Elnara Negri

Livre-docente pela Faculdade de Medicina da USP e pneumologista do Núcleo Avançado de Tórax do Hospital Sírio-Libanês

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A utopia real

Na Serra da Capivara, no Piauí, Niede Guidon provou ser possível construir, a partir do sonho, uma realidade mais próspera

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O Brasil é maravilhoso. E, não fosse o país tão “subtraído em repetidas vultosas transações” de tantos falsos patriotas, com certeza a fome, a miséria e a violência já não seriam realidade entre nós. “Utopia”, responderiam aqueles que não acreditam no poder da delicadeza.

Thomas Morus, um dos maiores humanistas do Renascimento, escreveu, em 1516, A Utopia – essa palavra, derivada do latim, significa lugar inexistente. O livro era uma crítica à condução da Inglaterra da época. A miséria, a violência e a doença se espalhavam pela população, enquanto enormes somas eram gastas na promoção da guerra. A religião era usada de forma leviana para justificar injustiças tremendas. Qualquer semelhança com os tempos atuais não é mera coincidência.

Na ilha Utopia, as injustiças não existiam e as pessoas viviam num ambiente de harmonia e respeito. A prosperidade era consequência dessa vida em sintonia com a natureza e sem ganância. Um mundo perfeito e, portanto, utópico – um não lugar ou lugar inexistente.

Pois bem, no mês passado tive a oportunidade de conhecer a Serra da Capivara, obra de uma grande arqueóloga brasileira, a doutora Niede Guidon, falecida em junho de 2025 aos 92 anos, e vi a utopia se fazer realidade. Fica ali o maior museu a céu aberto de pinturas rupestres do mundo. São mais de mil sítios arqueológicos distribuídos em um imenso parque nacional no meio da caatinga.

A doutora Niede ouviu falar da Serra da Capivara no início dos anos 1970. Viu, à altura, algumas fotos levadas pelo então prefeito de Petrolina, que visitava uma exposição realizada por ela em São Paulo.

Muito interessada no que viu, ela organizou uma expedição ao local em 1964. Foi, porém, surpreendida pelo golpe militar e teve de se exilar na França. Doutora Niede só conseguiu chegar ao município de São Raimundo Nonato, em 1973, dirigindo uma caminhonete rural com mais três amigas.

A partir daí a história vai ficando cada vez mais linda. Ouvindo-a diretamente de Nestor, nosso guia no parque, que era menino quando Niede lá chegou, fui às lágrimas. Naquela época, para comer, tinha só farinha e rapadura. Às vezes, alguma caça que seu pai conseguia. Bebia água da chuva que ficava empoçada nas pedras, onde os animais também bebiam. Sofria de verminose e desnutrição.

Niede relatou: “Nos primeiros anos aqui, percebemos que a pobreza que reinava na região nunca ia permitir proteger o legado pré-histórico do parque. Uma pessoa com fome só pensa em como vai resolver o problema imediato”.

Niede mobilizou a população. Ia em lombo de jegue explorar a caatinga com o povo do lugar e foi descobrindo mais e mais sítios arqueológicos. Conseguiu recursos estaduais, federais e de outros países.

Construiu escolas que funcionavam em tempo integral, com alimentação. Ensinou as crianças a plantar, a colher e a cozinhar. Empoderou as mulheres, trouxe um professor de cerâmica, outro de apicultura – atividades que, atualmente, mantêm a comunidade próspera.

Niede também mudou a teoria da chegada do homem à América, publicou na Nature, criou o Parque Nacional da Serra da Capivara e fundou a Universidade Federal de Arqueologia em São Raimundo Nonato.

Nestor me contou que ela dizia a todos: “Não permitam que ninguém tire isso de vocês, isso é um tesouro, não existe nada no mundo assim, vocês têm de cuidar de tudo e cuidar uns dos outros”. E eles cuidam.

Ela fez o Museu do Homem Americano e depois o Museu da Natureza, onde se pode sobrevoar a região num simulador de realidade virtual que imita uma asa-delta. Tudo isso no meio da caatinga. Utopia.

Num lugar onde o feminicídio era corriqueiro, uma mulher ensinou o poder do respeito, da educação e da cultura. E tudo prospera. Não há luxo, mas há muita riqueza por toda a parte.

“Sempre digo que só fiz meu trabalho e agora vejo a região mudando rapidamente, crescendo com uma importante participação da população local”, repetiu, ao longo da vida, Niede Guidon.

“Os jovens cada vez migram menos porque aqui acham trabalho. As iniciativas privadas aumentam a cada dia, e as pessoas já não esperam que tudo venha do governo. As duas atividades que iniciamos na expectativa de um dia a região atingir o desenvolvimento, ou seja, o turismo e a apicultura, hoje caminham praticamente sozinhas e com sucesso. Ainda falta muito, mas me parece que o caminho é sem retorno. A Serra da Capivara está no mapa do mundo.”

Obrigada por nos presentear com esperança, querida doutora Niede. •

Publicado na edição n° 1392 de CartaCapital, em 17 de dezembro de 2025.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘A utopia real’

Este texto não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.

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