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Rede que acolhe, protege e muda vidas
Duas décadas depois, o SUAS consolida a assistência social como direito, estrutura a presença do Estado e acompanha famílias durante e após a vulnerabilidade
O enfrentamento à pobreza no Brasil ensinou, com o tempo, que as políticas mais eficazes são aquelas capazes de acompanhar a vida como ela é, marcada por instabilidades, rupturas e recomposições constantes.
A assistência social entrou nesse campo ao organizar uma rede pública que atua no território, identifica vulnerabilidades e sustenta trajetórias antes que a exclusão se torne permanente. Ao longo de vinte anos, o Sistema Único de Assistência Social (SUAS) foi desenhando essa presença, transformando a proteção social em política pública estruturada e acessível em todos os municípios do país.
Presente em todos os municípios do país, o SUAS firmou a assistência social como direito, não como favor, nem como caridade, mas como responsabilidade do Estado diante das múltiplas formas de vulnerabilidade que insistem em rondar a vida das famílias brasileiras.
Sistema que organizou a proteção social
Instituído a partir da Lei Orgânica da Assistência Social em 2005, o SUAS criou um modelo nacional de gestão descentralizada e participativa. União, Estados, Distrito Federal e municípios compartilham as responsabilidades, recursos e decisões, garantindo que a política chegue ao território com padrão público, financiamento regular e controle social.
O desenho permitiu organizar a assistência social em dois grandes eixos. O primeiro, da Proteção Social Básica, atua de forma preventiva, fortalecendo famílias e comunidades para evitar o agravamento das vulnerabilidades.
Já a Proteção Social Especial atende situações em que os direitos já foram violados, como casos de violência, abandono, exploração, uso abusivo de álcool e drogas ou rompimento de vínculos familiares.
Ao integrar serviços, programas, projetos e benefícios, o sistema construiu uma resposta contínua, capaz de acompanhar pessoas e famílias ao longo do tempo, respeitando suas singularidades e contextos.
Onde o Estado encontra o cidadão
A presença do SUAS se materializa em uma ampla rede de unidades públicas espalhadas pelo país. Os Centros de Referência de Assistência Social (CRAS) funcionam como porta de entrada, acolhendo famílias em vulnerabilidade e articulando serviços de convivência, acompanhamento familiar e acesso a direitos.
Quando a violação já ocorreu, entram em cena os Centros de Referência Especializados de Assistência Social (CREAS), os Centros POP, voltados à população em situação de rua, os Centros-Dia para pessoas com deficiência e suas famílias, além das diversas modalidades de acolhimento institucional, como casas-lar, abrigos e residências inclusivas.
O acesso pode acontecer por iniciativa própria, por encaminhamento de outras políticas públicas ou por meio da busca ativa, quando as equipes vão até onde a vulnerabilidade está. O atendimento deixa de depender da espera e passa a se organizar a partir do território e de suas urgências.
Serviços acompanham as fases da vida
O SUAS atua a partir das situações concretas que atravessam o cotidiano das famílias. Desemprego, envelhecimento, deficiência, violência, dependência química, desastres naturais ou rupturas familiares não são tratados como falhas individuais, mas como eventos que exigem proteção pública.
Programas e serviços como o fortalecimento de vínculos, a abordagem social, o atendimento especializado a famílias e indivíduos, o apoio à população em situação de rua, as medidas socioeducativas e as respostas em contextos de calamidade integram uma política que busca preservar laços, desenvolver autonomia e evitar que a exclusão se torne permanente.
Quando necessário, o SUAS atua de forma articulada com outras políticas públicas, encaminhando para saúde, educação, trabalho, habitação ou sistema de justiça, reconhecendo que a superação das vulnerabilidades exige respostas integradas.

Imagem: Lyon Santos/MDS
Segurança de renda
Além dos serviços, a assistência social opera um conjunto de benefícios que asseguram proteção mínima a quem mais precisa. O Benefício de Prestação Continuada (BPC), previsto na Constituição, garante um salário mínimo mensal a pessoas idosas e a pessoas com deficiência que não possuem meios de prover sua subsistência.
Os Benefícios Eventuais oferecem apoio em situações como nascimento, morte, vulnerabilidades temporárias e calamidades públicas. O Auxílio-Inclusão cria condições para que pessoas com deficiência ingressem no mercado de trabalho sem perder imediatamente a proteção de renda. Já o Programa BPC na Escola articula assistência social, educação e saúde para assegurar acesso e permanência escolar de crianças e adolescentes beneficiários.
Esses instrumentos reforçam o caráter protetivo da política, combinando renda, acompanhamento e inclusão.
Informação e política pública
Por trás da capilaridade do SUAS está uma robusta estrutura de gestão da informação. A Rede SUAS funciona como o sistema nacional que registra, organiza e integra dados sobre unidades, profissionais, serviços, programas e benefícios.
Ferramentas de registro, termos de aceite para cofinanciamento federal e painéis de monitoramento permitem que gestores planejem ações, acompanhem resultados e identifiquem vazios de proteção. A informação deixa de ser burocracia e passa a orientar decisões, garantir transparência e fortalecer a coordenação federativa.
Engrenagem institucional do sistema
No nível federal, a Secretaria Nacional de Assistência Social, vinculada ao Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome, coordena a política nacional, define diretrizes, monitora a execução e realiza o repasse de recursos por meio do Fundo Nacional de Assistência Social.
As decisões são pactuadas na Comissão Intergestores Tripartite e acompanhadas pelo Conselho Nacional de Assistência Social, que assegura o controle social da política. Conferências nacionais, estaduais e municipais alimentam continuamente o sistema com demandas vindas do território, mantendo o SUAS conectado à realidade vivida pela população.
A articulação com gestores estaduais e municipais, conselhos, sistema de justiça, outras políticas públicas e organismos internacionais reforça o caráter transversal da assistência social.
Ao completar 20 anos, o SUAS é hoje uma das maiores redes públicas de assistência social da América Latina. Sua força vai além dos números e extensão territorial, está na capacidade de transformar vulnerabilidades em política pública continuada.
Ao longo de sua atuação no território, o SUAS transformou a assistência social em presença contínua do Estado na vida de quem enfrenta vulnerabilidades. Ao articular serviços, benefícios e acompanhamento, o sistema constrói proteção pública onde ela precisa existir, sustentando trajetórias e garantindo que a dignidade seja tratada como direito e não como concessão.