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O sabor da mudança
Da comida que alimenta o corpo à oportunidade que sustenta o amanhã, um retrato de como o prato cheio pode abrir caminhos de dignidade, renda e autonomia
Existe uma verdade simples, mas incontornável: ninguém aprende, trabalha ou sonha de estômago vazio. O ponto de partida para qualquer política pública no Brasil deveria ser o prato cheio. A fome é um bloqueio para todas as outras conquistas. Sem comida, não há estudo. Sem estudo, não há emprego. Sem renda, o ciclo se repete. Romper esse círculo pede decisão política, organização e compromisso.
Foi a partir desse entendimento que o Ceará instituiu o Ceará Sem Fome como política permanente de Estado. Amparado por lei, o programa reúne poder público, iniciativa privada e sociedade civil em torno do objetivo de alimentar, de forma saudável, a população em extrema pobreza e, ao mesmo tempo, abrir caminhos de autonomia por meio de trabalho, qualificação e empreendedorismo.
Frentes de atuação
A primeira frente é o Cartão Ceará Sem Fome. Hoje, 47.845 famílias, em todos os 184 municípios, recebem mensalmente R$ 300 para a compra de alimentos. O benefício é destinado a famílias inscritas no Bolsa Família, com renda por pessoa de até R$ 218, cadastro atualizado nos últimos 24 meses e, preferencialmente, chefiadas por mulheres com baixa escolaridade. O núcleo familiar deve ter ao menos uma criança ou adolescente de até 14 anos, e o benefício federal não pode estar suspenso.
O cartão é de uso exclusivo para alimentação, com preferência a produtos da agricultura familiar e ao comércio de bairro. Quase quatro mil estabelecimentos estão credenciados — inclusive cooperativas — fortalecendo a economia local. Entre os titulares, 95% são mulheres. Em 2024, mais de R$ 158 milhões circularam nos municípios por meio do cartão; em 2025, até julho, o volume já somava R$ 95 milhões, com previsão de R$ 165,9 milhões até dezembro.
A segunda frente é a Rede de Unidades Sociais Produtoras de Refeições (USPRs), as Cozinhas Ceará Sem Fome. São mais de 1.300 cozinhas ativas nos 184 municípios, com produção e entrega cinco dias por semana. A refeição — 500 gramas de alimento pronto, cerca de 450 calorias — é pensada para garantir regularidade e qualidade nutricional. Desde a inauguração da primeira unidade, em 4 de setembro de 2023, já foram distribuídas mais de 45 milhões de refeições. O investimento acumulado supera R$ 315,8 milhões e a meta é chegar a 1.500 cozinhas e 150 mil refeições diárias até o fim de 2025. As cozinhas são administradas por entidades selecionadas via editais públicos, com prestação de contas e acompanhamento contínuo.
A terceira frente é o +Qualificação e Renda. Eixo que oferece cursos gratuitos de 20 a 200 horas-aula em gastronomia, moda, tecnologia, beleza, prestação de serviços, administração e recursos naturais. As turmas ocorrem nos turnos da manhã, tarde e noite, em cozinhas do programa ou em espaços parceiros. Entre 2024 e junho de 2025, 14.291 pessoas foram qualificadas; a previsão para 2025 é formar 45.195, com uma rede de turmas e mentorias individuais voltadas tanto ao emprego formal quanto ao empreendedorismo.
As vagas e cronogramas são divulgados nas cozinhas, no site e nas redes do programa. Para quem já está pronto para trabalhar, o Instituto de Desenvolvimento do Trabalho (IDT) é o principal canal de intermediação de vagas. E, ao conseguir emprego, a família não perde o amparo: a Regra de Proteção do Bolsa Família mantém 50% do benefício por até 24 meses, evitando queda brusca de renda.
Além das fronteiras
O Ceará Sem Fome fortaleceu parcerias em Brasília e com organismos internacionais. Em julho de 2025, uma comitiva dialogou com ministérios, FAO e PNUD sobre cooperação técnica, integração de políticas e conexão com iniciativas globais, como a Aliança contra a Fome e a Pobreza, vinculada ao G20. Internamente, o Pacto por um Ceará Sem Fome já reúne 168 instituições — órgãos públicos, empresas e organizações sociais — comprometidas com o enfrentamento da insegurança alimentar.
A logística de doações é coordenada pela Unidade Central do Ceará Sem Fome, criada com edital permanente para credenciamento de entidades aptas a receber alimentos arrecadados. São 248 entidades credenciadas em 67 municípios e mais de 450 toneladas distribuídas desde 2023. Essa engrenagem permite que campanhas públicas e eventos resultem em abastecimento regular para regiões com maior demanda.
Resultados que chegam à mesa e à renda
Os indicadores sociais mostram avanço. Em 2024, 64,9% dos domicílios do Ceará tinham acesso a alimentação adequada, acima da média do Nordeste. No mercado de trabalho, mais de três mil beneficiários do programa conquistaram emprego formal em 2024. A política de compras com o cartão, voltada ao comércio local, também faz diferença: em 2024, o giro de recursos superou R$ 158 milhões no estado, irrigando pequenos negócios e encurtando a distância entre produção e consumo.
No plano nacional, o Brasil voltou a sair do Mapa da Fome da FAO com a média 2022/2023/2024 abaixo de 2,5% da população em risco de subnutrição, alimentado por políticas de transferência de renda, apoio à agricultura familiar, alimentação escolar e ações estaduais como as do Ceará.
Trabalho e empreendedorismo
Nos cursos de gastronomia, panificação, confeitaria e cozinheiro geral, o aprendizado nasce perto do fogo e vira renda rápida para quem já atua nas cozinhas do programa. Em moda, costura e modelagem, o caminho passa por encomendas locais e cooperativas. Na área de tecnologia, as formações em manutenção de celulares, montagem de computadores, redes e informática básica abrem portas em oficinas de bairro e pequenos escritórios. Em prestação de serviços, as trilhas de mecânica de motos, ar-condicionado e construção civil atendem a uma demanda constante das cidades.
Para quem decide empreender, a qualificação se soma a capacitações em gestão de pequenos negócios e ao acesso ao Ceará Credi, o programa de crédito produtivo orientado do Estado. A linha atende comércio, serviços e produção agrícola, com prioridade para jovens, mulheres e pessoas de baixa renda, em áreas urbanas e rurais. A combinação de crédito, mentoria e rede local aumenta as chances de o negócio atravessar os primeiros meses e gerar empregos no próprio território.
Governança
A governança do Ceará Sem Fome integra secretarias, municípios e entidades gerenciadoras com monitoramento de metas e rotas de auditoria. O desenho por editais garante transparência no credenciamento das cozinhas e na prestação de contas.
O programa se estrutura como política de base. Começa pelo prato, avança para a carteira assinada ou o CNPJ e retorna ao bairro em forma de renda. Nas filas das cozinhas, nos caixas dos mercados de rua, nas salas de aula, esse movimento ganha corpo. É assim que “sem fome, há esperança” deixa de ser slogan e vira prática diária em cada um dos 184 municípios cearenses.
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