Esporte
Por que proibir torcidas e fechar estádios não resolve a violência no futebol
Para João Vitor Sudário, membro do Observatório Social do Futebol e estudioso do tema, punições generalizadas penalizam inocentes e não aliviam o problema
Episódios de selvageria entre torcidas organizadas, como o recente confronto entre torcedores de Sport e Santa Cruz, no Recife, poderiam ser evitados se o poder público, o Judiciário e os clubes de futebol atacassem as raízes do problema, em vez de adotarem punições coletivas ineficazes. A análise é do pesquisador João Vitor Sudário, membro do Observatório Social do Futebol e mestrando na Universidade Federal Fluminense.
Para Sudário, a violência nesse contexto é “multifacetada” e não se restringe ao futebol ou às torcidas organizadas. Disputas territoriais e a necessidade de reafirmação da masculinidade, por exemplo, existiriam independentemente do esporte.
“Não vejo a torcida, necessariamente, como um motor da violência. O problema está na sociedade. O futebol, nesse caso, é só um pretexto”, afirma, destacando que a cultura das torcidas vai além da violência e inclui diferentes formas de organização e pertencimento.
Ainda assim, ele reconhece que há grupos de torcedores mais propensos a brigas, mas isso, segundo ele, se deve mais à condição humana do que à organização sob uma bandeira. “A gente tem vários outros modos de torcer que vão além das torcidas de ‘pista’”, como são conhecidas as torcidas organizadas.
A “pista” e a violência
Os torcedores de ‘pista’, explica a literatura sobre o tema, são aquelas que estão mais distantes da esfera da festa popular do futebol. Conforme explica o cientista social Hugo Macedo de Araújo em seu artigo Entre a ‘pista’ e a ‘arquibancada’, a “pista” valoriza códigos de lealdade e coragem para defender a honra do grupo, muitas vezes por meio de confrontos físicos. A territorialidade e os deslocamentos urbanos desses grupos também contribuem para os riscos e embates.
A visão simplista de que todos os torcedores são um risco para a sociedade, contudo, tem alimentado erros na condução do problema pelo poder público, destaca o pesquisador, que divide a resposta equivocada das autoridades em três eixos.
Jogos com portões fechados, sem a presença de torcedores; jogos com torcida única, tendo a presença apenas de apoiadores do time mandante da partida; e punições coletivas para torcidas organizadas, como a proibição de frequentar os estádios com camisas e bandeiras de um grupo ou mesmo a extinção de CNPJs.
O fechamento total dos portões, defende o pesquisador, penaliza não apenas os torcedores, mas toda a cadeia econômica que se forma ao redor dos estádios em dias de jogos. Os principais afetados, neste caso, são trabalhadores formais e informais. O clube também perde receita
Já os jogos de torcida única seriam ineficientes por dois motivos por que a maioria das brigas, conforme aponta o Relatório Violências no Futebol Brasileiro, do Observatório do Futebol, acontecem fora dos estádios. Estados como Paraná e São Paulo, que já adotaram essa medida, seguem registrando altos índices de violência entre torcedores.
Por fim, a extinção do CNPJ de torcidas organizadas não responsabiliza os verdadeiros culpados. Muitas torcidas, inclusive, já mudaram de nome e reabriram após terem seus registros cassados. “Neste confronto em Recife, ambas as torcidas envolvidas já têm nome diferente dos nomes originais, justamente porque os CNPJs já foram punidos”, exemplifica Sudário. “É preciso punir o CPF, a pessoa física, e não apenas o CNPJ da associação”, defende o pesquisador. “Os integrantes que não praticaram violência não podem pagar o preço pelos outros.”
Saídas possíveis
Além da punição aos responsáveis diretos, Sudário defende a criação de um canal de diálogo entre poder público, clubes, pesquisadores, sociedade civil e torcedores para definir protocolos de segurança nos deslocamentos antes e depois dos jogos – locais onde ocorrem a maioria dos conflitos.
Segundo ele, cada partida exige uma análise específica, pois clássicos e confrontos históricos demandam estratégias diferentes. Esse diálogo poderia ser coordenado nacionalmente, mas precisa ser aplicado de forma descentralizada por estados e municípios.
Outras possibilidades incluem:
- Criação de grupamentos policiais especializados em eventos esportivos.
- Melhoria da coordenação entre forças de segurança pública e privada.
- Treinamento de agentes para lidar com multidões e uso correto de armamentos não letais.
O apoio à pesquisa acadêmica sobre a cultura das torcidas organizadas, para que políticas sejam baseadas em dados e não em estereótipos, também é fundamental. O pesquisador cita como exemplo o Mapa das Alianças, do Observatório Social do Futebol, que rastreia rivalidades e parcerias entre torcidas organizadas, permitindo ações preventivas antes de possíveis conflitos.
“A ciência pode ajudar a abrir o diálogo com a sociedade e evitar que as torcidas – elementos fundamentais da cultura brasileira – sejam marginalizadas”, conclui.
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