Diálogos da Fé
Blog dedicado à discussão de assuntos do momento sob a ótica de diferentes crenças e religiões
Diálogos da Fé
O exemplo do pastores Hamilton e Green
Em meio a tantos atos de fariseus, os evangélicos norte-americanos lembraram a todos dos compromissos cristãos
Fariseus (“separados”, “santos”, no hebraico) eram religiosos, segundo os relatos da Bíblia, que tinham grande influência como guardiões da lei religiosa, defensores dos valores morais da época.
Os fariseus foram os que mais criaram problemas para Jesus, pois criticavam-no por não cumprir os princípios e regras religiosas que defendiam.
Os Evangelhos narram como Jesus era mal visto por causa de sua origem em Nazaré, uma periferia da Palestina. Além disso, andava cercado por gente não considerada “de bem”: pobres pescadores, deficientes, mulheres, contestadores da ordem vigente.
Jesus chamou os fariseus de “guias cegos, que coam o mosquito e engolem o camelo”, de “serpentes, raça de víboras” e também de “sepulcros caiados”, que, por fora, parecem belos, mas por dentro são imundos, ou, “aqueles que querem aparentar justiça e correção, mas, por dentro, estão cheios de hipocrisia e de iniquidade”.
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Não à toa os fariseus estiveram entre aqueles que tramaram para Jesus ser preso, torturado e recebesse a pena de morte.
Um trecho do clássico hino evangélico, popularmente conhecido como “Glória, glória, aleluia!”, diz: “Da vaidade, fiéis servos lutam por fazer-nos seus / Muitas vezes nos assaltam os modernos fariseus…” Como não pensar nos “modernos fariseus” diante do quadro social e político que estamos enfrentando?
Como não identificar os ‘hipócritas e sepulcros caiados” de hoje, que dizem defender a fé cristã pensando apenas em sexo, enquanto a justiça e a misericórdia, princípios básicos do cristianismo, são negligenciadas?
Isto acontece quando líderes religiosos silenciam diante de situações que ameaçam a integridade e a dignidade da criação de Deus e também quando apoiam quem promove esta violência.
Mas há esperança. Há quem honre a fé cristã e siga os passos de Jesus, com vozes que clamam no deserto das políticas de violência e exclusão, atuando como verdadeiros cristãos e profetas. Podemos tomar um exemplo da segunda-feira passada, 29 de outubro.
Naquele dia, o procurador-geral dos EUA, Jeff Sessions, estava em um almoço organizado pela Sessão de Advogados da Sociedade Federalista de Boston. Sessions palestrava sobre “O Futuro da Liberdade Religiosa” quando o pastor Will Green, da Igreja Metodista Ballard Vale, Andover, se levantou e recitou o Evangelho em Mateus 25. 42-43: “Porque tive fome, e não me destes de comer; tive sede, e não me destes de beber; sendo forasteiro, não me hospedastes; estando nu, não me vestistes; achando-me enfermo e preso, não fostes ver-me”.
Em seguida, o pastor bradou: “Irmão Jeff, como um irmão metodista, chamo você ao arrependimento, para cuidar daqueles que estão em necessidade, para lembrar-lhe que quando você não cuida dos outros, você está ferindo o corpo de Cristo”.
O pastor metodista referia-se à cruel política de imigração nos EUA. O procurador Sessions havia supervisionado a prática de repressão “tolerância zero” a imigrantes na fronteira e viu centenas de famílias em busca de asilo serem separadas.
Sessions, irritado, disse: “Obrigado por estas afirmações e pelo ataque. Fazemos o nosso melhor todos os dias para cumprir minha responsabilidade de fazer cumprir as leis dos Estados Unidos”.
Enquanto o pastor Green era retirado do local pela polícia, participantes do evento gritavam para ele: “Vá embora”. Naquele momento, o pastor Derrel Hamilton, da Primeira Igreja Batista de Jamaica Plain, em Boston, defendeu Green e exortou o procurador e a audiência: “Este é alguém que representa a tradição cristã, uma fé que todos aqui professam acreditar. Ele estava realmente compartilhando as palavras do próprio Jesus.”
Hamilton também foi retirado pela polícia e protestou: “Pensei que estivéssemos aqui para proteger a liberdade religiosa. Sou um pastor da Igreja Batista e vocês estão me retirando por exercitar a liberdade religiosa. Isto não faz sentido. É muita hipocrisia deste grupo dizer que está protegendo a liberdade religiosa, enquanto me expulsam porque estou fazendo exatamente o que dizem defender”.
Procurado pela reportagem da Boston Magazine, Green disse ter se motivado pelo princípio metodista da “santidade social”. De acordo com as bases da Igreja Metodista, a fé em Cristo só tem sentido se for ao encontro de quem tem necessidade e assumir responsabilidade com estes.
Ele explicou que o texto que recitou é “um chamado para prestar contas, para abraçar a justiça social, que é algo que devemos levar muito, muito a sério como cristãos.”
O pastor metodista questionou a acusação de “ataque” ao procurador: “As palavras de Jesus às vezes parecem um ataque porque quando colocamos o Evangelho em nossos corações, ele nos desafia, nos convoca a mudar, nos faz reavaliar como estamos vivendo nossas vidas e tratando os outros. Eu creio que o Espírito Santo está trabalhando dentro do irmão Jeff. ”
Green espera que outros sejam inspirados pelo “convite para se envolverem, para se organizarem, para levantarem-se e falarem”.
Como diz o Evangelho: “Quem tiver ouvidos para ouvir, ouça.”
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