Riad Younes

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Médico, diretor do Centro de Oncologia do Hospital Alemão Oswaldo Cruz e professor da Faculdade de Medicina da USP.

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A doença na guerra

Estudos recentemente publicados na revista Lancet Psychiatry detalharam a gravidade dos problemas de saúde mental enfrentados pela população de Gaza

A doença na guerra
A doença na guerra
Um homem ferido reage sentado sobre os escombros de um prédio atingido por um ataque israelense em Beit Lahia, no norte da Faixa de Gaza, em 29 de outubro de 2024, em meio à guerra em curso entre Israel e o Hamas. Foto: AFP
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Desde outubro de 2023 o mundo está observando o desenrolar de uma guerra intensa, com destruição sem precedentes e o sofrimento humano gradativamente beirando a catástrofe.

Infelizmente, os ataques e os bombardeios já envolvem, além de Gaza, o Líbano e, menos intensamente, a Síria. E não há perspectiva de um fim imediato para as atrocidades.

Do ponto de vista médico, esses ataques afetam profundamente a todos na região, complicando seu precário estado de saúde, como alerta o doutor Fulvio Alexandre Scorza, professor do Departamento de Neurologia e Neurocirurgia da Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo (EPM/Unifesp).

Estudos recentemente publicados na revista Lancet Psychiatry, pelos doutores Jabr S e Jamei YA, que atuam na Palestina com colaboração de especialistas da Organização Mundial da Saúde, detalharam a gravidade dos problemas de saúde mental enfrentados pela população de Gaza durante o conflito.

Conversamos com professor Fulvio sobre as consequências das guerras, principalmente no sistema nervoso central das pessoas nelas envolvidas.

CartaCapital: A guerra no Oriente Médio, assim como na Ucrânia, parece sem-fim. Que implicações isso tem sobre a saúde da população atingida?
Fulvio Alexandre Scorza: Estamos vivendo uma epidemia de guerras. As guerras, além de causar uma perda significativa de vidas humanas, têm efeito catastrófico e duradouro na saúde global. A guerra força, por exemplo, as pessoas a se deslocarem de suas casas em busca de segurança. A Organização das Nações Unidas (ONU) estima que 70 milhões de pessoas tenham perdido suas casas recentemente, devido às guerras. Esses indivíduos, muitas vezes, perdem o acesso a água potável, alimentação de qualidade e a uma estrutura adequada de saneamento básico. Isso, além de aumentar o risco de desnutrição e doenças relacionadas a ela, leva ao aumento de várias doenças infecciosas em populações de refugiados, como tuberculose, raiva, leishmaniose e hepatite B.

CC: Nas zonas de guerra aumenta também o risco social das pessoas.
FAS: Claro. Observamos que as mulheres que vivem em zonas de guerra ou próximas a elas enfrentam um risco maior de estupro e violência sexual, gravidez indesejada e dificuldades de acesso aos serviços de atenção integral à saúde da mulher. Nesse sentido, a guerra impacta também a saúde física e mental de crianças.

CC: Como a ciência avalia os efeitos da guerra na saúde mental e do cérebro?
FAS: Dados atuais apontam que 54% dos ucranianos apresentam transtorno do estresse pós-traumático (TEPT), 21% ansiedade severa e 27% sentem-se deprimidos ou muito tristes. Na Rússia, tem ocorrido um aumento considerável na compra de antidepressivos e medicamentos para dormir desde a invasão da Ucrânia. Apesar de depressão e ansiedade serem as condições mais comuns na Rússia, o aumento dos problemas de saúde mental está relacionado ao número crescente de homens que regressam com TEPT das zonas de conflitos.

CC: Existem dados a respeito desses distúrbios causados pela guerra no Oriente Médio?
FAS: Sim, e tem-se verificado que 26% dos jovens libaneses apresentam depressão; 44% ansiedade – aí incluída a ansiedade de separação – e 26% têm TEPT. Na Síria, o cenário é igualmente alarmante. A avaliação da saúde mental da população e de refugiados sírios no período de guerra revelou que a depressão variou de 11% a 49%, a ansiedade de 49% a 55% e que 37% desses indivíduos apresentavam sintomas de TEPT. Similarmente, os ataques em Gaza têm tirado vidas de crianças, adultos e idosos e deteriorado a saúde física e mental das pessoas. Vários estudos demonstram que a exposição à violência, à destruição generalizada e à perda de familiares e amigos tem aumentado os casos de depressão, ansiedade e TEPT em ambas as populações. Sem pormenorizar, os transtornos mentais são fenômenos complexos caracterizados por alterações na atividade cerebral. Atualmente, recomenda-se a atuação de equipes multidisciplinares para proporcionar acolhimento e abordagens terapêuticas eficazes para o restabelecimento das funções cerebrais, aliviando o sofrimento causado pelos transtornos mentais. Em meio à guerra, é extremamente difícil enxergar os caminhos terapêuticos possíveis. Após períodos de guerra, o processo de reconstrução da saúde mental é viável e necessário. Nesse sentido, os cientistas clamam por paz. •

Publicado na edição n° 1338 de CartaCapital, em 27 de novembro de 2024.

A opinião de colunistas e articulistas não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.

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