Educação

‘Deixar corpo no chão’: vídeo mostra rito com canto do BOPE em escola cívico-militar no Paraná

Atividade ocorreu sob comando de um PM que atua como monitor. A escola de Curitiba adotou o modelo em 2021 e atende 758 crianças e adolescentes

‘Deixar corpo no chão’: vídeo mostra rito com canto do BOPE em escola cívico-militar no Paraná
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Alunos do Colégio Estadual Cívico-Militar João Turin, em Curitiba (PR), foram filmados marchando e entoando versos de uma canção do BOPE que exalta violência e execuções, incluindo o trecho “entrar na favela e deixar corpo no chão”. A cena, conduzida por um policial militar responsável pela formação dos estudantes, ocorreu na tarde de sexta-feira 28, durante uma atividade interna de “civismo e disciplina”.

O colégio, que atende 758 alunos do Ensino Fundamental e Médio, com idades entre 11 e 18 anos, adotou o modelo cívico-militar em 2021.

Nas imagens, é possível ver que os estudantes estavam uniformizados na quadra da escola, sendo acompanhados por um policial que desempenha a função de monitor na unidade. Ele conduz a marcha e dita os versos, de tom violento, reproduzidos pelos alunos.

Homem de preto, o que é que você faz? / Eu faço coisas que assusta o satanás. / Homem de preto, qual é sua missão?/ Entrar na favela e deixar corpo no chão./ O Bope tem guerreiros que matam fogueteiros. /Com a faca entre os dentes, esfola eles inteiros./ Mata, esfola, usando sempre o seu fuzil”.

Assista:

A reportagem apurou que o policial em questão é o soldado Alvaro Regazzo, aprovado no processo seletivo para atuar como monitor da escola em 2020.

Para a APP-Sindicato, que representa os professores da rede estadual, o caso está longe de ser exceção. “Desde o início deste programa, temos recebido e denunciado ocorrências semelhantes e até piores em escolas cívico-militares”, afirma Walkiria Mazeto, presidente da entidade. Para ela, o episódio escancara os os riscos desse modelo. “É chocante ver a escola pública usada para promover uma doutrinação ideológica extremista, que prega o ódio, a violência, o massacre e o extermínio de comunidades periféricas. Isso reforça a nossa luta contra a militarização da educação.”

No ano passado, no Tocantins, outro vídeo ganhou repercussão nacional ao mostrar estudantes repetindo o comando de um militar: “Se eu não te matar, eu vou te prender”. Após a divulgação, o diretor e os militares envolvidos foram afastados.

Procuradas por CartaCapital, a Polícia Militar do Paraná e as secretarias estadual e municipal de Educação não se manifestaram até o fechamento desta reportagem. O espaço segue aberto.

Militarização em expansão

O caso da escola João Turin surge no momento em que o governo Ratinho Júnior (PSD) avança sobre uma nova etapa de expansão do modelo cívico-militar. No mês passado, a Assembleia Legislativa aprovou um projeto do Executivo que amplia o formato para escolas de ensino integral. Com a mudança, o Paraná terá 345 colégios cívico-militares a partir do próximo ano. Em Curitiba, duas novas unidades aderiram recentemente ao modelo: o Colégio Victor do Amaral e o Colégio Homero B. de Barros.

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