Augusto Diniz | Música brasileira

Jornalista há 25 anos, Augusto Diniz foi produtor musical e escreve sobre música desde 2014.

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Gil abre turnê de despedida misturando clássicos, funk consciente e memórias do exílio

Aos 82 anos, o cantor uniu netos, MC Hariel e sucessos históricos em uma noite memorável

Gil abre turnê de despedida misturando clássicos, funk consciente e memórias do exílio
Gil abre turnê de despedida misturando clássicos, funk consciente e memórias do exílio
Subo nesse palco. Tempo Rei, a Última Turnê, começa por Salvador e passa por pelo menos nove cidades do País até o fim do ano – Imagem: Giovanni Bianco
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Nesta sexta-feira 11, Gilberto Gil abriu o primeiro show da turnê “Tempo Rei, a Última Turnê” na capital paulista, diante de mais de 40 mil pessoas, com Palco — a mesma canção com que, em 1980, ensaiou uma despedida da música após alcançar status de pop star.

A escolha do repertório não poderia ser mais simbólica: aos 82 anos, Gil reafirma sua vitalidade e sua disposição em encerrar esse ciclo em festa. Como ele mesmo afirmou, ao anunciar a turnê de despedida, quer seguir fazendo música em outro ritmo.

O repertório priorizou sucessos dos anos 70 e 80, o que agradou o público nostálgico. Após a abertura, vieram Banda Um e Tempo Rei, que marcaram uma fase de reflexões profundas em sua obra. Em seguida, Eu Só Quero um Xodó, de Dominguinhos e Anastácia, evocou a infância em Ituaçu (BA), cidade onde teve o primeiro contato com a sanfona — instrumento que ganhou destaque com o solo virtuoso de Mestrinho, integrante da banda de 16 músicos que o acompanha.

Gil prosseguiu com Eu Vim da Bahia, imortalizada por João Gilberto, e com Procissão e Domingo no Parque, que remetem ao início da carreira, nos anos 60.

Gil transformou a despedida em festa (Foto: Augusto Diniz)

Um dos momentos mais marcantes do show veio com Cálice, composta com Chico Buarque durante a ditadura militar. Antes da canção, Chico apareceu no telão explicando sua criação. O estádio, em uníssono, grita “sem anistia”, e Gil responde com um olhar que consente. Preso pelo regime militar, ele interpreta a música em tom sombrio, acompanhado apenas pelo baixo do neto, João Gil.

Na sequência, Back in Bahia resgatou a felicidade do retorno do exílio, com solo de guitarra de Bem Gil, seu filho. Em Refazenda, o mesmo convidou ao palco a neta Flor, filha de Bela Gil, cuja voz delicada se perdeu na imensidão do estádio. Depois, veio Refavela, inspirada em sua vivência na Nigéria — história que ele compartilha com o público.

Outro ápice da apresentação veio quando Gil convidou MC Hariel, nome de destaque do funk paulista, para dividir A Dança, lançada em 2023. A performance, quase declamada, empolgou o público. Comentários como “que menino gracinha” foram ouvidos na plateia, mas é preciso lembrar: Hariel é hoje um dos artistas mais influentes das periferias brasileiras, com milhões de seguidores nas redes sociais.

A parte final do show trouxe uma sequência vibrante: Não Chore Mais (versão de No Woman, No Cry), Extra, Vamos Fugir, Realce e A Gente Precisa Ver o Luar. Depois, os roqueiros Punk da Periferia e Rock do Segurança. Sentado com violão, Gil emociona com Se Eu Quiser Falar com Deus, Drão e Estrela.

Depois, vieram Esotérico, Expresso 2222, Andar com Fé e Emoriô — essa última, composta com João Donato em 1975, resgatada recentemente pelo BaianaSystem, em colaboração com Gil.

Quase duas horas depois do início, ele entoa Aquele Abraço, que remete à prisão no Rio de Janeiro antes do exílio, em 1969. No bis, Esperando na Janela embala casais em passos de forró no gramado do estádio lotado.

O encerramento vem com Toda Menina Baiana. Como tem ocorrido nesta turnê, o público delirou no refrão:

“Ah, ah, ah, ah, que Deus deu / Oh, uoh, que Deus dá”.

Que sorte temos de estar diante de um dos gênios da música brasileira que Deus nos deu.

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