencial
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Por que será que nenhuma potência estrangeira tentou invadir a Coreia do Norte de Kim Jong-un? – Imagem: KCNA/KNS/AFP
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Os Estados Unidos são os primeiros a passar da barbárie à decadência sem conhecer a civilização”, disse Georges Clemenceau, primeiro-ministro francês. O recente ataque à Venezuela deixa escancarado o risco que correm o Brasil e outros países. Prevalece a lei da selva. A superpotência imperial mostra-se plenamente disposta a usar a força militar para avançar seus interesses. O Hemisfério Ocidental inteiro, da Groenlândia à Patagônia, passou a ser visto, abertamente, sem disfarces, como “quintal” dos EUA.

Em 2019, publiquei um livro com o título O Brasil Não Cabe no Quintal de Ninguém. De fato, o nosso país é um dos maiores do mundo em termos geográficos, populacionais e econômicos. Mas repare bem, leitor ou leitora, na escolha das palavras. Escrevi: “de fato”. Esses fatos objetivos – território, demografia e PIB – não são suficientes. Falta-nos uma dimensão crucial da soberania: a convicção por parte dos brasileiros de que temos a obrigação de nos comportarmos à altura das dimensões do Brasil, o que inclui, por suposto, a disposição de resistir com energia a qualquer ameaça ou incursão vinda do exterior. E pior: faltam-nos camadas dirigentes ligadas visceralmente ao País. A verdade é que, embora o Brasil não caiba no quintal de ninguém, grande parte da elite brasileira cabe no quintal de qualquer um.

Alguma dúvida? Basta lembrar um fato recente desprimoroso: todos os possíveis candidatos da direita à Presidência da República em 2026 declararam apoio à intervenção dos EUA na Venezuela e à captura de Maduro – todos, de Tarcísio de Freitas a Flávio Bolsonaro, passando por Ratinho Jr., Ronaldo Caiado e Romeu Zema. Foi mais uma demonstração de que são candidatos não a presidente, mas a vassalos de Trump. Versões tupiniquins de Javier Milei. E só isso basta para que consideremos a eleição de 2026 a mais importante, a mais vital de toda a nossa história.

O Brasil é não só imenso, mas também dono de vastos e valiosos recursos naturais de todo tipo. Um país como este é sempre alvo de cobiça estrangeira. Forças externas, especialmente dos EUA, tudo farão para garantir fácil acesso a esses recursos.

Com o sequestro de Maduro e a exigência do presidente Trump de “acesso integral” ao petróleo e outros recursos do país, sob pena de novos ataques, ninguém mais pode, em sã consciência, ignorar que o Brasil corre risco. Um risco sem precedentes. Não somos o alvo imediato dos EUA, é verdade, não encabeçamos a fila dos próximos a serem agredidos. Outros parecem estar na nossa frente – Colômbia, Cuba, Groenlândia, Irã. Mas a casa de um vizinho está em chamas, e o incendiário é altamente periculoso.

Fora os integrantes da poderosa quinta-coluna, alguém ainda se anima a negar que o Brasil precisa se preparar militarmente? Vou mais longe: há dúvida de que essa preparação tem de incluir armamento nuclear? Há muito tempo figuro entre a minoria de brasileiros que defende prioridade para o reforço substancial do aparato de defesa nacional. Precisamos ser militarmente capazes, não de derrotar uma superpotência como os EUA ou qualquer outra, mas de sinalizar de forma crível que qualquer ataque terá como resposta a imposição de perdas expressivas ao país agressor.

Entender essa distinção é crucial – temos que dispor de poder de dissuasão, inclusive atômico. Acumular capacidade de dissuadir um ataque está a nosso alcance. Uma vitória sobre uma superpotência, não.

Nossa fragilidade militar é notória. precisamos dispor de poder de dissuasão, inclusive atômico

Nesse ponto, as lições da história recente são claras e cristalinas, como raramente são. Vejamos. A Líbia foi atacada e destruída. Tinha bomba atômica? Não. O mesmo se pode dizer da Síria, outro país nuclearmente desarmado. O mesmo do Iraque, o mesmo do Afeganistão. A Venezuela é o exemplo mais recente. Por outro lado, a Coreia do Norte, que conta com armas nucleares e mísseis de longo alcance, foi atacada alguma vez? Não.

É preciso dizer mais?

A nossa vulnerabilidade militar tornou-se um risco existencial. Precisamos, urgentemente, de uma revisão completa da política de defesa externa. É caro? Sim. Haverá “espaço fiscal”? Temos que abrir esse espaço à força – se é que pretendemos, de fato, viver como nação independente. Sem bravatas e sem demagogia, o Brasil deve também aprofundar a cooperação militar com a China e a Rússia.

Não ignoro nem subestimo as barreiras que terão de ser superadas para colocar uma política vigorosa de defesa em marcha. Uma delas é de natureza histórica. A verdade é que o brasileiro está muito mal-acostumado. Desde 1864, durante a Guerra do Paraguai, o território nacional nunca foi objeto de ataque. Compare-se com a experiência da China e da Rússia, países vitimados por repetidas invasões estrangeiras em grande escala. Chineses e russos estão preparados. Para nós, o desafio atual é totalmente novo. Mas temos que enfrentá-lo sem demora.

Como o Brasil não é alvo imediato, precisamos tirar partido do tempo que ainda temos, talvez apertado, para construir um poder de dissuasão apreciável e assim superar, ou pelo menos mitigar, a nossa vulnerabilidade militar.

No caso brasileiro, a primeira tentativa do governo Trump será interferir, provavelmente de forma intensa, nas eleições presidenciais de 2026. Eleger um fantoche é o caminho mais rápido e eficaz para dominar o Brasil. Seria uma vitória facílima, sem tiros. Mais uma razão para cerrarmos fileira em defesa da reeleição de Lula.

Caso sejamos bem-sucedidos, o jogo mudará de 2027 em diante. Virão as ameaças e as medidas unilaterais visando alcançar a rendição do Brasil. Em caso de resistência nossa, não se pode descartar a agressão militar ou ameaças pesadas de agressão.

Toda atenção é pouca. Os EUA têm uma longa tradição imperial, intervencionista e belicosa. Atualmente, são uma superpotência em declínio e inconformada com a perda de poder relativo. Nada mais perigoso. Para nós e outros povos, the writing is on the wall, como dizem os próprios norte-americanos.  •

Publicado na edição n° 1395 de CartaCapital, em 14 de janeiro de 2026.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Risco existencial’

Este texto não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.

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