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Uma improvável história de amor

‘Meu Bolo Favorito’ é um retrato sutil da sociedade iraniana e uma ode à capacidade humana de buscar a alegria

Uma improvável história de amor
Uma improvável história de amor
Censura. A delicadeza e a graça da trama não foram suficientes para impedir que os diretores da obra fossem perseguidos pelo governo – Imagem: Hamid Janipour/Imovision
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A produção iraniana sedimentou seu lugar de prestígio no circuito internacional do cinema de arte a partir dos anos 1990. Naquela década, foram muitos os diretores do país com obras não só selecionadas, mas premiadas em festivais importantes – Cannes e Berlim à frente.

À época, realizadores como Abbas Kiarostami (Gosto de Cereja, 1997) – que havia despontado para o mundo nos anos 1980 –, Mohsen Makhmalbaf ­(Gabbeh, 1996), Majid Majidi (Filhos do Paraíso, 1997) e Jafar Panahi (O Balão Branco, 1995) pavimentaram a estrada pela qual muitos outros cineastas caminhariam.

A quem achava que o cinema iraniano era então uma moda, a resposta foi chegando em forma de mais produções e mais prêmios. Em 2011, Asghar ­Farhadi ganhou o Oscar de Melhor Filme Internacional por A Separação, filme que rompia com o que passou a ser reconhecido – de forma superficial – como uma estética iraniana.

A pluralidade vinda desse país, que é o maior produtor cinematográfico do Oriente Médio, volta a ser posta em evidência em Meu Bolo Favorito, ganhador do prêmio do Júri Ecumênico no Festival de Berlim que foi lançado nos cinemas brasileiros, pela Imovision, na semana passada.

O filme é uma pérola. Protagonizado por um casal de idosos que, de forma absolutamente inesperada, se abre para o amor, Meu Bolo Favorito é um retrato sutil da sociedade iraniana e uma ode à capacidade humana de buscar, nas mínimas frestas da vida, réstias de sol.

Nem toda a delicadeza e graça da trama foram, porém, capazes de impedir que o casal de diretores, Maryam ­Moghaddam e Behtash Sanaeeha, fosse perseguido pelo governo do país – como, infelizmente, outros de seus colegas.

Eles foram acusados de burlar as regras do Islã e agir contra o regime. Um dos motivos para a censura deve ser o fato de Mahin (Lili Farhadpour), uma viú­va de 70 anos que vive sozinha numa bem cuidada casa onde cultiva um belo jardim, ser mostrada com a cabeça descoberta, bebendo álcool e dançando com um homem que acabara de conhecer.

Quando se preparavam para viajar para a França, para montar o filme, Maryam e ­Sanaeeha tiveram, segundo o Guardian, seus passaportes confiscados e o material filmado, apreendido. Por sorte, havia uma cópia na Europa.

Premiados em Berlim, no início de 2024, eles não puderam estar na cerimônia e, desde então, para divulgar Meu Bolo Favorito, deram umas poucas entrevistas do apartamento em que vivem, em Teerã. •

Publicado na edição n° 1345 de CartaCapital, em 22 de janeiro de 2025.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Uma improvável história de amor’

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