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Relatório do governo Trump sobre saúde infantil cita estudos que não existem
O texto inclui citações incompletas e atribui a diversos cientistas artigos que eles afirmam não ter escrito
Pelo menos quatro dos estudos citados em um relatório sobre a saúde infantil publicado pelo governo norte-americano não existem, disseram nesta quinta-feira 29 à AFP os cientistas mencionados como autores na bibliografia do documento.
A comissão presidencial encarregada de avaliar as causas das doenças crônicas infantis publicou, em 22 de maio, o relatório “Torne a América saudável novamente” (MAHA, na sigla em inglês).
No entanto, o texto inclui citações incompletas e atribui a diversos cientistas artigos que eles afirmam não ter escrito.
A porta-voz da Casa Branca, Karoline Leavitt, descreveu os erros como “problemas de formatação” e disse que o relatório será atualizado para correção.
Segundo ela, o trabalho do secretário de Saúde, o cético das vacinas Robert F. Kennedy Jr., e sua equipe está “respaldado por boa ciência”.
Os erros foram denunciados pela primeira vez na quinta-feira pelo NOTUS, um site americano de notícias afiliado ao Allbritton Journalism Institute, uma organização sem fins lucrativos.
Noah Kreski, pesquisador da Universidade de Columbia, que aparece como autor de um trabalho sobre a ansiedade e a depressão dos adolescentes durante a pandemia de Covid-19, declarou à AFP que a citação atribuída a ele não é sua e “não parece ser” de nenhum outro estudo existente.
A citação inclui um link que supostamente direcionaria a um artigo da revista JAMA, mas Jim Michalski, porta-voz da publicação médica, disse que “não foi publicado no JAMA Pediatrics nem em nenhuma revista da JAMA Network”.
A epidemiologista da Universidade de Columbia Katherine Keyes, que também é listada como autora do suposto estudo da JAMA, disse à AFP que não sabe de onde vêm as estatísticas atribuídas a ela e afirma que não escreveu o artigo.
“Totalmente inventada”
Guohua Li, professor da Universidade de Columbia mencionado no relatório, disse que a referência a seu nome é “totalmente inventada” e que nem sequer conhece Kreski.
A AFP também falou com Harold Farber, professor de pediatria do Baylor College of Medicine, que afirmou que um artigo a ele atribuído “não existe” e que nunca colaborou com os coautores citados no relatório do governo americano.
Do mesmo modo, Brian McNeill, porta-voz da Virginia Commonwealth University, confirmou que o professor Robert Findling não é o autor de um artigo que o relatório afirma ser dele, sobre a publicidade de medicamentos psicotrópicos para jovens.
Um quarto artigo, sobre a medicação para transtorno de déficit de atenção com hiperatividade, tampouco foi publicado na revista Pediatrics em 2008, como se afirma no relatório MAHA, segundo Alex Hulvalchick, especialista em relações com os meios de comunicação da Academia Americana de Pediatria, editora da publicação.
O Departamento de Saúde e Serviços Humanos (HHS) se negou a fazer comentário e encaminhou as perguntas da AFP à Casa Branca.
Durante a coletiva de imprensa, Leavitt se negou a responder como o relatório foi elaborado e se foram utilizadas ferramentas de inteligência artificial.
Em um comunicado, o Comitê Nacional Democrata disse que o relatório está “repleto de desinformação”.
Kennedy foi aprovado como secretário de Saúde apesar das advertências da comunidade médica.
Desde que assumiu o cargo, ele ordenou aos Institutos Nacionais de Saúde que investigassem as causas do autismo, um transtorno que durante muito tempo Kennedy vinculou à vacina contra sarampo, caxumba e rubéola, uma teoria desacreditada por muitos estudos.
Ele também critica o aumento das prescrições de medicamentos psiquiátricos e antibióticos.
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