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Sobre o exercício da renúncia

Para Adam Phillips, não conseguir desistir é ser incapaz de aceitar a perda e a vulnerabilidade

Sobre o exercício da renúncia
Sobre o exercício da renúncia
O autor equilibra-se entre a psicanálise, a filosofia e a literatura – Imagem: Colin McPherson/Corbis
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Em tempos de Olimpíadas e de reviravolta nas eleições norte-americanas, com a desistência de Joe Biden, Sobre Desistir, de Adam Phillips, professor visitante no Departamento de Inglês da Universidade de York, no Reino Unido, ganha um sabor especial.

Phillips, autor de duas dezenas de livros de sucesso que trafegam entre psicanálise, filosofia e literatura, procura mostrar, no volume lançado recentemente no Brasil, que “entregar os pontos” pode ser também uma “forma de ganhar pontos”.

Lê-se, já no prólogo, que toda escolha é, por definição, excludente: “Abrir mão é sempre sacrificar algo em prol de outra coisa que acreditamos ser melhor”. O que ele busca, no fundo, é desatrelar a desistência – ou o deixar de querer – da ideia de fracasso.

O título leva a crer que o livro trate da desistência, mas o conjunto de sete textos esparrama-se por outros tantos temas, presentes em capítulos cujos títulos são autoexplicativos: Sobre Ser Excluído, Sobre Não Acreditar em Nada etc. Embora falte ao todo organicidade, as partes são interessantes e envolventes para o leitor comum – ou seja, não especializado em psicanálise.

Sobre Desistir. Adam Phillips. Tradução: Breno Longhi. Ubu (160 págs., 59,90 reais) – Compre na Amazon

Conhecedor de literatura que é, Phillips recorre a Kafka, Henry James, Thomas Mann, Camus – que escreveu sobre o suicídio, a forma máxima de desistência –, aos heróis trágicos de ­Shakespeare e às “perplexidades essenciais” de Borges para conduzir o leitor pelas possibilidades e armadilhas da nossa psique e do nosso comportamento.

Mas nenhuma referência se fará tão presente quanto Sigmund Freud e aqueles que o contradizem ou complementam, de Lacan a Winnicott, passando por ­Christopher Bollas. Editor das traduções inglesas da obra de Freud, Phillips tem muito presentes, em suas reflexões, os conceitos de desejo, sonho, self e vitalidade.

A “fonte de vitalidade” é, inclusive, uma de suas preocupações centrais. A pergunta que abre o texto Morto ou Vivo é: “De que você precisa abrir mão para se sentir vivo?” Mais adiante, escreverá: “Quais são as vidas que acreditamos querer e por que acreditamos que as queremos.” A vitalidade, em sua definição, é a “experiência de estar vivo”, de florescer.

E tudo isso, de acordo com ele, está ligado também à frustração, aprofundada em Sobre Não Querer. “É na infância que somos introduzidos aos benefícios e ao sofrimento muito real implicados na frustração. E, sobretudo, é na infância que somos encorajados a abrir mão de nossa megalomania”, escreve. Abrir mão e frustrar-se, no fim, nada mais é que viver. •

Publicado na edição n° 1323 de CartaCapital, em 14 de agosto de 2024.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Sobre o exercício da renúncia’

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