Do Micro Ao Macro

Uso do boletim Focus como balizador da economia carrega conflito de interesse, aponta entidade

Conselho Regional de Economia questiona influência das projeções financeiras sobre a política de juros e defende ampliação da diversidade na amostra

Uso do boletim Focus como balizador da economia carrega conflito de interesse, aponta entidade
Uso do boletim Focus como balizador da economia carrega conflito de interesse, aponta entidade
Mulheres no mercado financeiro: 5 principais desafios e como romper barreiras
Apoie Siga-nos no

O Conselho Regional de Economia da 2ª Região – SP (Corecon-SP) publicou um comunicado com críticas ao uso do Boletim Focus como base para decisões econômicas.

Segundo a entidade, o levantamento semanal do Banco Central induz agentes públicos e privados a interpretações equivocadas.

O Focus apresenta projeções de cerca de 160 instituições financeiras e consultorias sobre inflação, juros, PIB e câmbio.

Embora seja divulgado pelo BC, o conteúdo representa exclusivamente a expectativa do mercado.

Ainda assim, o boletim influencia as deliberações da própria autoridade monetária sobre a taxa Selic, atualmente em 14,25% ao ano.

Participantes buscam retorno com juros altos

O Corecon-SP destaca que os participantes do Focus têm interesse direto em manter juros elevados.

Essas instituições aplicam fortemente em títulos públicos, que oferecem liquidez e baixo risco, com remuneração atrelada à Selic.

Por isso, segundo o documento, há um incentivo para que as projeções pressionem por uma taxa básica mais alta.

“O conflito de interesses é visível quando as instituições que opinam são as mesmas que lucram com juros elevados”, afirma o texto.

Erros sucessivos nas projeções

O Conselho chama atenção para os desvios frequentes entre as projeções do Focus e os resultados efetivos da economia.

Entre o primeiro e o último relatório de 2024, a estimativa do IPCA variou de 3,9% para 4,9%.

A previsão para o PIB passou de 1,59% para 3,49%, e o dólar saltou de R$ 5,00 para R$ 6,00.

Já a Selic projetada subiu de 9% ao ano para 11,75% ao ano.

Essas mudanças indicam, segundo o Corecon-SP, fragilidade técnica nas previsões.

Mercado expressa desejo, não expectativa

Para o Conselho, as projeções revelam mais o desejo dos participantes do que análises baseadas em fundamentos.

Existe, segundo o texto, um incentivo quase sem risco para inflar artificialmente as expectativas de inflação.

Esse comportamento ajudaria a justificar a manutenção da taxa Selic em patamares elevados.

Como resultado, os juros reais seguem altos e favorecem os ganhos do setor financeiro.

Impacto sobre investimentos e emprego

O Corecon-SP também aponta consequências práticas da influência do Focus sobre a economia real.

Empresários deixam de investir diante das expectativas pessimistas, o que afeta o crescimento e a geração de empregos.

Segundo o texto, a falta de diversidade entre os respondentes contribui para esse efeito.

Com predominância de agentes financeiros, o levantamento desestimula decisões voltadas à atividade produtiva.

Conselho propõe alternativas

Para reduzir o desequilíbrio, o Corecon-SP defende ampliar a representatividade no levantamento.

A entidade cita o Relatório Firmus como exemplo de abordagem complementar.

A pesquisa é realizada trimestralmente e foca a percepção de empresas não financeiras sobre a economia.

Em fase piloto, a iniciativa já está na terceira edição e busca captar como as variáveis econômicas influenciam a atividade empresarial.

“O Firmus precisa ganhar visibilidade e apoio institucional”, afirma o comunicado.

A íntegra do documento pode ser lida aqui .

ENTENDA MAIS SOBRE: , , ,

Jornalismo crítico e inteligente. Todos os dias, no seu e-mail

Assine nossa newsletter

Assine nossa newsletter e receba um boletim matinal exclusivo

Apoie o jornalismo que chama as coisas pelo nome

Muita gente esqueceu o que escreveu, disse ou defendeu. Nós não. O compromisso de CartaCapital com os princípios do bom jornalismo permanece o mesmo.

O combate à desigualdade nos importa. A denúncia das injustiças importa. Importa uma democracia digna do nome. Importa o apego à verdade factual e a honestidade.

Estamos aqui, há mais de 30 anos, porque nos importamos. Como nossos fiéis leitores, CartaCapital segue atenta.

Se o bom jornalismo também importa para você, nos ajude a seguir lutando. Assine a edição semanal de CartaCapital ou contribua com o quanto puder.

Quero apoiar

Jornalismo crítico e inteligente. Todos os dias, no seu e-mail

Assine nossa newsletter

Assine nossa newsletter e receba um boletim matinal exclusivo