Maiara Folly

Diretora-executiva da Plataforma CIPÓ, instituto de pesquisa especializado em questões de clima e relações internacionais

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Impasse com países ricos coloca em xeque nova meta de financiamento climático

Para o Brasil, sem uma meta de financiamento climático robusta, o caminho até a COP30, em Belém, será espinhoso

Impasse com países ricos coloca em xeque nova meta de financiamento climático
Impasse com países ricos coloca em xeque nova meta de financiamento climático
Ativistas protestam na COP28. Foto: Karim SAHIB / AFP
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Terminam nesta quinta 13, em Bonn, na Alemanha, as negociações preparatórias para a próxima conferência da Convenção das Nações Unidas sobre Mudança do Clima, a COP29, que acontecerá em novembro, em Baku, no Azerbaijão.

O encontro, que durou duas semanas, foi marcado por uma forte divisão entre os países desenvolvidos e os em desenvolvimento. Como resultado, houve pouquíssimo avanço em relação ao principal tema de negociação deste ano: a definição de uma Nova Meta Coletiva Quantificada de Financiamento Climático (NCQG, na sigla em inglês), que substituirá os 100 bilhões de dólares anuais que os países ricos prometeram para promover a ação climática no sul global, mas não chegaram a cumprir.

As divergências são muitas, mas em grande medida se concentram em torno de dois “Qs”: qualidade e quantidade. Países como o Brasil exigem uma definição qualitativa do que deve ser considerado financiamento climático. Isso porque os países ricos tendem a contabilizar empréstimos, inclusive aqueles de fontes privadas e concedidos a taxas de juros de mercado, que têm contribuído para o endividamento das nações mais pobres. Estas, por sua vez, demandam que o financiamento venha sobretudo de fontes públicas, em forma de doações e em termos altamente concessionais por parte do Norte Global, historicamente o maior responsável pela emissão de gases poluentes.

Bonn não foi capaz de entregar sequer um texto que possa servir de base para negociações futuras

O Quantum, ou seja, a quantidade de recursos a ser disponibilizada, também é motivo de impasse. Negociadores de países do Sul Global propuseram montantes na ordem de 1 trilhão de dólares anuais a partir de 2025. Por outro lado, os países que devem pagar essa conta não apresentaram nenhuma cifra à mesa.

Com isso, Bonn não foi capaz de entregar sequer um texto que possa servir de base para negociações futuras. E, se o impasse técnico permanecer também no nível político, um acordo sobre uma NCQG pode não ocorrer esse ano.

Essa seria uma péssima notícia para o mundo em desenvolvimento, que necessita urgentemente de recursos substanciais para promover a mitigação e a adaptação climática, além de lidar com as perdas e danos causados pelos eventos climáticos extremos, como o que assolou o Rio Grande do Sul. Para o Brasil, sem uma meta de financiamento climático robusta, o caminho até a COP30, em Belém, será espinhoso.

Portanto, é fundamental que a diplomacia brasileira exerça liderança para ajudar a romper o impasse dos dois “Qs” no âmbito da Convenção da ONU sobre Mudança do Clima, mas também contribua para soluções fora dela. Na condição de presidente do G20, o Brasil precisa incentivar resultados concretos em relação à reforma da arquitetura financeira internacional, ao perdão e à renegociação justa de dívidas dos países altamente endividados, assim como soluções como uma taxação global sobre a riqueza dos super-ricos. Todos esses esforços devem estar focados em garantir que os países desenvolvidos forneçam financiamento com a qualidade e a quantidade necessárias para assegurar uma transição global em direção a economias sustentáveis e socialmente justas.

A opinião de colunistas e articulistas não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.

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